Disposição participante: modo de relação dos seres humanos com as coisas

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A liberdade e a disposição participante são dois núcleos constituintes da noção de educação como direção. Se a direção quer assumir um estatuto democrático, ela precisa ancorar-se na disposição participante e leva-la a sério como aspecto constitutivo da condição humana. Neste sentido, é possível afirmar que sem disposição participante não há espírito democrático e nem organização social democrática.

Mas o que é propriamente a disposição participante e como ela se forma? Ela pressupõe que a participação na ação conjunta é o principal modo de formar disposições. Participação é, deste modo, o ato de sair de si mesmo, de entrar em contato com o mundo físico e social. Por meio dela se formam e se desenvolvem as disposições humanas, se criam e se preservam as instituições e acontece a produção cultural mais ampla. Ou seja, a ideia pressuposta aí é de que nos tornamos seres inteligentes e afetuosos por que somos seres participantes. Tornamo-nos seres sociáveis porque possuímos a vontade de tomar parte no meio que nos cerca.

Os seres humanos influenciam-se reciprocamente uns aos outros e interferem na ordem natural das coisas porque possuem disposição participante. Neste sentido, tal disposição está na base de todas as outras: é a disposição de todas as disposições. A disposição participante possui uma natureza eminentemente social que, enquanto tal, especifica a direção como forma de educação. Social quer dizer aqui primeiramente o enlace que puxa os seres humanos uns para perto dos outros, fazendo encontrar pontos comuns de convivência em suas diferenças.

No terceiro capítulo de Democracia e Educação Dewey destaca dois modos próprios de disposição participante, um que ocorre na relação dos seres humanos com as coisas e, o outro, especificamente na relação entre os seres humanos uns com os outros. Estes dois modos pressupõem os aspectos sucessivo e simultâneo, espacial e temporal da direção. A disposição participante, como modo principal da direção, pressupõe o enfoque e a ordem, evitando o caos e a dispersão da própria ação.

Dewey trata primeiro da disposição participante no âmbito da relação dos seres humanos com as coisas. Ele herda aqui, claramente, o princípio educativo da tradição pedagógica moderna, especialmente do princípio nuclear da educação natural de Jean-Jacques Rousseau: o modo como nos ocupamos com os objetos que nos cercam torna-se fonte inesgotável de educação. Rousseau coloca o princípio pedagógico da educação pelas coisas no centro de sua educação natural, a qual antecede a educação moral e a educação política.

Precisamente, no caso de Dewey, o modo de utilização das coisas na atividade conjunta é constitutivo da direção que assume a ação. Ou seja, damos sentido à nossa ação pela maneira como nos ocupamos com os objetos, interferindo também na relação que mantemos uns com os outros. Educação não é só transmissão de conhecimentos, mas também, e talvez fundamentalmente, elaboração da experiência que o ser humano faz com as coisas e, em nível intelectual, da experiência com conceitos.

Dewey enfatiza, com isso, o quanto nossa participação no ambiente físico interfere no desenvolvimento de nossas próprias disposições. Por isso, é importante que a criança se envolva com trabalhos manuais e se ocupe intensamente da experiência com os objetos físicos. Nestas ocupações ela desenvolve experimentalmente noções biológicas, físicas e matemáticas indispensáveis. Além disso, a atitude de respeito ao objeto e aos seres vivos no experimento que realiza, auxilia a criança para formar a noção de respeito por si mesma e pelos outros seres humanos.

Não se trata única e exclusivamente, com a formação da postura experimental, do manejo instrumental do meio ambiente, visando a satisfação de desejos próprios, mas da formação do espírito de convivência reciprocamente respeitosa com o meio social. A disposição participante torna-se formativa quando toma o princípio de ocupação com as coisas no sentido ético de respeito por todas as coisas.

O princípio de utilização das coisas desempenha papel formativo na atividade conjunta. Ocupando-se com as coisas, o educando aprende a conhecer a si mesmo e aos outros, encontrando seu lugar na ordem das coisas. Contudo, a eficácia formativa da disposição participante no âmbito da relação humana com os objetos depende também, como alerta Dewey, da superação da “falsa psicologia”, que geralmente domina a análise deste problema.

Tal psicologia deposita papel determinante e exclusivo aos sentidos para formar a capacidade humana de aprender. Segundo esta perspectiva, tornamo-nos seres aprendentes porque possuímos sentidos que definem a qualidade das coisas impressas em nosso espírito. Esta noção de educação pressupõe que o indivíduo solitário é capaz de aprendizagem, bastando para isto que acione os sentidos para fazer chegar até o espírito as impressões. Ora, neste sentido, a “falsa psicologia” depõe contra a noção de educação como atividade comum, segundo a qual o sujeito educacional aprende porque possui a disposição participante.

Deste modo, a disposição participante possibilita romper, do ponto de vista epistemológico, com o sensualismo individualista e solitário. Possuímos sim sensações e estas são importantes para o conhecimento. Contudo, sua validade precisa da reflexão, a qual é um processo eminentemente social. Tornamo-nos seres inteligentes, capazes de reconstruir reflexivamente nossas experiências, porque tomamos parte cooperativamente da comunidade humana.

Como esclarece Dewey, ter a ideia de uma coisa é muito mais do que ter sensações sobre ela. Implica a capacidade de prever as possíveis consequências que a ação da coisa exerce sobre nós e, sobretudo, o modo como podemos agir sobre ela. A ocupação com as coisas exige, portanto, uma postura ativa e não meramente receptiva do sujeito. Se pelas sensações o mundo exterior chega até ele, pela sua capacidade reflexiva o sujeito ordena tal mundo, colocando-o a sua disposição e a dos outros. Contudo, a reflexividade do sujeito não é um ato solitário, pois necessita do sentido comum para ordenar o mundo, o qual é construído socialmente.

Neste contexto, a disposição participante que impulsiona a relação dos seres humanos com as coisas necessita do específico que dirige a própria relação entre seres humanos. Como a coisa/objeto não oferece reciprocidade, o sentido comum é construído pela mediação simbólica que brota da relação entre seres humanos. 

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