Bob Dylan, o Nobel da canção

Postado por: José Ernani Almeida

Compartilhe

Quando comecei a trabalhar em  rádio na segunda metade da  década de 1960, um dos sucessos era a canção “Blowin’ in the Wind”, de um judeu norte-americano, Robert Zimmerman, que se tornaria um dos maiores ícones da música mundial, com o pseudônimo Bob Dylan, em homenagem ao poeta Dylan Thomas, do qual ele era grande apreciador.

Agora, aos 75 anos, Dylan acaba de ganhar o Nobel de Literatura. Desde cedo dedicou-se ao folk e ao blues, trazendo do sul dos  EUA a cultura popular da narrativa poética, isto é, a possibilidade de contar uma história, fazer um comentário, tecer considerações, evocar memórias, filosofar, delirar, usando uma base harmônica e melódica, enfim, uma bela canção. Bob Dylan ainda nos anos 1960, tornou-se o porta-voz do meio artístico engajado politicamente. Na época os norte-americanos estavam divididos entre apoiar ou não a luta pelos direitos civis dos negros, entre apoiar ou se opor à participação do país na Guerra do Vietnã. Dylan, na canção “Blowin’ in the Wind”, dizia: “Sim e quantas vezes deve um homem olhar para  cima/Antes que possa ver o céu?/Sim e quantos ouvidos um homem  deve ter/Antes  que possa  ouvir  as pessoas chorarem?/Sim e quantas vezes mortes causará antes de saber/Que muitas  pessoas  têm morrido/A resposta, meu amigo, está soprando ao vento”. Este foi o seu primeiro grande sucesso no qual já mostrava o lirismo inconfundível de suas letras.

Assim, ele se engajou como militante dos temas mais candentes da sociedade norte-americana. Passou a ser um ponto referencial da contracultura dos efervescentes anos 1960.

A Academia Sueca justificou a escolha de Bob Dylan por “ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da música americana”. Para a Academia ele é provavelmente o maior poeta vivo. Condição humana, religião, política e amor sempre foram temas em seus discos. Dylan compôs canções antológicas como Like a Rolling Stone, Mr.Tambourine Man, And It’s All Over Baby Blue,Tomorrow Is A Long Time,  If Not For you, Things   Have Changed. Entre os Lps e CDs de Dylan, tenho uma raridade – Christmas In The Heart, de 2009 –, só com canções natalinas, presente de meu genro, que me trouxe dos EUA. Tanto na literatura – Dylan tem cerca de 50 livros editados –, como na música foi fortemente influenciado pela geração beatnik e pelos poetas modernos americanos.

Versátil, trabalhou como pintor, ator e autor de roteiros.  Sua obra foi comparada pela Academia à dos poetas gregos Homero e Safo. Eles escreveram textos poéticos que foram feitos para serem ouvidos, declamados, muitas vezes com instrumentos musicais, do mesmo jeito de Dylan. Ainda, justificou a Academia, lemos Homero e Safo e os apreciamos. Portanto, o reconhecimento do Nobel à sua música é histórico e justo. Minha geração sente-se orgulhosa. Para Belchior, na letra de “Como Nossos Pais”: “Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências/As aparências não enganam não/Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém/Você pode até dizer que eu estou por fora ou, então, que eu estou inventando/Mas é você que ama o passado e que não vê/Que o novo sempre vem”.

Com o devido perdão do compositor cearense e das novas gerações, não é uma questão de amar o passado e de não ver que o novo sempre vem, mas talentos  como  Dylan são eternos e  sem  comparações.

Leia Também William II Elo passado-presente-futuro Sujeito descansado Maneiras de usar o floral nesse verão 2018