A função social da educação

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Na coluna anterior tratei da natureza e do significado de meio ambiente, de seu sentido educacional geral. Mas Dewey não se contenta com isto. Sua análise avança, referindo a dimensão social e pedagógica do meio ambiente à educação do ser imaturo, ou seja, da criança. O que lhe interessa, do ponto de vista educacional, é o meio ambiente social, referido especificamente à educação infantil.

Seu ponto de partida consiste em afirmar que todo o ser que possui suas atividades associadas aos outros tem um ambiente social. O que ele faz depende também das expectativas, exigências, aprovações e condenações dos demais. A dimensão social do ser humano significa que a construção de seu self – de seu si mesmo – depende em última instância da aprovação dos outros. Ninguém pode construir sua própria identidade sozinho, como alguém completamente isolado no tempo e no espaço.

Imaginar como os outros reagirão em relação às minhas ações, como me tratarão se eu agir deste ou daquele modo, é um aspecto importante da socialização humana que caracteriza bem a dimensão social do meio ambiente, daquela dimensão que diz respeito diretamente ao ser humano. Esta capacidade humana de antecipação imaginativa sobre as possíveis reações dos outros forma o conteúdo propriamente social de meus projetos individuais. Se almejo algo, preciso saber como convencer os outros e para fazê-lo preciso imaginar qual vai ser sua reação. Claro que ajustes são feitos neste percurso, mas não posso fazer tudo espontaneamente, sem prever as possíveis reações dos outros.

A tese de fundo de Dewey, no que se refere aos seres imaturos, é que o meio social possui o poder de influenciar a ação dos seres imaturos, estruturando-as por meio de hábitos externos às próprias ações. Todo o ser humano, especialmente o imaturo, cria hábitos por meios de suas ações. Suas ações, por sua vez, são influenciadas por outras ações externas. Dewey dá o exemplo da criança que, uma vez queimada pelo fogo, passa imediatamente a temê-lo.

Este é, contudo, um nível quase mecânico da relação do ser imaturo com a influência de ações externas, naturais ou sociais. Se a educação fosse pensada somente neste nível, ela seria apenas adestramento, porque faz com que o ser imaturo se mantenha no nível da reação mecânica ao estímulo dado. E o faz de modo geral por temor, como é o caso do medo ao fogo da criança que por ele foi uma vez queimada.

Quando se trata das disposições mentais e emocionais da conduta, a educação precisa ser avaliada não só pelas influências das ações externas. São tais disposições que tornam o ser imaturo um participante do interesse que move a ação externa. São as disposições intelectuais e afetivas que permitem ao educando tomar parte, dizendo sim ou não, aos interesses que movimentam as ações exteriores, desenvolvidas, por exemplo, pelo educadores adultos.

Para tornar ainda mais claro este pensamento, Dewey recorre ao exemplo do cavalo. Ele é adestrado pelo dono para lhe ser útil, ganhando como recompensa o alimento. Mas, o cavalo não possui a disposição intelectual para tomar parte do interesse humano que o leva a ser adestrado. Ora, quando se pensa na educação de seres humanos, obviamente que não pode ser concebida nos termos do adestramento de um cavalo. Em seu processo de adestramento o cavalo não adquire outro interesse além de continuar sendo alimentado.

Se a educação quer ir além de ser simplesmente uma forma de adestramento, ela precisa desenvolver experiências formativas que tornem os envolvidos no processo educativo, educandos e educadores, participes na atividade comum. O aspecto social da educação aparece justamente neste fato trivial da educação, de que sem a presença de educadores e educandos ela não acontece. Contudo, o aspecto cooperativo e comum da dimensão social da educação ocorre quando ela (a educação) consegue assegurar a todos os envolvidos a condição de partícipes reais, com poder de tomar parte na atividade comum e não só assumi-la por temor, como algo imposto pela ação externa, quer seja do educador ou do educando.

Que educador e educando tornem-se partícipes da atividade comum é uma tarefa central da educação e uma das mais difíceis. Tal tarefa pressupõe, no entanto, que os sujeitos educacionais envolvidos, principalmente a criança, sejam afetados pela atividade comum. Mas em que sentido o são? Dewey deposita grande peso na linguagem humana que, segundo ele, faz a diferença no processo formativo. É por meio dela que se compartilha a construção de um mundo em comum.

Para esclarecer o papel de socialização cooperativa da linguagem Dewey recorre ao exemplo do chapéu. Ele é resultado de um processo educativo que a mãe desempenha em relação à criança, quando lhe diz que ao sair para a rua em dia de sol quente precisa colocá-lo na cabeça. Como o som “chapéu” é resultado da ação da qual participam duas ou mais pessoas, faz com que os participantes sejam afetados não só fisicamente, mas também culturalmente, pelo som que é produzido socialmente.

Dewey arremata seu pensamento da seguinte forma: “Entender-se uns aos outros significa que os objetos, incluindo os sons, tem o mesmo valor para ambos com respeito à realização de uma finalidade comum”. O poder da linguagem consiste então em tornar comum aos sujeitos educacionais o sentido diferente que os objetos possuem. Ela manifesta este poder porque é parte de uma experiência compartilhada ou de uma ação conjunta.

Em síntese, a educação para o ser humano não é simplesmente um adestramento porque ele (o ser humano) possui disposições intelectuais, entre elas principalmente a linguagem, as quais permitem que suas ações sejam compartilhadas. Ou seja, a linguagem permite aos seres humanos serem partícipes de uma atividade em comum, dando-lhes o poder de dizer sim ou não à interferência em suas vidas de ações externas. Sem este poder os seres humanos se tornariam simples joguetes das forças provindas do meio, incluindo, principalmente, as forças do meio social.

Leia Também 33º Domingo do Tempo Comum. O Enart, de novo! A importância de ter uma recepcionista/secretária preparada em seu consultório. Feito é melhor que perfeito