A vida segue!!

Postado por: Dilerman Zanchet

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*Dilerman Zanchet – Jornalista

 Era para ser apenas mais uma partida de futebol.

Para grande parte do elenco, mais uma das tantas disputadas nos gramados da vida. Centenas, até milhares para alguns como Cléber Santana. Outros estariam novamente no grupo, levando a força da energia positiva aos colegas, já que não deveriam ser escalados. E quem escalaria aquela equipe para tentar um bom resultado tão longe e, em uma partida em que enfrentaria o Campeão da Libertadores?

Como escalar um time humilde, modesto, até então sem grandes “ídolos” do futebol, a não ser o goleiro Danilo e seus milagres dos últimos jogos. Ou a certeza de que, lá na frente, a rapaziada iria dar conta do recado?

Como ser amigo e técnico de um grupo como este, que chimarreava na praça com os populares nos finais de tarde, depois do treino, para depois rumarem aos seus lares, grande parte deles apartamentos alugados pelo clube e onde estavam mulher e filhos? Como ser Caio Júnior técnico, depois de uma carreira vitoriosa em outros clubes e há mais de três por ali, sendo respeitado, mimado, valorizado em vista de sua competência, deixando no banco de reservas, além de atletas, amigos?

E a expectativa daquele dia, ao embarcar no Brasil, seria apenas para o jogo contra o Nacional de Medelín ou já na partida da volta, no Paraná ou no Rio Grande do Sul, uma vez que a Arena Condá não comportaria as exigências quanto à capacidade de público?

E como seria deslocar dezenas de ônibus de Chapecó para Curitiba, ou para Porto Alegre, levando a torcida da Chape para a final, quem sabe com um bom resultado nesta partida de quarta-feira (30.11)?

Quem sabe a direção, ao definir a empresa aérea que faria o transporte, tivesse optado por uma concorrente, e aquilo tudo não tivesse acontecido?

Quem sabe o piloto tivesse sido responsável ao extremo, não permitindo excesso de bagagem antes da decolagem, pois todos os tanques de combustível da aeronave estavam cheios, e a autonomia de voo seria superada?

Quem sabe se Deus, no alto de sua infinita bondade e sabedoria, não queria para ter ao seu lado aquelas vidas? E poupar estas outras, felizmente já recuperadas e superando dia a dia o trauma vivido?

Quem sabe?

E quem sabe?

Este artigo não retratará os 30 dias passados do acidente que vitimou todos da Chape, do Brasil. A questão do acidente já está batida demais. Muitas palavras, muitas lágrimas foram derramadas. Muitos corações, por mais insensíveis que possam ser, bateram mais forte com todas aquelas imagens que minha memória jamais vai apagar.

Ao chegar na Arena Condá, em Chapecó, com o colega Cristian, por determinação da direção da Rádio Planalto, para a cobertura do velório coletivo, senti que faria meu trabalho com o coração. A emoção daria lugar à razão. Psicologicamente normal em uma situação como essa. E entendi a partir de então tudo seria diferente.

O estádio abrigou mais de 1.200 jornalistas, fotógrafos, cinegrafistas, radialistas, etc. Foi uma das maiores tragédias do ano em todo o mundo. Não há comparação com a tragédia da Kiss, a não ser na irresponsabilidade de quem detinha o controle das situações.

Chapecó enlutou. A cidade chorou. O Brasil chorou. Eu chorei.

As lágrimas da jovem que consegui retratar na foto, e sua oração aos céus, bem como os cantos emocionados da torcida, que lotou a Arena, e aplaudia a cada caixão que entrava no local, se somaram às do mundo.

As lágrimas do indiozinho, mascote da Chape, ainda sem terem a real conexão da razão com a emoção do momento pelos seus cinco anos, superaram a hipocrisia, a banal e surreal opinião de alguns medíocres críticos de um momento único de dor. Talvez porque aquelas lágrimas não afetassem seus sentimentos torpes. Porém, poderiam ter sido evitados, pela razão do momento.

Aqueles dias foram dolorosos. Doeu ao mundo ver tanta gente sofrendo, olhos inchados de tanto chorar. A voz que embargava a qualquer relato sobre o assunto, as imagens, que dizem muito mais que palavras.

O exemplo de Medellín seguirá vivo por muito tempo.

O exemplo daquele estádio lotado, chorando e aplaudindo a cada caixão que chegava, foi emocionante demais.

Aprendi um pouco – a gente sempre aprende, na dor ou na alegria – a entender a vida. Só se entende a vida a partir da morte terrena. Quem viveu aquelas emoções e se diz filho de Deus, aprende e muda seu comportamento, com certeza.

Resta-nos, depois de toda a polêmica, tentar compreender aquelas 71 mortes. Uma equipe de futebol inteira. Jornalistas, radialistas, diretores, tripulação. Enfim, resta-nos rezar por eles. E pedir clemência aos céus, pois neste jogo de futebol não há preço de ingresso. Basta acreditar em Deus e ter fé.

Tentei, por cerca de uma semana, conseguir uma palavra do radialista Rafael Henzel, sobrevivente da tragédia. Acreditava que, pela profissão em comum, conseguiria uma frase, duas. Talvez até uma entrevista, possivelmente não tão longa quanto às que ele deu a canais de tevê do centro do país. Ele respondeu apenas que não gostaria mais de falar sobre o acidente, pois era muito doído.

Respeitei. Respeito à dor. Dele e dos demais sobreviventes.

Respeito e vou rezar pelas almas dos que se foram. E pela plena recuperação dos que conseguiram voltar vivos.

Trinta e poucos dias se passaram, a partir do acidente, até esta publicação.

As notícias reduziram-se. Até por que as tragédias humanas são assim. O jornalismo é assim. As tragédias acontecem, têm o seu tempo de exposição e a vida segue.

Vou continuar fazendo o meu trabalho neste ano novo, cada dia com mais afinco, pois ninguém, exceto Deus, sabe o que nos espera o amanhã.

E, como já disse, serei, a partir de então, mais um torcedor pela Chape.

Peço a Deus para que ilumine o coração de cada familiar daquelas vítimas. 

FELIZ 2017 A TODOS.

PS. Você confere este artigo com fotos na Revista Somando On Line - http://rdplanalto.com/revista-somando/somando-online/51

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