A escola como ambiente social especial

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Pensar o sentido da escola como instituição educativa parece atualmente em desuso ou pouco atraente. O sistema de ensino escolar encontra-se mergulhado numa crise profunda, enfrentando problemas de natureza diversa. Há, em primeiro lugar, os limites da política educacional pública que cada vez mais se retira do compromisso com a educação pública escolar. Além de reduzir recursos financeiros, verticaliza reformas educacionais com base no diagnóstico da culpabilização do professor.

Há, de outra parte, as altas expectativas que a sociedade e o mercado põem à escola, exigindo muito dela sem lhe darem a contrapartida correspondente. Neste contexto, também há o problema da relação entre escola e família e as expectativas que os pais depositam na escola, sem muitas vezes assumirem eles mesmos a responsabilidade que lhes compete. A sociedade e a família jogam toda a responsabilidade à escola na mesma proporção em que se desresponsabilizam por suas atribuições específicas.

Por fim, faz parte deste rol de dificuldades a posição enfraquecida e muito desgastada da profissão docente. O professor da educação básica brasileira está muito longe de ter o reconhecimento profissional e humano merecido. Condições precárias de trabalho e remuneração salarial inadequada fazem parte do desprestigio social e profissional ao qual os professores estão acometidos a décadas. Sem salário e condições dignas de trabalho não há como pensar em reconhecimento social e profissional.

Contudo, o professor também possui suas responsabilidades profissionais, sem as quais a qualidade da educação básica fica comprometida. Uma de suas responsabilidades é a busca incansável pela formação permanente e continuada. A formação continuada é o modo de o professor dar uma resposta a si mesmo, aos alunos com os quais trabalha, à escola à qual pertencente e à própria sociedade como um todo. Pela formação qualificada o professor transforma-se a si mesmo, transformando a escola em que atua.

Mas o que define a qualidade da formação? A leitura, a escrita e o estudo em grupo são indicativos seguros de formação qualificada, sobretudo, se forem orientados pelo estudo de autores clássicos. A formação continuada não deve obviamente se limitar somente ao estudo dos autores clássicos, mas se os ignorar, não terá a mesma consistência e solidez necessárias. O contato com a cultura clássica abre os horizontes e nos faz sonhar nos ombros de gigantes.

Entre os clássicos contemporâneos do pensamento pedagógico certamente está John Dewey. Ele elaborou uma poderosa teoria educacional, da qual faz parte também a teoria da formação docente e, mais especialmente, a teoria da educação escolar. Para Dewey, a escola se constitui no ambiente especial de socialização do ser humano. Nela o educando recebe coisas e tem a oportunidade de desenvolver determinadas experiências que não pode fazê-las do mesmo modo na família e em outras instituições sociais.

Deste modo, ao pensar assim, Dewey atribui singularidade à instituição escolar, frente ao amplo processo de formação humana. A escola é, em primeiro lugar, um poderoso mecanismo de formação do espírito democrático, indispensável à organização social. O papel formativo da escola é indispensável para desenvolver cooperação e solidariedade humanas responsáveis pelo funcionamento ético da ordem social.

No final do segundo capítulo de Democracia e Educação, Dewey atribui três papéis à escola como organização social responsável pela formação do espírito democrático:

a) Como cada educando possui certas disposições (aptidões), compete à escola descobri-las, ordenando os aspectos de tais disposições que pretende desenvolver. Aqui, a concepção escolar pressupõe a ideia de ser humano como constituído por disposições. Uma escola de espírito democrático não deve somente conhecer as disposições dos alunos, mas também procurar desenvolvê-las nas mais diferentes direções.

Esta concepção escolar pressupõe também o educador como incansável investigador de suas próprias disposições e das disposições de seus alunos. Bom educador é, neste sentido, segundo Dewey, aquele que é capaz de perguntar permanentemente pelas disposições de seus alunos, buscando recursos pedagógicos mais adequados para desenvolvê-las.

b) A escola possui a tarefa de purificar e idealizar os costumes sociais existentes. Isso pressupõe a concepção social de escola como instituição que pertence à sociedade e que, por isso, vincula-se a outras instituições sócias. Pressupõe também a origem social do educador e do educando e seu vínculo com outras formas de organização social.

Mais importante ainda, exige da escola a tarefa crítica exercitada numa dupla perspectiva: como contraponto aos valores sociais existentes e como orientação de uma forma de vida idealizada. Deste modo, além de tratar da realidade existente, a escola precisa inventar mundos possíveis, capazes de descortinar outras formas de vida, diferentes daquelas nas quais o educando se encontra. Idealizar os costumes sociais existentes significa descortinar aos alunos outros mundos possíveis. A escola que deixa de sonhar atola-se na cotidianidade cansada da sociedade existente.

c) Por fim, a escola pode criar um ambiente social mais amplo do que aquele que o educando criaria se fosse abandonado ao convívio solitário. Ou seja, a escola é o ambiente de acolhimento do educando, que além da recepção afetiva, lhe proporciona, por meio do estudo e da investigação, a ampliação de seus horizontes culturais, inserindo-o no saber universal da comunidade humana.

Sob este aspecto, a escola faz uma diferença enorme na vida do ser humano. Por mais precária e limitada que seja, torna-se o espaço de convivência e aprendizado que o educando não encontra em outros espaços sociais. Ao conviver diariamente com os professores e com seus colegas, o aluno tem a possibilidade de ampliar seu mundo existencial e cultural de tal forma que não o fariam e estivesse fora da escola.

Como se pode observar, por estas três tarefas atribuídas à escola, Dewey é otimista em relação ao papel de instituição escolar. Ele coloca-se, deste modo, no caminho contrário à concepção educacional pessimista em voga, que reduz a escola ao papel de disciplinamento (docilização) dos corpos, aos moldes da instituição total que possui o poder de controlar tudo e a todos.

Dewey não deixa de reconhecer o quanto a escola pode se tornar nociva à formação dos alunos. Mas, também acredita que se ela for movida pelo ideal democrático de vida, se torna uma fonte indispensável de formação do espírito democrático. Em sociedades desenvolvidas, plurais e complexas, a escola torna-se espaço importante de socialização, proporcionando experiências que transformam o modo de ser e pensar dos envolvidos, professores e alunos.

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