Educação como direção

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O terceiro capítulo de Democracia e Educação é dedicado para tratar da definição de educação como direção. Entra em cena aqui, para as teorias educacionais, um velho e conhecido problema, referente ao que é mais determinante na formação do educando, se conduzi-lo do começo ao fim ou deixa-lo simplesmente agir, aprendendo com suas próprias experiências. Portanto, conduzir ou deixa agir é um tema clássico da teorias educacionais. É um divisor de águas que coloca os diretivistas de um lado e os espontaneístas de outro.

A postura diretivista tout court caracteriza-se pela condução permanente e irrestrita do educador: ele comanda o educando. Parte do pressuposto de que o educando aprende adequadamente quando for dirigido pelo educador. Educação tem a ver então com o poder de direção do educador sobre o educando. As noções de autoridade e poder legitimam-se a partir deste papel diretor do educador: como é ele quem dirige, a autoridade lhe pertence.

Quando se pensa na escola e no processo pedagógico escolar, o diretivismo irrestrito determina ao professor o papel preponderante, cabendo a ele organizar o processo pedagógico. Ele é responsável direto pela organização dos conteúdos e dos modos de ditar a matéria, sem necessariamente ter que consultar colegas e alunos. Torna-se uma condução autoritária e impositiva porque desconsidera a perspectiva do aluno, suas disposições intelectuais e afetivas, sua experiência de mundo e seu convívio humano.

De outra parte, a postura espontaneísta dura e crua define-se pela concessão total à voz do educando, secundarizando a figura do educador. Parte do pressuposto de que o aluno aprende quanto menos sobre ele for exercido a direção do educador. Educação tem a ver, então, com o poder de direção do próprio educando sem a interferência do educador. Trata-se de espontaneísmo porque está baseada na crença de que o educando é autossuficiente em sua educação. Ele aprende ao fazer suas experiências sem contar com a direção adulta.

A noção de escola e de processo escolar aqui se concentra também na figura do aluno (educando). O conteúdo do ensino e a maneira de ensinar devem ser definidos tendo como alvo única e exclusivamente a figura do aluno. A estrutura curricular deve ser pensada segundo os interesses do aluno e o professor deve curvar-se irrestritamente à vontade do aluno. Como o aluno é o centro do ensino, professor e escola precisam estar a seu serviço.

Temos resumido acima, em suas linhas gerais, duas maneiras simplificadas de pensar a educação, a relação pedagógica entre educador e educando e o próprio ensino escolar. Com sua concepção de educação como direção, John Dewey procura se distanciar criticamente destas duas posições. Para ele, a educação é um fenômeno altamente plural e complexo que não se pode deixar compreender somente na forma do diretivismo autoritário ou do espontaneísmo desregrado.

Sua teoria da educação respira os tempos modernos. Compreende que não é mais suficiente pensar a educação humana alicerçado o processo pedagógico somente na figura do educador e na sua transmissão do conteúdo para um educando passivo. É preciso pensar a educação como um processo social, que vai muito além dos poderes irrestritos do educador, pois, enquanto social, a educação sofre a influência do educando e, sobretudo, do meio ambiente no qual está inserida.

Enquanto um educador moderno, preocupado com a formação democrática e virtuosa da vontade dos sujeitos educacionais, Dewey está ciente de que também não é suficiente focar somente na figura do educando. Uma ideia mais ampla de educação exige que o “aprender agindo” do educando só faz sentido e torna-se cada vez mais aprofundado quando conta com a direção serena e cooperativa do educador.

A teoria educacional de Dewey consiste, portanto, no esforço intelectual de pensar o equilíbrio na relação pedagógica entre educador e educando. O pedagogo americano sabe que se o pendulo girar somente para um lado, conduz ao autoritarismo, quer seja do educador ou do educando. Por isso, seu esforço consiste em pensar a educação como uma atividade comum, na qual educador e educando tomam parte, à sua maneira e conforme suas condições, no processo educativo.

É neste contexto que surge a noção de educação como direção. O que significa então tal noção? Primeiramente, não diz respeito só a direção do educador ou do educando. Nenhum deles possui o poder de dirigir sozinho o processo educativo. A educação só faz sentido e só consegue desenvolver adequadamente as disposições intelectuais e afetivas dos envolvidos quando educador e educando tomarem parte do processo pedagógico.

A busca por equilíbrio na relação educativa consiste em conceder papel diretivo ao educador sem que tal diretivismo se torne autoritário. Isso implica a postura pedagógica de que se o educando aprende a partir de suas próprias experiências educativas, ele só consegue fazê-lo de maneira eficiente quando for conduzido pela mão responsável do educador.

De outra parte, a condução do educador torna-se efetivamente responsável quando for sensível o suficiente para perceber a especificidade das disposições intelectuais e afetivas de seu educando. Não pode esquecer que o próprio educando possui uma experiência de mundo e carrega consigo uma forma específica de convívio humano, ambos construídos pela influência direta do ambiente social.

Educador e educando são em parte resultados do meio social em que vivem. Assimilam valores deste meio; incorporam ideias que veiculam na sociedade em que tomam parte. Não passam incólume ao espírito da época; seguem as tendências culturais dominantes, vestindo-se de maneira habitual, alimentando-se de pratos típicos do momento e frequentando lugares comuns.

Por outro lado, tanto educador como educando possuem a capacidade de inovar, indo além do momento presente. Não vivem somente os valores sociais existentes. São sonhadores e compete à escola acalentar seus sonhos, descortinando um mundo diferente. Neste sentido, além de adaptação à ordem social, a escola possui o papel de resistência na medida em que mostra aos envolvidos no processo pedagógico um outro mundo possível, diferente daquele que existe.

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