Definitivamente, não é ‘só’ futebol

Postado por: Cristian Queiroz

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Rodrigo Accorsi*

Num campinho com gramado mal tratado pelo tempo. Não só pelo clima com chuva e sol, mas pela quase que ininterrupta sequência de jogos, todos os dias. Com as traves feitas de pedaços de madeira enterrados eram realizadas ‘grandes’ partidas de futebol. Pedras, tijolos, camisetas, pedaços de pau ou mesmo os chinelos de alguém também eram comumente utilizados para fazer as traves, naqueles jogos em que a gurizada botava tanta vontade, que algumas partidas pareciam mais até final de uma Copa do Mundo.

Uma jogada mais ríspida, claro que acontecia, mas na quase totalidade dos casos, não havia maldade. Era pura diversão. A maioria jogava de tênis, mas alguns, de pés descalços. Quem nunca arrancou a unha ou a ‘tampa’ do dedão jogando de pés descalços? Não havia regras quanto ao equipamento de jogo, bastava que houvesse uma bola, qualquer uma. Inúmeras vezes alguém que estava com um par de tênis, emprestava ‘um dos pés’ para quem não tinha, por exemplo: se eu, que sou destro, estivesse usando um par de tênis, emprestava o pé esquerdo para um canhoto, que estava sem o calçado para o jogo. O fair play existia em tempo integral.

Era uma festa, um momento de alegria e congraçamento entre colegas de escola – não necessariamente da mesma turma – ou mesmo entre amigos, vizinhos, primos, conhecidos, enfim: aquele futebol no campinho surrado, nas ruas de calçamento ou asfalto, que unia colorados e gremistas num mesmo time e com um objetivo em comum, que era brincar, ser feliz e mais nada. Era futebol, mas não era ‘só’ futebol. Era a magia do futebol com os nomes dos craques da época: “passou por um, por dois, bateu e goooooool!”. E gritava o nome de um artilheiro da época, como sendo o autor do gol.

Os dois goleiros ou os dois ‘craques’ da turma eram quem escolhiam os times. O primeiro a ser escolhido para qualquer um dos lados, inflava o peito e seguia faceiro para o ‘seu lado’, afinal, tinha sido o primeiro, o que significava que ele era muito importante para o time! O último ficava um pouco desolado, mas mesmo assim, ia para a peleja, sem afrouxar. Confesso que, na maioria das vezes eu era o último. Nunca fui o primeiro a ser escolhido, até hoje não sei porque. Começava o jogo, muitas vezes com seis para um lado e cinco para o outro. Quando chegava mais alguém, passava logo para o time que tinha um a menos.

Formados os times, a partida começava e a equipe que marcava o primeiro gol tinha o direito de jogar de camiseta. O famoso “os de camisa contra os sem camisa”. Não havia marcação no campo. Quando a falta era nas proximidades do gol, todos gritavam: pênalti! Ninguém contestava, estava marcado, já que não havia juiz. Era um jogo limpo e honesto. Ninguém se jogava ou queria ‘cavar’ uma falta para obter vantagem de forma ilegal. Até porque, isso não passa pela cabeça de crianças de 10, 12 anos. Era um jogo inocente, um jogo vibrante, era muito mais que apenas um jogo. O gol, era o delírio total!

Os grandes craques ou mesmo jogadores medianos que hoje integram equipes do futebol brasileiro e da Europa, também surgiram assim. Nos campinhos surrados, de terra, de areia, sem traves, sem juiz, sem luxo, sem nada. Era futebol, mas não ‘só’ futebol, principalmente pela alegria que proporcionava. Muitos sonhavam em jogar bola como profissão, viver do futebol. E conseguiram, passaram nas chamadas ‘peneiras’ que os clubes organizam para descobrir novos talentos, integraram categorias de base, foram para os juniores e depois se profissionalizaram. Passaram efetivamente a viver do futebol.

Ninguém imaginou que pudesse acontecer o que aconteceu com a delegação da Chapecoense nessa semana. Claro, quando se está em um avião, existe o risco de acontecer algum acidente, como existe quando se está em qualquer meio de transporte. Só que a probabilidade de acontecer com uma aeronave é bem menor.

Tenho filhos pequenos, que adoram futebol. Eles nunca tinha ouvido falar e sequer imaginavam acidente com uma delegação inteira de um clube de futebol. Eles vivem a magia inocente do futebol. Qualquer coisa vira uma bola: uma garrafa plástica, um pedaço de papel, enfim. Estão vivendo as histórias que contei no começo do texto. Ficaram chocados com o que aconteceu, obviamente, assim como ficamos todos.

Um clube jovem, do interior do Brasil, que em apenas cinco anos subiu da Série D para a Série A e que em 2016 chegou à final do segundo torneio mais importante da América do Sul. Gestão exemplar e vontade de vencer. Dois dos fatores que fizeram a ‘Chape’ chegar ao seu auge neste 2016. Estar na elite do futebol brasileiro transforma a vida de um clube como a Chapecoense e também a vida de um município como Chapecó, com 210 mil habitantes. Muito mais que ‘apenas’ futebol, gera empregos e traz renda.

Mais que para 'apenas um jogo de futebol', esses atletas foram para a partida mais importante das suas vidas. Inflaram os peitos e, como aqueles que eram escolhidos por primeiro no time lá da rua, foram para uma viagem da qual, infelizmente, não chegariam. Deixaram famílias com esposas, filhos, mães e pais, que agora choram a perda dos seus heróis. Caras que começaram a jogar lá naquele campinho judiado pelo tempo, que conseguiram realizar o sonho de virar atletas profissionais e que ficaram eternizados por tudo o que fizeram. Definitivamente, não é ‘só futebol’. Lá do céu hoje eles gritam: “Vamos, Vamos Chape!”. 

*Jornalista da Rádio Planalto AM.

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