Educação como hábito

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey concebe a educação como crescimento. A noção de hábito desempenha papel importante nesta concepção. Sem hábito não há crescimento; sem ele o ser humano não se desenvolve, permanecendo a espécie humana estagnada. O que significa então o hábito?

Nossa compreensão usual de hábito refere-o ao procedimento rotinizado: torna-se hábito tudo aquilo que de tanto se repetir vira costume. No início pode até ser difícil, o ser humano resiste, mas depois, habitualizada, esta ou aquela ação é aceita e passa a ser feita de maneira mecânica, sem necessidade de pensamento. O exemplo claro disso é a resistência inicial da criança para escovar os dentes. No início ela não quer e reclama, objetando: por que tenho que escovar meus dentes três vezes ao dia? Depois de muita conversa e insistência dos pais, ela acaba cedendo e se acostuma, pois sabe que após as refeições precisa higienizar seus dentes.

Dewey compreende o hábito também desta maneira, como um comportamento rotinizado, mas lhe atribui um sentido mais profundo, filosófico e formativo. Compreende o hábito como mecanismo principal da mediação do ser humano com o meio ambiente. Define-o duplamente, como “destreza de execução da ação” e como “disposição intelectual”. Embora cada uma destas dimensões do hábito difira muito uma da outra, constitui ambas, no seu conjunto, a educação como crescimento. Considerando o papel importante do hábito, é preciso reconstruir como Dewey define cada uma das dimensões acima.

O hábito como destreza de execução da ação relaciona-se, em certo sentido, com o exemplo dado acima da criança que aprende a rotina de escovar os dentes. Esta dimensão do hábito refere-se à relação do ser humano com o meio ambiente por meio de seus órgãos sensoriais. Neste sentido, toda a ação humana é uma maneira de intervir no meio ambiente e o ser humano desenvolve tal intervenção de maneira mais sensitiva ou mais racional, combinando as duas, normalmente sob prevalência de uma.

Na dimensão do hábito como destreza de execução da ação destacam-se algumas características. A primeira diz respeito ao controle ativo que o ser humano faz do ambiente, ou pelo menos tenta fazê-lo, por meio do controle de seus órgão dos sentidos e de suas próprias forças físicas. A criança precisa educar sua mão para poder movimentar adequadamente a escova dental. Sem esta educação, o resultado de sua ação é ineficiente, ou seja, os dentes não ficam bem escovados. Se não aprender a coordenar bem os movimentos de sua mão, também não conseguirá escrever. Dewey exemplifica: “Ser capaz de andar é ter certas propriedades da natureza a nossa disposição e o mesmo ocorre com os demais hábitos”.

A segunda característica do hábito como destreza de execução da ação é sua característica predominantemente passiva. Ou seja, há uma inclinação natural muito forte de o ser humano buscar se adaptar ao meio que o cerca. Dewey exemplifica dizendo que nos acostumamos rapidamente a usar as mesmas roupas e os mesmos calçados. Movidos por esta dimensão do hábito buscamos rapidamente nossa zona de conforto e corremos o risco de estagnarmos. Se nos mantermos somente nesta dimensão, não fazemos educação como crescimento.

Por isso, Dewey insiste na terceira característica do hábito, ou seja, em sua dimensão ativa, como um controle ativo dos meios para a consecução de fins. Este controle ativo pressupõe a capacidade humana para modificar o que está a sua volta. Neste sentido, o ser humano não é somente um ser passivo; também é um ser ativo, que vai de encontro ao mundo que o rodeia, visando modifica-lo à sua vontade. Disso depreende-se a ideia de que educação não é só adaptação, mas também transformação.

Ora, é o hábito como disposição intelectual que torna possível de o ser humano tornar-se ativo e buscar, além de adaptar-se ao meio, também de transformá-lo. Mas, o que significa disposição intelectual? Trata-se, como afirma Dewey, de um modo definido de compreender o modo como o hábito opera com as situações. Este modo de compreensão traduz-se em formas de pensamento, observação e reflexão que acompanham as ações de qualquer profissional.

Ao projetar uma ponte ou uma usina, o engenheiro precisa desenvolver habilidades orientadas por desejos e ideais de beleza que dão o tom ao seu projeto. Ao cuidar da saúde de seu paciente, o médico desenvolve determinadas habilidades orientadas pelo pensamento e observação. Ao educar uma criança, o adulto faz uso de pensamentos que se deixam guiar por ideais éticos, estéticos e humanos. Ele quer contribuir para que a criança torne-se cada vez mais humana.

Fazer o esforço permanente de referir os hábitos humanos à disposição intelectual é uma tarefa central da educação. Dewey preza muito esta exigência, pois tem consciência de que se os hábitos se deixarem reduzir somente aos modos rotineiros de ação, correm o risco de se degenerarem, escravizando os próprios portadores do hábito. Neste sentido, hábitos rotineiros sem pensamentos transformam-se facilmente em “maus” hábitos. Tais hábitos, sem pensamentos, põem fim a própria plasticidade humana.

Pode-se ver, neste contexto, o quanto é importante compreender o hábito como disposição intelectual, pois é ele que permite o ser humano variar seu comportamento, encontrando sempre novas respostas para velhos e novos problemas. É a disposição intelectual que torna eficiente a plasticidade humana, lançando o ser humano para a descoberta de novos caminhos. Educação como hábito nada mais é, neste sentido, do que a disposição intelectual para dinamizar a plasticidade humana.

Somos diferentes porque possuímos a capacidade humana de variar nossas disposições e o fazemos por meio de nossas disposições intelectuais. Neste sentido, é papel da educação criar o ambiente pedagógico necessário para o desenvolvimento pleno das disposições intelectuais no processo de formação dos hábitos.     

 

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