Educação como experiência compartilhada

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Antes de finalizar o terceiro capitulo de Democracia e Educação, Dewey expõe uma definição de educação que caracteriza sua própria concepção educacional mais ampla. Trata-se da definição de educação como experiência compartilhada. Tal definição está diretamente relacionada com dois aspectos, com a dimensão eminentemente social da educação e com o desenvolvimento das disposições humanas individuais.

Cabe lembrar, novamente, que Democracia e Educação é escrita no início do século passado. Insere-se no ambiente otimista do desenvolvimento humano e social, impulsionado pelo poder da ciência e da técnica. Predomina a fé no progresso e no desenvolvimento econômico possibilitado pelo incremento tecnológico cada vez maior. Embora Dewey não seja um otimista ingênuo em relação ao progresso causado pela invenção tecnológica, o fato é que sua obra aposta firmemente no melhoramento humano pelo bom uso da técnica e, sobretudo, pela educação do ser humano.

Insere-se na tradição de pensamento segundo a qual o melhoramento humano depende do domínio das forças naturais. Deste modo, o avanço da civilização depende da transformação de forças e objetos naturais em instrumentos de ação. Isto pressupõe uma intervenção planejada na natureza, transformando-a em meio para conquistar fins. Certamente é esta noção, digamos assim, mais instrumental de natureza que o distancia da noção rousseauniana de natureza, compreendida como referência normativa do cultivo humano de si mesmo.

Rousseau, mais do que Dewey, acentua a natureza como fonte do aperfeiçoamento cultural humano, na medida em que ela provoca, segundo ele, o sentimento estético que conduz o ser humano á virtude. Rousseau acredita que contemplando a beleza dos bens naturais, como a lua, as estrelas, a floresta, somos arrancados de nós mesmos, da vaidade de nosso amor próprio, podendo perceber, com isso, o mundo e os outros de uma perspectiva diferente, mais solidária e menos individualista. A natureza é, deste modo, uma profunda fonte de inspiração para que possamos “corrigir” a dimensão destrutiva de nosso amor próprio. Dewey está distante desta concepção de natureza e, por isso, entende Rousseau de maneira equivocada.

De qualquer modo, para Dewey, o trabalho técnico progressivo e intenso que o ser humano realizou sobre o mundo natural colocou a própria natureza ao seu favor. O cultivo técnico da natureza tornou favorável à vida humana condições naturais antes completamente hostis. Muitos exemplos poderiam ser dados aqui, como a domesticação dos animais. Do touro selvagem ao boi domesticado, usado para arrarar a terra, a diferença é grande. Fez resultar bens de consumo que aliviaram a dura vida material do ser humano, deixando espaço cada vez maior para a invenção artística e cultural.

Dewey adverte, contudo, que o domínio crescente da natureza não significa por si só civilização. O ser humano pode dominar a natureza e transformar-se ele próprio cada vez mais em um selvagem. O domínio irracional da natureza pode embrutecer a vida humana, colocando em risco o próprio meio ambiente. O que marca a diferença? É, segundo Dewey, o uso que o próprio ser humano faz da natureza e do conhecimento que ele acumula de tal uso. Há um elemento de aprendizagem crescente, de um conhecimento acumulativo, da relação do ser humano com a natureza.

Pelo fato de ser capaz de elaborar intelectualmente sua experiência, o ser humano nunca começa do zero sua relação com a natureza.  A própria criança faz uso, segundo Dewey, do conhecimento que a civilização acumula de sua relação com a natureza. Tais conhecimentos não são só científicos, mas também artísticos, os quais permitem que o ser humano se distancie, progressivamente, de suas compreensões supersticiosas sobre a natureza e sobre si mesmo.

Em síntese, segundo Dewey, o que faz a diferença no uso que o ser humano faz da natureza, que impende que tal uso assuma somente uma direção instrumental, é o “interesse pela vida verdadeiramente compartilhada ou associada”. Quando os recursos naturais, culturais e sociais são empregados na direção da vida associada, então tais recursos tornam-se positivos à civilização. Vida associada é o critério que impende o uso instrumental da natureza e a própria instrumentalização das pessoas.

Decisivo, para o pedagogo americano, é que a relação do ser humano com as coisas e a relação entre os próprios seres humanos pode assumir a forma de uma experiência compartilhada. A linguagem é o grande potencializador desta experiência, permitindo ao ser humano se antecipar simbólica e imaginativamente às situações.

A educação como experiência compartilhada, mediada pela linguagem, a torna um princípio ativo e construtivo. De que modo? Pela nossa capacidade de expressão simbólica nos pomos em movimento na direção dos outros e de nós mesmos. Deixamos de ser um casulo e nos tornamos uma colmeia, construído nosso sentido de vida em comum com outros seres humanos.

Também é a atividade em conjunta o tipo de compartilhamento social que torna possível o desenvolvimento das disposições intelectuais individuais. Portanto, a educação como experiência compartilhada está na base não só do desenvolvimento cultural mais amplo, senão também das disposições individuais, sem as quais não haveria comunidade humana. 

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