A derrota da democracia

Postado por: José Ernani Almeida

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Encerrado o pleito municipal - embora nas capitais ainda haja o 2º turno - é possível fazer uma análise dos seus resultados. Ficou óbvio o crescimento dos partidos de direita, o que já era esperado, após o golpe que se explicita a cada medida do governo Temer, desvelando os interesses articulados entre grande imprensa, Judiciário e Legislativo. 

Na verdade, a ofensiva reacionária e conservadora da oligarquia contra os governos de esquerda nunca cessou durante os últimos 15 anos e, agora, colhe vitórias substanciais. Este é um fenômeno que se observa em vários países latino-americanos. Entre nós, até mesmo a classe trabalhadora, se deixou seduzir pelo imaginário da classe média e votou com ela. 

Esta absorção se manifesta na disputa entre duas formulações ideológicas que enfatizam a individualidade bem-sucedida, segundo a  socióloga  Marilena Chauí: a “teologia da prosperidade”, do pentecostalismo, e a  “ideologia do empreendedorismo”, de classe média neoliberal (o sonho de virar burguesia). 

Assim, por se constituir no interior do momento neoliberal do capitalismo, a nova classe trabalhadora brasileira, se torna propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela classe média, já que esta classe trabalhadora, ainda não criou formas de organização e de expressão pública. Ela passa a agir de forma pragmática. Apoia candidatos que são contra qualquer política de distribuição de renda, contra as cotas etc. Ela não quer mudanças que beneficiem o coletivo, acreditando na meritocracia, esquecendo que em nossa realidade, ela nunca terá nenhuma chance no modelo meritocrático. 

A classe trabalhadora, enfim, é levada a acreditar que faz parte de uma nova classe média brasileira. Quando na realidade está longe disto. O pobre de direita, como me disse um amigo, festeja em São Paulo, a vitória de Dória, porque vê nele um empresário bem sucedido, sonho de todo o pobre de direita que acredita no discurso meritocrático. 

Os que apontam como maior resultado da eleição a derrota da esquerda (PT) esquecem de um pequeno grande detalhe: o grande vencedor desta eleição foi, na verdade, o candidato  “ninguém”, isto é, os votos nulos e em branco. Eles superaram de forma extraordinária a votação dos eleitos ou dos candidatos do segundo turno. Em Porto Alegre 34,8% do eleitorado votou no candidato “ninguém”, enquanto apenas  29,84% apoiaram o mais votado para prefeito. Este fenômeno repetiu-se em todo o país. É um sintoma muito grave. A descrença no processo eleitoral e na democracia. Esta sim, a grande derrotada na eleição. É a manifestação do desencanto do eleitor com os políticos e com as práticas políticas. É consequência do recente golpe perpetuado no país  e, igualmente, da conduta dos políticos  de todos os partidos. 

Já  a esquerda precisa fazer uma autocritica. Avaliar os caminhos que percorreu. Onde acertou, onde errou e não repetir os erros. Outra constatação. Para muitos a corrupção na administração do PT provocou a sua  derrota. Contraditoriamente, os partidos mais votados, igualmente,  estão atolados  em corrupção de todo o gênero. A corrupção da direita  é tolerada?  PMDB, PSDB ,PP  são paraísos da ética?   Os analistas da direita  fazem uma avaliação de um reducionismo espantoso. Para eles foi, simplesmente, a vitória do “bem” contra o “mal”. É o maniqueísmo à serviço de uma  ideologia.

Em Passo Fundo, a vitória consagradora de Luciano Azevedo, foi o reconhecimento, por parte do eleitorado, de forma cabal, da competente administração feita ao longo dos últimos  4 anos. Luciano Azevedo tem a verdadeira  vocação  para a política. Entende, como poucos, que política exige  tanto  paixão  como perspectiva. 

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