Ocupação de escolas

Postado por: José Ernani Almeida

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“Eu acredito é na rapaziada/Que segue em frente e segura o rojão/Eu ponho fé é na fé da moçada/Que não foge da fera e enfrenta o leão/ Eu vou a luta com essa juventude/Que não corre da raia a troco de nada/Eu vou no bloco dessa mocidade/Que não tá na saudade/E constrói a  manhã desejada” (Luiz Gonzaga Jr.)

Mais de mil escolas em todo o País continuam ocupadas por estudantes que exercem o direito de participar da vida política. Isto lhes é garantido pelo inciso 6º, do artigo 16, da Lei 8.609, de 1990.

Para os reacionários de plantão trata-se de um movimento de baderneiros a serviço de interesses políticos. Estes, do alto de seu conservadorismo arcaico, não entendem que uma porção importantíssima da sociedade reage ao Estado de exceção imposto por um governo ilegítimo, fruto de um golpe. Os jovens estudantes demonstram desassombro, apego à razão, espírito crítico, inconformismo e indignação. Eles nos fazem lembrar dos estudantes  franceses do inesquecível  maio de 1968 – o ano que não terminou –segundo Zuenir Ventura.

Trata-se de uma rebelião salutar, diante de um governo que de forma autoritária quer impor mudanças no ensino brasileiro. A reforma proposta pelo governo caiu como uma guilhotina. Trata-se da MP746, publicada pelo governo Temer em Setembro. Em lugar de muito debate, uma medida provisória. Isto é, primeiro impõe, depois discute.

Ótimo!

Coisa de governicho que não passou pelo crivo das urnas, que só está no Planalto em função do golpe. O que o governo propõe tem tudo para piorar a situação do ensino brasileiro. Entre as novidades, a MP traz a implementação do turno educação integral a partir de 2017. O ponto mais polêmico, no entanto, diz respeito à flexibilização da grade curricular.

Com isso, metade da carga horária do ensino médio teria como disciplinas um conteúdo considerado obrigatório, definido pela Base Nacional Comum Curricular, ainda em processo de discussão, e o restante definido pelos interesses do próprio aluno. Isso quer dizer que, a partir do meio do segundo ano, os secundaristas devem escolher cinco trajetórias: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica profissional.

É, sem dúvida, um retorno a algo semelhante aos tempos do ensino profissionalizante da época do regime militar.

A tendência é que nas escolas públicas predominem as matérias obrigatórias e técnicas. Já as escolas da elite disponibilizarão para quem puder pagar, as humanidades, espécie de cerejas do bolo.

A ameaça de que sociologia e filosofia deixem de fazer parte do grupo de disciplinas é muito forte. Em síntese, fica proibido pensar! Coisa que leva a turma da Escola Sem Partido ao delírio.

Aí, quando aqueles que serão os maiores prejudicados protestam e ocupam escolas, os reacionários dizem que estão sendo manipulados pela oposição ao governo. Lembro aqui o histórico discurso da jovem estudante Ana Júlia Ribeiro na A. Legislativa do Paraná: “É um insulto a todos nós que estamos lá, nos dedicando, procurando motivação todos os dias sermos chamados de doutrinados. (...) O movimento estudantil nos trouxe mais conhecimento de política e cidadania do que todo o tempo que estivemos sentados  e enfileirados em aulas-padrão (...) a nossa única bandeira é a educação. Somos um movimento apartidário, dos estudantes pelos estudantes. Que futuro o Brasil vai ter se não nos preocuparmos com o senso crítico? Temos de ser contra um analfabetismo funcional, que é  um grande problema no Brasil hoje”.

Uau! O que dirão os arautos da Escola Sem Partido? Os que acusam os estudantes de serem manipulados pela esquerda?

Já imagino. A menina é comunista, bolivariana ou cubana! Chamem  Donald Trump!

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