A nau dos insensatos

Postado por: José Ernani Almeida

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Na semana em que comemoramos os 127 da proclamação da República acontecimentos absurdos mostraram o grau de decomposição das instituições republicanas no pós-golpe.

 No STF dois ministros trocaram “elogio”, dignos de um embate de buteco. Dois ex-governadores do Rio de Janeiro foram presos. Um deles arrancado à força de uma maca e levado para a prisão. Cometeram crimes e, obviamente, devem pagar pelo que fizeram. Entretanto, convenhamos que a prisão de Garotinho beirou  ao bizarro, protagonizado pelo  MP, PF e pela mídia.

É perigoso, muito perigoso, quando a mídia e outros setores da sociedade reagem com euforia às arbitrariedades que ameaçam o Estado Democrático de Direito. A  Justiça, me parece, está dando um tiro no  pé  e fazendo o Brasil  regredir em matéria de respeito às instituições e  à dignidade dos cidadãos.

É preciso por freios em alguns juízes que buscam os holofotes da mídia e acabam promovendo uma perigosa “caça às bruxas”, desrespeitando princípios básicos do Estado  de Direito. Expor as pessoas como aconteceu com Garotinho e Cabral é deplorável.

 Ninguém, como asseverou o penalista pernambucano Aníbal Bruno, há  50 anos,  “ficará ligado  a uma espécie de pelourinho, onde seja exposto  sem defesa ao vilipêndio de qualquer um”.

 Outro fato marcante da semana  foi a condenável invasão do Congresso Nacional por uma horda de direitistas aos gritos de “viva a ditadura, queremos um general”. Para eles só uma ditadura militar livrará o país dos políticos corruptos. Na verdade, trata-se de um bando de alienados e  analfabetos políticos que devem desconhecer os escândalos que ocorreram no período  1964-1985 que, para eles, foi o  “paraíso da ética”.

Mal sabem que foi um tempo de corrupção profunda, em que tudo se escondia, nada podia ser investigado ou revelado. Estas pobres “viúvas da ditadura” identificam racionalidade onde não houve.

Tome-se o caso da interferência de militares ligados ao  SNI no projeto de desmatamento da floresta que deveria ser coberta em 1980 pelo lago da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. Se a operação tivesse dado certo, caberia  como uma luva a explicação segunda a qual negócio tão lucrativo foi entregue a militares da reserva porque isso fazia parte do projeto de fortalecimento do poder do Estado na Amazônia. Deu errado e, em 1985, custara ao país cerca de 30 milhões de dólares. Tudo se resumiu a uma negociata envolvendo meia dúzia de espertalhões ligados ao SNI.

 Outro caso bastante ilustrativo: o da indústria de material bélico. Seria um ingrediente de fortalecimento do poder nacional. Suas atividades clandestinas, operações negras e a desenvoltura com que se traficaram influências prenunciavam o colapso de uma fraude. Finalmente, gastaram-se milhões de dólares no projeto secreto de construção de um artefato nuclear.

 O desconhecimento da história leva a tais atos inusitados.

 Um, entretanto, ao longo da última semana foi insuperável. Uma direitista xiita fez um discurso veemente contra uma suposta bandeira comunista ao lado da bandeira nacional. Detalhe: tratava-se da bandeira do Japão. Uau!

Como na sátira escrita por Sebastian Brandt, em 1494 (A Nau dos insensatos), os passageiros do Brasil de 2016, perturbados e histéricos,  não sabem nem se importam para onde estão indo.

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