Educação como preparação

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Esta é minha última coluna do ano de 2016. Agradeço aos meus leitores e desejo-lhes 2017 com saúde e muitas realizações. Eu estava inicialmente muito tentado em fazer na coluna de hoje uma retrospectiva de 2016. Certamente teria muito tema a tratar. Mas prefiro dar curso a minha interpretação sobre Democracia e Educação, de John Dewey. Inclusive, irei me ocupar com ela na primeira parte de 2017.

Lembro apenas o leitor sobre o motivo que me levou até esta obra clássica da educação contemporânea. Ela desenvolve uma das teorias educacionais mais potentes do século XX, apresentando um conceito de educação que é atual sob muitos aspectos: educação como necessidade da vida, como função social, direção, crescimento e preparação.

Estes temas são tratados nos três primeiros capítulos da referida obra, sendo que é no IV capítulo que Dewey apresenta sua concepção central de condição humana como plasticidade. Insere-se, com isso, em uma longa tradição que remonta à noção de perfectibilidade de Jean-Jacques Rousseau e multiplicidade do interesse em Johann F. Herbart. Muito em breve trarei a público um ensaio, no qual trato do vínculo entre perfectibilidade, multiplicidade do interesse e plasticidade.

De qualquer sorte, a noção de plasticidade é, como já tratei na coluna do dia 26/09/2016, central à teoria educacional de John Dewey. É uma categoria antropológica básica, constitutiva da condição humana, que possibilita o próprio ato do aprender. O pedagogo americano chega mesmo a identificar plasticidade com o poder de aprender. Portanto, é justamente por ser plástico e ter a elasticidade de movimentos e ações que o ser humano aprende, sobretudo, na fase inicial de sua vida, na infância e adolescência.

Dewey dedica o capítulo quarto de Democracia e Educação para criticar a noção de educação como preparação. Mas sua crítica deixa a entender que ele compreende a preparação em um sentido bem específico: trata-se da preparação da criança para a vida adulta, para as responsabilidades da vida adulta. Esta noção de educação como preparação para vida adulta opõe-se frontalmente, segundo ele, à concepção de educação como desenvolvimento.

O que significa propriamente educação como preparação para a vida adulta e por que ela se opõe à educação como crescimento? Quando o educando enquanto criança é tomado somente pela ótica de tornar-se um adulto, o risco que se corre é de deixar de compreender a criança como criança. Tem-se a tendência de trata-la como um pequeno adulto e não mais como criança. Dewey está preocupado com a teleologia imposta pelo adulto ao mundo infantil e que conduz ao desrespeito pela especificidade da criança: “As crianças não são consideradas como membros sociais em uma situação plena e singular”.

A exigência pedagógica de respeitar a criança como criança é um problema nuclear das teorias educacionais clássicas. O Emílio de Rousseau é a prova mais cabal disso. Nos três primeiros livros da referida obra Rousseau critica o que ele chama de “educação bárbara”, porque ela não respeita a criança como criança, matando com isso a alegria e o modo espontâneo de ser que caracteriza a infância. Ao projetar o mundo adulto na criança, os educadores de sua época impediam o crescimento natural da criança.

Parece que é isso que em parte Dewey possui em mente quando diz que a educação como preparação se opõe a noção de educação como crescimento. A educação como preparação esquece que a criança vive o momento presente, que a preocupação com o futuro não é e nem deve ser o núcleo de seu processo formativo. Viver o presente não é algo destrutivo; ao contrário, é algo excelente, porque agindo assim, a criança concede a si mesma o tempo necessário para sua maturação, de acordo com suas próprias disposições. Apressar o crescimento pode tornar-se danoso ao próprio futuro da criança.

Educar para o futuro sem considerar pedagogicamente as condições presentes da criança significa querer conduzi-la para um vazio indeterminado que freia o próprio ímpeto inerente à sua condição infantil. Para as crianças, tudo precisa estar vinculado à sua experiência sensível e o crescimento infantil precisa respeitar tal vínculo.

O ímpeto do qual fala Dewey caracteriza-se pelo crescimento progressivo das condições sensíveis iniciais às condições intelectuais e afetivas mais complexas. As experiências afetivas e cognitivas inicias da criança são muito simples e só vão se complexificando adequadamente se o adulto tiver paciência para respeitar a simplicidade inicial que caracteriza o mundo da criança.

Além de bloquear o ímpeto da criança, a educação como preparação para o futuro conduz à vacilação ou demora. O futuro para o qual se pretende preparar, além de ser completamente incerto, demora muito tempo para chegar a ser presente. Preparar para algo tão distante não faz o menor sentido para a criança. Ela quer e precisa viver o imediato, alegra-se em vivê-lo e precisa encontrar no adulto um ponto de apoio para esta vivência.

Mas não se trata de uma vivência sem sentido, pois enquanto ela ocorre de maneira espontânea, sem pressa, propicia à condição infantil o tempo necessário para que possa desenvolver suas disposições. A criança descobre o tempo necessário de que precisa na medida em que puder fazer suas próprias descobertas.

Educação como crescimento - como oposto à educação como preparação para o futuro -  significa então, para ser bem sucedida, conhecer e saber respeitar a condição infantil, dando-lhe o tempo necessário para o desenvolvimento de suas disposições. Por isso que o jogo e a brincadeira são estratégias pedagógicas indispensáveis porque por meio delas não só os adultos, mas também as próprias crianças aprendem a respeitar o seu próprio tempo de crescimento.

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