A natureza formativa da direção: liberdade e disposição participante

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Ao definir a educação como um processo diretivo, Dewey atribui obviamente papel importante à própria direção. Como pedagogo moderno que está sensível às exigências educacionais postas pela sociedade plural e complexa, que começa se desenvolver no início do século XX, nos Estados Unidos, não pode mais aceitar uma teoria educacional autoritária, centrada exclusivamente na figura do educador. Mas, por outro lado, também não aceita o espontaneísmo desregrado que coloca o educando no centro em nome da secundarização do papel do educador.

Dewey está consciente, portanto, de que não pode abrir mão do papel diretivo da educação. Contudo, se não pode ser nem autoritária e nem espontaneísta, qual é então a natureza especificamente formativa da direção? Em que sentido a educação como direção é formativa? Estas duas perguntas nos remetem para o coração da teoria educacional de Dewey, auxiliando esclarecer simultaneamente o quanto é importante o seu nexo com a democracia. Dito de outra forma, o modo como é pensado a noção de educação como direção possibilita ou impede a democracia como organização social e forma de vida.

O terceiro capítulo de Democracia e Educação está às voltas com o problema da natureza formativa da direção. Se a direção é um mecanismo poderoso de coordenação da ação humana, em que sentido ela torna-se uma coordenação de modo especificamente pedagógico? Há dois aspectos que pesam na argumentação de Dewey: a liberdade e a disposição participante.

A liberdade é o que está na origem da ação, possibilitando em última instância a própria direção. Sem a capacidade de efetuar movimentos, de se deslocar de um ponto ao outro, não haveria ação. A liberdade está na base da simultaneidade e da sucessão, possibilitando a dimensão espacial e temporal da ação. De outra parte, a liberdade possibilita também a escolha entre diferentes perspectivas, constituindo, deste modo, a pluralidade inerente à direção. Sem liberdade de escolha, a direção seria única, não havendo pluralidade de caminho.

Dewey elucida este aspecto teórico geral como alguns exemplos. O controle autoritário conduz para a morte da liberdade, terminando por aniquilar o próprio sujeito pedagógico. É preciso que o outro seja respeitando como sujeito de ação, capaz de fazer suas próprias escolhas. Esta atitude de respeito não se refere somente aos seres humanos, mas também a todos os seres vivos.

Há algo inerente à condição animal que precisa ser respeitado; caso contrário, quando se cruza tal fronteira, torna-se violento e autoritário. Dewey dá o exemplo do trato com o cavalo: podemos leva-lo até a agua, mas não podemos obriga-lo a beber água. Enquanto cuidadores do cavalo, é nosso dever não deixar faltar-lhe água. Mas, nossa condição de cuidador não nos dá o direito de fazê-lo beber agua à força.

Este fato denota uma especificidade da direção que caracteriza a relação do ser humano com o animal. A direção não pode ser forçada e menos ainda violenta. Há que se ter sensibilidade no trato, para perceber se o cavalo quer ou não tomar agua. A condução formativa exige trato refinado do condutor. Quem tem experiência com animais sabe que o bom adestramento depende de descobrir o jeito de se chegar até o animal. A violência repele, afastando-o de qualquer possibilidade de relação. O jeito manso e suave lhe conquista e uma vez conquistado, torna-se amigo.

Dewey refere-se também, no terceiro capítulo de Democracia e Educação, ao exemplo da criança. Uma criança precisa ser arrancada de maneira brusca e apressada de perto do fogo, para evitar que se queime. Mas isto não significa dizer que este ato é por si mesmo educativo. Faz-se necessário, neste sentido, distinguir entre uma ação física e outra educativa, porque nem toda a ação física, sobretudo quando é violenta, traduz-se em formação.

No caso em que a criança é arrancada bruscamente de perto do fogo, tal ação pode não surtir nenhum efeito positivo para suas disposições. Ela pode continuar sendo displicente, sem nenhuma noção do perigo e sem qualquer senso de obediência. Por isso é importante não confundir entre resultado físico e resultado propriamente educativo. Mas onde repousa tal diferença e o que define o resultado educativo?

Dewey introduz aqui uma noção pedagógica fundamental, que faz a própria noção de liberdade ganhar contornos educacionais específicos. Trata-se da “disposição participante”. É próprio da condição humana a disposição para tomar parte do que acontece à sua volta, tanto no ambiente físico como social. É a disposição participante que nos torna seres cooperantes e que nos impele a viver em comunidade. É tal disposição que se contrapõe à tendência egoísta do ser humano.

Ora, do ponto de vista pedagógico, no âmbito da concepção de educação como direção, é o respeito à disposição participante do educação que impede que a direção seja autoritária. Neste sentido, a disposição participante, como constitutiva da condição humana, é condição da própria forma democrática de vida. Disposição participante é a força antropológica que está na base da metodologia ativa. O aluno torna-se sujeito ativo porque possui antropologicamente a disposição para participar.

Disposição participante, como todas as outras disposições humanas, precisa ser formada. O ambiente social e especialmente o ambiente escolar precisam criar as condições para que a disposição participante se aflore. Neste contexto, é decisivo o papel diretivo participante do educador, criando espaços reais de participação aos educandos. Formas democráticas de vida dependem do cultivo, já na infância, da disposição participante.

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