Sexo e Poder

Postado por: José Ernani Almeida

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Ao ler  a nota  da  colunista  Zulmara Colussi do Jornal O Nacional, dando conta de  uma confraternização de  vereadores recém eleitos, em uma conhecida  casa noturna da cidade, lembrei-me de  Michel Foucault que, quando publicou sua  História da Sexualidade, em 1976, jogou luz  em uma vasta discussão sobre a sexualidade ocidental e suas  relações de poder.

Outra fundamental contribuição para  o tema  foi o livro  Sexo e poder: a família no mundo ( 1900-2000), de  Göran Therborn, que tratou dos sistemas  familiares e chamou a atenção para a  fraqueza do patriarcado. No Brasil, o sexo sempre foi poderoso no âmbito familiar. Mas não apenas. Partindo lá do século XV, ainda na carta de  Pero Vaz de  Caminha, já se nota o quanto o assunto esteve presente em nossa história não só como um discurso sobre o prazer, mas como indício de dominação.

 Seja para “mostrar quem é que manda”, seja para  ascender socialmente, conquistar liberdade, dinheiro.Enfim, o sexo aparece como uma ferramenta  para que objetivos específicos  sejam atingidos. No século XIX  chegaram ao Brasil  as  “ideias  francesas” que representaram a participação de mulheres livres nos folguedos, indício do afrouxamento dos costumes  patriarcais de reclusão feminina. 

Na rua, entretanto, a participação da mulher era um desafio. O espaço público foi uma construção essencialmente masculina, do que resultou uma confusão semântica que perdura até os dias de hoje. “ Mulher pública” era sinônimo de prostituta na Europa e no Brasil. O historiador  Marcus  J.M. de  Carvalho, da  Universidade  Federal de Pernambuco, no artigo “Ah, essas ideias francesas!”, publicado na revista de História  da  Biblioteca Nacional, de  junho de  2013, revela que  “  em  São José,  ‘meretrizes escandalosas’ incomodavam a  Câmara.  Ah, as  câmaras !

O  historiador  revela  ainda que “ no ano da  Insurreição Praieira, 1848, um baile oferecido à fina flor da sociedade pernambucana  deixa entrever  a chegada dos hábitos franceses, como de  ‘dar beijocas nas senhoras’ e de outras atitudes libertinas”.

 Na  verdade, historicamente uma das  principais imagens que surgem quando se pensa no Brasil é de uma  suposta sexualidade desenfreada. Aqui, a questão sexual  teria  características próprias, excepcionais, exóticas. Espécie  de território de proezas.

Me parece que este foi o caminho  adotado pelos  festeiros edis de nossa Câmara de  Vereadores. Seguiram uma tradição: sexo e poder. Esqueceram, entretanto, que existe o outro lado da moeda. A grande imagem de liberação sexual oblitera uma realidade sensível: as desigualdades na participação democrática efetiva.

 De uns  anos  para cá, o país presencia um embate sociopolítico em que as bancadas mais conservadoras, afiliadas a grupos religiosos, ganham espaço considerável no Congresso, elevando seus gritos de protesto contra direitos sexuais já conquistados e ameaçando a laicidade do Estado.

 Se  por um lado, como afirma a  antropóloga   Maria Elvira Diaz-Benitez,da  UFRJ, “ o Brasil é um lugar de eterno verão, produtor de um carnaval lascivo, de corpos e prazeres tropicais e com uma grande oferta  de turismo sexual, por outro, já tivemos um pastor  para  a presidência  da  Câmara, apesar de suas posições  polêmicas sobre homossexuais, negros e os direitos das  mulheres”.  

Nossos nobres  edis que participaram da “confraternização top”, deveriam  lembrar que  se todo sexo é político, como afirmou a antropóloga  norte-americana Gayle Rubin, a sexualidade brasileira   também não é neutra. Ela está envolvida em relações de poder. Evoca aqueles discursos do começo do século XX sobre raça, mestiçagem e o futuro da nação, os métodos eugênicos, a criação das patologias e dos pervertidos sexuais.

 Em síntese, como observou a antropóloga  Maria Benitez, “  sexualidade  e raça  se encontram intimamente ligadas nos  imaginários coletivos de brasilidade – que foram construídos pela história, a medicina, a literatura, a criminologia, a religião, a mídia, a pornografia – envolvendo questões  de classe e de gênero”.

Os  vereadores   não se deram conta de que  são figuras públicas; Que  representam  parcelas da população e um poder no contexto do município; Que tal  “festinha” escancarou  as contradições de um país onde  sexualidade, vista de fora como libertária, na verdade  se entrecruza com diversas formas de desigualdade ?

 Fotos que  circulam nas redes sociais  sobre  a  “confraternização” dos edis, nos remetem  aos tempos do Imperador  Calígula, do Império Romano. A província de  “Passus  Fundus”  e seus edis fariam, sem dúvida, jus à cidadania romana  da  época do exótico imperador.

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