VW Karmann Ghia – O espírito de uma época

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Na década de 50 do século XX, o mundo buscava deixar os pesados dias do pós-guerra. As fronteiras eram cada vez menores. Os costumes de outros povos podiam ser experimentados. As pessoas começavam novamente a buscar seus sonhos e provar novas sensações. Um sopro de arte e inovação era necessário no mercado automobilístico, principalmente para a VW, que contava somente com o sisudo Sedan (o Fusca) e a Kombi, seu multi-utilitário.

Assim, da união da tradicionalíssima fábrica alemã de carrocerias Karmann com o renomado estúdio italiano de design Ghia, a pedido da Volkswagen, começou em 1954 a história do carro que, talvez, tenha sido o mais cobiçado VW de todos os tempos, o Karmann Ghia.

Apresentado oficialmente na Feira de Automóveis de Frankfurt, em 1955, foi sucesso imediato. Nem o preço, muito maior que o do Sedan, nem a fila de espera que se formou com tantos pedidos, tiraram o brilho do fastback de linhas elegantes e sensuais. Seu conjunto mecânico, herdado do Sedan, embora fosse robusto e confiável, deixava a desejar no quesito esportividade, pois seu motor de 1200cc e 30cv o levava apenas a 120 km/h, conforme informações da própria VW.

O passar dos anos e as inovações técnicas e mecânicas foram atualizando o modelo apenas o suficiente para mantê-lo no mercado internacional até 1974, quando a VW encerrou sua produção, sob a forte pressão dos concorrentes muito mais avançados.

No Brasil, o Karmann Ghia foi fabricado entre 1961 e 1970, na única filial da Karmann fora da Alemanha, em São Bernardo do Campo. Era tão caro quanto um Simca Chambord ou um Aero-Willys e só alguns poucos cruzeiros mais barato que o FNM JK 2000, o carro mais luxuoso do Brasil na época. Mesmo assim, seu apelo jovem e seu desenho de linhas sinuosas conquistou o mercado brasileiro e foi um sucesso estrondoso. Passear nos grandes centros ou desfilar a beira mar a bordo de um Karmann Ghia era o “supra-sumo” do status na década de 60. Se fosse um modelo conversível então, você era imediatamente convocado para ser o galã da novela das oito.

Em 1970, substituindo o modelo clássico, já desgastado no mercado nacional, a VW do Brasil, após aprovação da matriz alemã, da Karmann e do estúdio Ghia, apresentou o novo Karmann Ghia, batizado como TC, claramente inspirado nas linhas do Porsche 911. Com traços mais retos, montado sobre a plataforma da Variant e contando com o motor boxer plano de 1600cc com dois carburadores, o TC entregava um melhor desempenho e um ar renovado, mas nos 4 nos de sua produção, nunca chegou perto do sucesso do modelo anterior. Muito se deve à própria concorrência interna, pois ao mesmo tempo a VW mantinha no mercado o TC, o TL e o SP2, todos compartilhando praticamente o mesmo nicho de mercado. Também disputava mercado com o Puma GTE, bem mais esportivo e o Ford Corcel GT, muito mais avançado. Assim, em 1974 foi encerrada a produção do TC no Brasil.

Entre os modelos clássicos e os conversíveis, em 13 anos foram fabricados no Brasil pouco menos de 24 mil unidades do KG clássico, 177 dessas conversíveis e aproximadamente 18 mil unidades do TC. Hoje, o Karmann Ghia é objeto de desejo entre colecionadores, sendo um carro que raramente se encontra a venda. Um exemplar em bom estado alcança, facilmente, a cifra de cem mil reais. Os KG conversíveis de fábrica, praticamente extintos, são inestimáveis.

Mas, muito além disso, o Karmann Guia representa, no Brasil e no mundo, um novo conceito automobilístico, um novo modo de comportamento e reúne sob seu nome toda a aspiração de uma geração. Muito mais que um carro, o Karmann Ghia é o espírito de uma época.

Na semana que vem, traremos o início da história da “velha senhora”. Grande abraço!

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