Educação e meio ambiente

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Dewey dedica o segundo capítulo de Democracia e Educação para tratar da função social da educação. Parte da ideia de que a educação possui função social porque está inserida em um ambiente social. Pensar a função social da educação não é suficiente, como poderia parecer à primeira vista, considerando somente a ideia de sociedade. É preciso pensar a noção de meio ambiente, na qual sociedade e indivíduos estão inseridos.

Qual é então sua compreensão de meio ambiente? No segundo capítulo de Democracia e Educação aparece de maneira clara a influência de duas tradições científicas, a teoria da evolução de Darwin e o behaviorismo social do início do século XX. Neste período Darwin domina a cena intelectual do mundo anglo-saxônico, especialmente do Estados Unidos.

A influência de Darwin significa considerar em igual medida os seres humanos entre os seres vivos. Todos nascem, crescem, se desenvolvem e perecem. O evolucionismo darwiniano permite Dewey fugir do especismo, como teoria que coloca o ser humano no centro das espécies. Portanto, sob o ponto de vista evolutivo, somos iguais a todas as outras criatura vivas, pois estamos submetidos às mesmas leis implacáveis da evolução.

Do behaviorismo social, cujo principal representante é J. B. Watson, Dewey herda a noção de ser humano como um organismo que se comporta por meio do mecanismo estímulo-reação. Ao sermos estimulados reagimos ao meio, buscando superar os obstáculos que ele nos interpõe. Somos condicionados ao meio através de nossa estrutura biológica: com sede e fome nosso organismo reage, impulsionando-nos a buscar água e comida. Na busca para suprir as necessidades básicas, acionamos nossas capacidades instintivas. Daí o esforço de todo o ser vivo para adaptar-se ao meio em que vive. Sem adaptação não há sobrevivência.

Mas Dewey não permanece um evolucionista darwiniano ao pé da letra e menos ainda pensa o comportamento humano à moda de Watson. Inserindo-se na tradição pragmatista, sobretudo pela influência de seu colega de trabalho na Universidade de Chicago e grande amigo pessoal Georg Herbert Mead, desenvolve um conceito sofisticado de ação humana. De acordo com tal conceito o ser humano é um ser que age inteligentemente e, por isso, possui a capacidade de interagir de maneira específica com o meio ambiente. Por desenvolver o hábito como disposição intelectual, o ser humano não só se adapta, mas também possui a capacidade de transformar o meio em que vive.

É a noção de hábito como disposição intelectual que permite ao ser humano compreender o meio ambiente não só como um ambiente natural e físico, mas também como um ambiente construído social e culturalmente. Neste sentido, meio ambiente não é só o objeto físico que está à sua frente, resultado de suas representações sensíveis e uma coisa a ser manipulada para atender seus desejos imediatos.

Diz Dewey: “As palavras ‘ambiente’ e ‘meio’ designam algo mais que os lugares próximos aos homens. Designam a continuidade específica desses lugares com suas próprias tendências ativas”. O ambiente não representa somente o objeto físico ocupando um lugar específico no espaço. Significa a relação que as coisas mentem entre si de uma maneira ativa. Neste sentido, da mesma forma que o ser humano interfere no meio ambiente, este também modifica ativamente a própria condição humana. Meio ambiente não é só algo passivo, somente a espera de ser manuseado. Também é ativo, interferindo no modo de constituição biológica e intelectual do ser humano.

Considerando isto, a educação é um processo de interação recíproca entre ser humano e meio ambiente: ambos se interferem mutuamente. Têm-se, com isto, a noção abrangente, holística de educação, pois não se trata de pensar a interação somente entre seres humanos, mas também deles com o meio ambiente. Interação quer dizer exatamente isto, que não é um processo unilateral, de mão única, mas de mão dupla, um ir e vir entre seres humanos e meio ambiente. É com base neste princípio de interação recíproca que também brota o princípio de respeito recíproco entre os seres humanos para com a natureza.

Sem a consideração do meio ambiente como algo ativo, que possui vida e interfere diretamente na constituição do ser humano, não há como pensar numa relação ética entre os próprios seres humanos. Ou seja, há respeito recíproco entre os seres humanos na medida em que o meio ambiente for tomado em sua atividade e respeitado por ela. Pensado somente como um objeto físico disponível para manipulação, termina por comprometer a própria ideia de respeito recíproco entre os seres humanos.

Estamos aqui, com Dewey, longe da concepção meramente instrumental de meio ambiente: como objetos físicos distribuídos no espaço e prontos para serem manipulados instrumentalmente. Muito mais do que isto, o meio ambiente, como reconhece Dewey, “consiste naquelas condições que promovem ou dificultam, estimulam ou inibem as atividades características de um ser vivo”.

Sem meio ambiente, o ser humano não poderia tornar-se um ser ativo. Porém, devido à plasticidade movida por sua disposição intelectual, ele contra reage à atividade própria do meio ambiente, buscando moldá-la às suas necessidades e desejos. A educação representa, neste sentido, a capacidade humana de interagir criativamente com a atividade própria do meio ambiente.

Cada meio ambiente circunscreve em certa medida a esfera na qual se desenvolve a atividade humana. Na Antártica, por exemplo, o ser humano vive sob certas condições que obviamente não são as mesmas do que aquelas dos que habitam os trópicos. Contudo, é sua plasticidade que o habilita a viver sob condições as mais difíceis e variadas possíveis. Suas disposições intelectuais permitem-lhe vencer certos obstáculos, reorientando ao seu favor as atividades desfavoráveis do meio ambiente. Tornar tais atividades mais favoráveis aos seres vivos na terra é uma das tarefas da educação.

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