Educação não é mera imitação ou cópia

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A ação humana é constituída pela disposição participante que lhe assegura um duplo movimento recíproco, de influenciar outras ações no mesmo sentido em que por elas também é influenciada. Ao influenciar os outros em seu modo de agir, o ser humano não escapa de ser ele próprio influenciado, quer seja pela sua própria ação quer seja pela ação dos outros.

A educação nasce da constante comparação que o ser humano faz com os outros, tornando-se importante, neste contexto, definir o conteúdo de tal comparação. Trata-se simplesmente da imitação como mera cópia ou como um processo criativo? É possível ocorrer criação na imitação? Nestas questões estão implicados profundos e difíceis problemas educacionais e formativos do ser humano.

O primeiro deles, que se põe imediatamente, é saber se a aprendizagem é uma mera assimilação que o aluno faz do conteúdo dado pelo professor. Em que termos aluno e professor se relacionam com o conhecimento dado socialmente? No bojo desta questão localiza-se uma problemática mais ampla, a saber, se a formação humana é uma simples modelagem exercida pela força das gerações mais velhas sobre as mais novas ou um processo criativo, aberto e indeterminável, que emerge da relação recíproca entre gerações.

Dewey elabora sua concepção de educação como direção no contexto da interação humana mediada simbolicamente. Neste contexto, ele precisa se ocupar com o problema da imitação humana e o faz no terceiro capítulo de Democracia e Educação. O tratamento que oferece à imitação torna-se instrutivo para investigar sua própria concepção de educação.

O adversário teórico de Dewey é novamente a psicologia sensualista. Tal psicologia deriva sua noção de aprendizagem diretamente do contato do sujeito individual com os objetos. Numa atitude mental solitária o sujeito aprende, segundo tal psicologia, porque é capaz de elaborar as sensações que lhe chegam do mundo exterior por meio dos sentidos. Ela exclui o sentido comum, elaborado socialmente, como aspecto decisivo da aprendizagem. Ignora, portanto, o fato de que os seres humanos educam e se deixam educar porque possuem a disposição intelectual de atribuir sentido comum às coisas.

Como a psicologia sensualista concebe e emprega a imitação? Segundo ela, a direção social resulta da tendência instintiva do ser humano de imitar ou copiar a ação de outros seres humanos. Porque o instinto imitativo é tão forte, não resta outra coisa ao educando senão se adaptar às normas existentes e simplesmente reproduzi-las em seu modo de conduta. A imitação é concebida, neste sentido, como adaptação ao existente, não havendo inovação, mas simplesmente reprodução.

Contudo, insiste Dewey, a redução da educação à adaptação esconde o fato de que a busca por sentido comum – que está na base da comunidade de vida -, é marcada pela plasticidade humana, a qual garante a própria pluralidade da ação humana. O espírito semelhante e a necessidade de compreensão recíproca não é sinônimo de imitação como mera cópia da ordem existente.

Deste modo, não há, por exemplo, uma única resposta a um insulto provocado por uma situação moral, social ou política. O ser humano possuem ao seu dispor a capacidade, dado a plasticidade de sua condição, de reagir de diferentes maneiras, dependendo do contexto histórico social e dos costumes nos quais é formado.

O ser humano necessita comparar-se constantemente com os outros para aprender e crescer, mas tal comparação não significa imitação como mera reprodução da ação dos outros. Isto põe um difícil problema para a educação: se o educando não desenvolver a capacidade de comparação, permanece estagnado e não cresce; se o educador não permitir tal comparação, exigindo tão somente a imitação adaptativa de seu educando, impede seu crescimento.

Comparar-se criativamente é um processo reciprocamente doloroso, tanto para o educando como para o educador. Exige ruptura do educando em relação a certas ideias e modos de procedimentos do educador. Cada criança é portadora de uma novidade que em certo sentido sempre entra em conflito com o modo de ser do adulto. O dinamismo do novo contrapõe-se diretamente com o sentido adaptativo forte da geração mais velha.

De outra parte, não é nada fácil ao educador aceitar pacificamente a novidade trazida pelo educando. Sua tendência natural é lutar para que o educando permaneça nos trilhos da tradição, assimilando os costumes socialmente instituídos. Enquanto o novo quer descarrilhar, o velho compreende que um mundo totalmente saído dos trilhos não faz o trem andar.

Em síntese, Dewey se volta contra o sentido de imitação da psicologia sensualista por que ela deixa de fora a noção de ação humana como uma experiência compartilhada socialmente, cujo sentido comum é dado pelo espírito socializado. Uma vez que a imitação como mera cópia impede a dimensão intersubjetiva da educação, ou seja, o seu sentido comum, ela precisa ser superada, tanto no âmbito das teorias educacionais como no da prática educacional.

A crítica a imitação como processo de reprodução adaptativa não significa, no entanto, a negação completa do possível sentido pedagógico inerente à própria imitação. Livre do reducionismo psicologista, a imitação, associada à propensão humana por comparação, torna-se um mecanismo poderoso de aperfeiçoamento da própria ação humana.

Pois, como afirma Dewey, por meio da observação rigorosa do modo como o educador age e por meio da seleção judiciosa, o educando torna-se capaz de fazer melhor algo que já tem buscado fazer. Também pela imitação formativa, descobre outros modos de ação que lhe eram até então desconhecidos. Quando associada ao processo reflexivo a imitação que o educando faz permite um nível de internalização e reelaboração da experiência que vai muito além de uma mera repetição (cópia) dos atos do educador.   

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