O pastor dos direitos humanos

Postado por: José Ernani Almeida

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Dom Paulo de Evaristo Arns, falecido na última semana, foi uma das figuras fundamentais no combate aos horrores que a ditadura militar implantou no Brasil à partir de  1964.

  Já em 1972, ele e o cardeal Aloysio Loscheider, presidente da CNBB, ambos franciscanos, surpreenderam o general Médici, ao irem à  Brasília protestar contra o fuzilamento de toda a cúpula do proscrito Partido Comunista.

 Em 1975 dom Paulo demonstrou toda a sua coragem ao enfrentar o regime militar, quando do assassinato do jornalista Vladimir Herzog,  judeu e comunista, diretor de jornalismo da TV Cultura, nas dependências do  DOI-CODI de São Paulo.

 Sua morte foi apresentada como suicídio por enforcamento, uma forma grosseira de encobrir a realidade: tortura, seguida de morte. A missa celebrada na Praça da Sé por dom Evaristo, assistido por dois rabinos e um pastor protestante, foi um ato comovido de repulsa à violência.

O regime tentou bloquear o acesso da população ao centro da cidade, provocando um verdadeiro tumulto no trânsito. Mesmo assim, milhares de pessoas lotaram a praça e a Catedral da Sé. A missa foi simbólica no combate ao terrorismo de Estado. A direita dos dias atuais, possivelmente, taxaria dom Paulo de “padre comunista”.

Revelar o que ocorreu durante o período em que este terrorismo de Estado foi ativo, ficou pendente após a lei da Anistia. Anistiou-se o mesmo e os que cometeram violações e crimes de lesa-humanidade.

Esta foi a condição exigida pelo regime e pelos setores políticos que apoiavam a ditadura para que se chegasse  a qualquer anistia. Seria do jeito que foi, ou não haveria nada.

Ficou uma questão mal resolvida: revelar as dimensões do horror e apontar seus responsáveis.  E foi assim que mais tarde, após a retirada dos generais do poder, embora não da cena política, houve um antecedente especialmente valioso, o projeto “Brasil: Nunca Mais”.

A publicação foi da maior importância para que, dez anos depois, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, criada por lei, contasse como uma base  sólida  para dar início  à sua missão.

 Realizado com o amparo do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Paulo E. Arns, e do reverendo presbiteriano Jaime Wright, o projeto resultou no livro “Brasil: Nunca Mais”, publicado em 1985, que trouxe um espantoso inventário da repressão implantada pela ditadura.

Depois de analisar 707 processos políticos abertos na Justiça Militar entre 1964, o ano do golpe, e 1979, o ano da Lei da Anistia, o livro trouxe um balanço contundente: no período, mais de sete mil pessoas foram processadas, outras 10 mil chegaram à fase de inquérito judicial, 130 foram banidas do país, quase cinco mil tiveram seus direitos e mandatos políticos cassados nas Forças Armadas, cerca de 6.600 pessoas foram punidas – por não terem aderido ao movimento golpista.

Mais do que números, porém, o livro trouxe um amplo e minucioso registro das arbitrariedades e violações dos direitos humanos mais básicos nas masmorras e nos centros de tormento daqueles “anos de chumbo”.

A morte de dom Paulo representa uma perda irreparável para o movimento dos direitos humanos, numa época em que parlamentares  fazem apologia à torturadores, como foi o caso do execrável Jair Bolsonaro, ao homenagear um dos facínoras  da ditadura no Congresso Nacional.

Dom Paulo disse certa vez que gostaria de ser lembrado como “amigo do povo”. Ele foi muito mais: o verdadeiro símbolo dos direitos humanos no Brasil.

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