O meio social como fator educativo de primeira ordem

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Na maioria das vezes não pensamos o quanto o ambiente social é decisivo na formação da identidade do ser humano, principalmente do jovem educando. Temos dificuldade de compreender de que maneira os costumes da sociedade penetram sutilmente na vida do ser humano, moldando seu modo de ser. Democracia e Educação auxilia a pensar este problema na medida em que trata do vínculo entre ambiente social e educação. Desenvolve, para isso, o conceito chave de “influência inconsciente do ambiente”.

Dewey associa à sua concepção geral de educação a noção de meio ambiente. Faz um esforço para compreender a educação como experiência formativa que vai muito além da relação estimulo reação, efeito e causa, que acaba legitimando um conceito mecanicista de educação. Diferente também não é sua concepção de meio ambiente: concebe-o como fonte de atividade comum, significando, portanto, muito mais do que objetos físicos dispostos no espaço e prontos para serem manipulados instrumentalmente.

O ambiente humano é o ambiente social, resultado da produção cultural humana. A educação é um dos principais mecanismos de criação cultural. Depende do ambiente social, entrelaçando-se com ele. Para Dewey, é o ambiente social que forma a disposição mental e emocional da conduta dos seres humanos. Vemos nossas disposições se desenvolverem, em grande parte, porque são provocadas pelo ambiente social.

O ser humano não é um ser que apenas se comporta por meio do mecanismo estimulo e reação. Possui disposições intelectuais e afetivas que ao serem acionadas pedagogicamente, desenvolvem-se jogando o ser humano para frente, para além do que ele já é. O meio ambiente não é algo só físico, mas também social e enquanto tal desempenha papel indispensável no desenvolvimento das disposições intelectuais e afetivas do ser humano.

Isso é decisivo para a educação e também o será, como veremos na próxima coluna, para a escola, uma vez que Dewey a concebe como o principal mecanismo do meio social, responsável para o desenvolvimento das disposições humanas. Mas, visto de uma maneira mais ampla, são as relações humanas que constituem o meio social. São diferentes espaços nos quais as pessoas se relacionam intensa e cotidianamente umas com as outras.

Antecedendo a escola, o ambiente familiar é um espaço social por excelência, que proporciona a socialização primaria do ser humano. Nela ocorre a relação constante entre pais e filhos e, tendencialmente, os filhos deixam-se contagiar pelo modo de ser e viver de seus pais. Dewey exemplifica: “Uma criança que se desenvolve em uma família de músicos tenderá inevitavelmente a ver estimuladas musicalmente as capacidades que possui e relativamente estimuladas mais que outros impulsos que poderiam haver sidos despertados em outro ambiente”. Deste modo, o meio social inicial atua como fator indispensável para o desenvolvimento das disposições humanas.

Anterior à escola, o ambiente social, principalmente familiar, já forma a contextura de nossas disposições, orientando-as para direções diversas. Por isso que é fundamental oferecer à criança um ambiente afetivo e intelectual rico, que lhe provoque o desenvolvimento variado de suas disposições e nas mais diferentes direções possíveis. De tal desenvolvimento depende formas de vida abertas e plurais. Se o ambiente social é decisivo, o importante é torna-lo rico e atrativo.

Na relação entre ambiente social e formação das disposições humanas, Dewey formula a tese de que há uma “influência inconsciente do ambiente”, que é tão sutil e penetrante, na formação do espírito do ser humano, principalmente da criança a ser educada. Tal influência ocorre de diferentes formas.

A primeira delas são os hábitos da linguagem. É na maneira socialmente espontânea que ocorre a aquisição da fala. O intercâmbio ordinário da vida oferece o pano de fundo cultural no qual a criança constrói socialmente o significado das palavras que começa a utilizar para enfrentar os obstáculos postos no seu caminho. Trata-se do fenômeno da língua materna que o acompanhará para o resto de sua vida.

A segunda forma de influência inconsciente do ambiente na formação do espírito, ou seja, das disposições humanas, são os costumes, os quais falam mais alto por meio do exemplo do que pelos preceitos. É a ação habitual, costumeira, e não o saber formalmente transmitido, que forma progressivamente o caráter. Para Dewey, a atmosfera e o espírito ambientais são o agente principal na formação das maneiras. Educação é, neste sentido, a formação de maneiras adequadas por meio da ação habitual correta e afetuosa.

Dewey coloca, como terceira forma, o bom gosto e a apreciação estética. É o ambiente social mais próximo do educando que definirá seus padrões de bom gosto e beleza: o gosto refinado do paladar por determinada comida; por determinada vestimenta; o gesto requintado das mãos ao falar; o olhar envolvente; tudo isto é formado pelo ambiente social próximo. Da mesma forma, o ambiente pode formar o contrário: se alimentar mal e de maneira deselegante; gestos bruscos e desencontrados; fala agressiva e descompassada.

Por fim, como fusão das três outras formas, Dewey destaca a formação social dos juízos de valor. Ou seja, a apreciação e comportamentos morais são construídos socialmente. O aspecto educativo importante aqui refere-se ao modo como o educando é inserido em contextos e dilemas morais. Pesa muito, para Dewey, o “fazer e o falar”, ou seja, a ação e a linguagem.

Em síntese, o ambiente social constituído pelos hábitos da linguagem, costumes, bom gosto e apreciação moral definem o conteúdo normativo das relações humanas. São eles que pesam definitivamente na formação inicial do educando e o acompanharão para o resto de sua vida. Quando adentra o mundo escolar, o educando carrega consigo a influência inconsciente do ambiente social originário.

Daí que, sob esta perspectiva, torna-se importante pensar de maneira mais vagarosa o vínculo entre ambiente social originário e o mundo escolar, entre o mundo vivido construído intuitivamente pelo educando e o saber elaborado que começará a ter contado ao entrar no mundo escolar.

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