Disposição participante: o modo de relação entre seres humanos

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A disposição participante é o núcleo constitutivo da sociabilidade humana. Ela impulsiona o ser humano a se relacionar com as coisas e com os outros seres humanos. Dewey distingue dois níveis de disposição participante, um que ocorre na relação dos seres humanos com as coisas e, o outro, na relação entre os próprios seres humanos. Embora tenham especificidades próprias, ambos possuem em comum o fato de serem resultado da participação na ação conjunta.

Qual é a especificidade da disposição participante que resulta da relação entre seres humanos? Onde repousa sua relevância pedagógica? Destaca-se, neste nível, algo a mais do que a utilização das coisas na atividade conjunta. Dewey não abre mão do princípio pedagógico da educação pelas coisas, da educação pela utilização das coisas, mas postula também algo específico para a relação entre seres humanos.

O específico por ele postulado diz respeito ao sentido que o ser humano atribui às coisas, a si mesmo e ao outros. O sentido é resultado de uma atividade comum mediada simbolicamente. Isto é, a linguagem torna-se a força principal da participação em uma ação conjunta, possibilitando a construção do sentido comum. Sem esta base de fundo, não haveria qualquer possibilidade de entendimento ou acordo entre os seres humanos.

Dewey esclarece o que entende por sentido comum: “Ter as mesmas ideias sobre as coisas que os demais tem, ser de espirito semelhante a eles e ser assim realmente membros de um grupo social é, por conseguinte, atribuir o mesmo sentido às coisas e aos atos que os demais seres humanos atribuem”.

Portanto, o ser humano é capaz de dar sentido semelhante às coisas e aos próprios atos humanos. Embora diferentes entre si, os seres humanos buscam sentido comum para o que fazem ou deixam de fazer. Tal busca assegura a inteligência comum, ou seja, a comunidade de vida. A própria ideia de comunidade resulta, deste modo, da busca humana incessante pelo sentido comum.

Ninguém aguenta viver o tempo todo na discórdia. Precisa do calor humano dado pelo sentido comum. O ser humano alegra-se quando vê suas ideias confirmadas pelos outros. Sua alegria torna-se mais consistente quando tal confirmação é resultado do trabalho crítico de seu interlocutor. De qualquer forma, a cumplicidade conquistada no relacionamento com seus pares é indispensável à construção de seu próprio Self (si mesmo).

O especificamente humano que brota da relação entre seres humanos repousa na capacidade de cada ser humano referir aos outros o que está fazendo e se comparar com o próprio modo como os outros o fazem. Precisa sempre do olhar dos outros para dar sentido ao que faz. Sente a necessidade de se comparar com os outros e de obter seu consentimento. Este é o dinamismo do reconhecimento social que possibilita a comunidade de vida.

Deste modo, o sentido comum não brota diretamente da relação do ser humano com as coisas, mas sim da relação entre os próprios seres humanos. Nenhum objeto pode a rigor oferecer reciprocidade. Ela, a reciprocidade, surge da relação entre seres humanos. É bem verdade que tal reciprocidade se acentua quando o ser humano consegue manter relação harmônica com a natureza. Quando a respeita em sua propriedade.

O que caracteriza o espírito comum que está na base da comunidade de vida? Dewey indica para um duplo movimento, interligado entre si, pondo-o na base da formação do espírito comum que reúne os seres humanos entre si.

O primeiro movimento reza que cada ser humano considere as consequências de seus próprios atos como exercendo influência sobre os atos dos demais. Ou seja, a formação do espírito comum depende da capacidade humana de influenciar os outros seres humanos. Mas não só isso, pois depende também de que o próprio ser humano tenha consciência de sua capacidade de influenciar os outros. Influenciar conscientemente os outros é, então, um dos pilares do espírito comum.

Além da consciência de sua influência – e este é o segundo movimento que constitui o espírito comum -, o ser humano precisa estar ciente da influência que seus atos exercem sobre si mesmo. Ao agir e influenciar os outros, o ser humano influência simultaneamente a si mesmo. Quer queira ou não, também é resultado de sua própria ação: o que faz aos outros gera o efeito repuxo sobre si mesmo.

Não pode ignorar, portanto, que não só influência, como também é influenciado. Sem esta abertura para ser influenciado e sem a admissão de que de fato é influenciado, não há espírito comum. Se auto concebendo como ser onipotente, fortalece o espírito individualista. Toda a onipotência é contrária ao espírito comum.

A reciprocidade do influenciar e se deixar influenciar constitui a direção social da ação humana e está na base da comunidade de vida. Tal reciprocidade forma o principal antídoto contra o espírito individualista que distancia as pessoas entre si e corrói o laço social. Investir na formação de tal reciprocidade é tarefa central da educação.

Em síntese, o duplo movimento acima indicado forma o espirito socializado. Dewey o define da seguinte maneira: “um espírito socializado é o poder de compreender as coisas na forma de uso que se aplicam em situações conjuntas ou compartilhadas”. Como o espírito não nasce socializado, compete à educação criar situações conjuntas ou compartilhadas que permitem a compreensão comum.

A educação tem ao seu favor, neste contexto, a disposição participante que caracteriza a condição de educador e educando. Tal disposição atua como mola propulsora do espirito socializado. Descobrir e estimular as diferentes formas nas quais se expressa a disposição participante é papel da educação. Ou seja, educar é, neste contexto, formar o espírito socializado.

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