Entreguismo e violência: A história se repetindo

Postado por: José Ernani Almeida

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Há cem anos, entre agosto e outubro de 1916, paranaenses e catarinenses contavam seus mortos ao final de um dos mais violentos conflitos sociais da nossa história, a Guerra do Contestado. As estatísticas falam em mais de 20 mil mortos. Imagine uma região onde, na época, uma tradicional ordem estabelecida começou a entrar em crise, onde existia uma luta entre os poderosos para definir o poder, onde antigos posseiros começaram a perder suas velhas posses para grandes companhias estrangeiras que se utilizaram da força para expulsá-los, onde os governos de dois estados reclamavam o direito de propriedade e jurisdição.

A conclusão é a de que esta era uma região tensa, bastando um pequeno atrito para que se transformasse a tensão em luta. A violência era uma tradição na região, onde coronéis, estancieiros e caudilhos com seus bandos armados dominavam o cenário. A crise esteve ligada à construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande, pela Brazil Railway. Na época, as ferrovias e os trens na maioria dos países latino-americanos, contavam com o apoio de técnicos europeus por eles contratados. Os ingleses, principalmente, entravam com o conhecimento técnico e os países com os investimentos. Acresce que o Estado se preocupou em assegurar às empresas inglesas, por contrato, um nível mínimo de lucros, para preveni-las de possíveis surpresas  desagradáveis.

Décadas depois, quando já as ferrovias não rendiam dividendos e tinham caído em relativo desuso, a administração pública as retomou. Quase todos os estados compraram dos ingleses apenas ferro-velho, e o que nacionalizaram de fato foram perdas das empresas. Era o velho entreguismo de sempre, que hoje acontece com o pré-sal! Na época do auge ferroviário, as empresas britânicas haviam obtido, com frequência, consideráveis concessões de terras de cada lado das linhas, além das próprias linhas e o direito de construir novos ramais. As terras eram um estupendo negócio adicional: o fabuloso presente concedido em 1911 à  Brazil Railway  significou o incêndio  de  centenas de cabanas e a expulsão ou morte  das  famílias camponesas assentadas na área da concessão, além da devastação das matas.

Esse foi o gatilho que deflagrou a rebelião do Contestado, uma das mais intensas páginas da fúria popular de toda a história do Brasil. Sem terras  e desempregados – já  que a empresa despediu milhares de operários que trouxera de outras regiões do Brasil –, desorientados, romperam o equilíbrio da sociedade local. Saques, sabotagens, emboscadas, roubos de gado. Surgiram “monges” que passaram a ser um lenitivo para as aflições da população pobre. João Maria da Revolução Federalista, começou a pregação pelo sertão catarinense. José Maria dava uma interpretação pessoal aos hinos sagrados dizendo-se eleito por Deus para construir, na terra, a “monarquia celeste”.

Tropas muito bem armadas, inclusive com peças de artilharia e o uso de pequenos aviões, produziram uma bárbara carnificina. A República Velha confirmava a sua política, segundo a qual, “a questão social era caso de polícia”. Durante muito tempo o povo do Contestado foi mostrado como um bando de fanáticos religiosos e assassinos. Na verdade, foi vítima do entreguismo, da violência e da exploração das oligarquias da época.  A história, entre nós, insiste em se repetir!

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