O eterno ritual da passagem do tempo

Postado por: José Ernani Almeida

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Contar o tempo é uma grande ilusão, como sabemos, mas – e se não contássemos? Li esta indagação tempos atrás. Não lembro quem a escreveu, mas a achei muito pertinente. Agora, quando nos aproximamos de um novo ano, a questão de contar o tempo se torna muito presente.

Ao iniciar 2017 lá iremos todos nós assistir à queima dos fogos, tomar espumante, trocar votos de um feliz ano novo entre abraços e beijos efusivos. Estaremos comemorando o tempo que passou e, igualmente, o tempo que está chegando. É a emoção da virada, da volta  a uma espécie de marco zero, do recomeço, de projetar  o futuro.

Vamos renovar propósitos, fazer um balanço do que passou e do que poderemos fazer nos próximos 12 meses. É um momento de doçuras e reconciliações. Tempo de soerguimento de ânimo e afirmação de propósitos. Quantas vezes já fizemos isto no passado e, obviamente, continuaremos a fazê-lo. É um ritual de passagem do tempo.

Ah! O tempo. Sempre ele. Embora saibamos que não há recomeço pelo simples  fato  da passagem de ano, mesmo assim, iremos  todos aderir ao coro da contagem regressiva e, ao toque da meia-noite, estaremos emocionados  trocando votos de felicidades, saúde, progresso, etc. Sabemos que o  tempo, para todos nós, avança de forma inexorável. Talvez, na passagem de um ano para o outro, busquemos aprisionar o que não é possível deter, o calendário.

Sabemos que ele provoca desgaste e envelhecimento. É ele que, diariamente, nos mostra, nos alerta, que o tempo está passando. Entretanto, a cada 365 dias, todos nós temos a ilusão de  retornar  ao marco zero  e começar  tudo de novo. Vamos dizer feliz ano novo e derramar lágrimas ao saudar, com alegria, emoção e esperança, a chegada de 2017. Esta é a mágica da passagem de ano.

 Caetano Veloso compôs uma canção, Oração ao Tempo, na qual exalta o seu mistério: “És um senhor tão bonito/Quanto a cara do meu filho/Tempo, tempo, tempo, tempo/Vou te fazer um pedido/Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos/Entro num acordo contigo/Por seres tão inventivo/E pareceres contínuo/És um dos deuses mais lindos/Que sejas ainda mais vivo/No som do meu estribilho/Ouve bem o que te digo/Peço-te o prazer legítimo/E o movimento preciso/De modo que o meu espírito/Ganhe  um brilho definido/E quando eu tiver saído/Para fora do teu círculo/Não serei nem terás sido/Ainda assim acredito/Ser possível reunirmo-nos/Num outro nível de vínculo/Tempo, tempo, tempo.”

A Grécia e seus sábios nos deixaram um ensinamento célebre, o carpe diem (aproveita o dia de hoje), ou seja, a convicção de que só vale a pena viver a vida que se situa no aqui e no agora, na reconciliação com o presente. Nesta época de renovação de esperanças, é preciso lembrar-se de um ensinamento dos filósofos, segundo o qual, a esperança, ao contrário do que pensa o comum dos mortais, longe de nos ajudar a viver melhor, nos faz perder o essencial da vida, que deve ser abraçado aqui e agora.

Isto é, não podemos viver a nostalgia de um passado que não existe mais e a espera de um futuro que ainda não existe. John Lennon, disse certa vez, que “a vida é aquilo que acontece enquanto você está planejando o futuro”. Portanto, é preciso viver o momento.

 O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu, com toda a sua genialidade,  uma  Receita  de  Ano Novo:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

Não precisa

Fazer lista de boas intenções

Para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar arrependido

Pelas besteiras consumidas

Nem parvamente acreditar

Que por decreto de esperança

A partir de janeiro as coisas mudem

E seja tudo claridade, recompensa,

Justiça entre os homens e as nações,

Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

Direitos respeitados, começando

Pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo

Que mereça este nome,

Você, meu caro, tem de merecê-lo,

Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,

Mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o ano novo

Cochila e espera desde sempre.


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