Preparação versus crescimento

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Claudio A. Dalbosco – UPF/CNPq

No capítulo V de Democracia e Educação Dewey critica a concepção de educação como preparação em nome da defesa da educação como crescimento. Entender sua crítica significa então, ao mesmo tempo, compreender de maneira mais precisa sua própria ideia de educação. O que há de importante, pedagogicamente, nesta oposição entre preparação e crescimento?

A preparação, como tratei na coluna anterior, diz respeito a tomar a criança com vistas ao que ela vai ser quando for adulto. A ideia de educação como preparação compreendida nestes termos significa trocar o presente pelo futuro e projetar no mundo infantil o ideal adulto, focando no que a criança deve ser quando se tornar de maior.

Esta ideia de educação como preparação possui consequências danosas para a formação da criança. Ela enfraquece, como aponta Dewey, o ímpeto infantil, pois a criança deixa de ser ela mesma para atender o ideal adulto. Com isso, torna-se insegura e se apressa em seu desenvolvimento, queimando o tempo necessário para seu amadurecimento gradual.

Uma educação voltada para preparar a criança para o futuro torna o ensino desinteressante porque a própria ideia de futuro é algo remoto, que faz pouco sentido para o educando. Mas, de onde brota o interessante para a criança? Ele reside, segundo Dewey, na situação com a qual o educando se confronta realmente. O ensino encontra seu ponto de partida nas experiências reais e concretas que dizem respeito ao mundo da criança, sendo que é destas experiências que evolui para outras mais complexas.

Educação como preparação para o futuro desrespeita este princípio pedagógico básico porque projeta no mundo da criança situações tão abstratas que não fazem o menor sentido para a criança. O interesse pelo futuro pode fazer algum sentido para a criança na medida em que estiver conectado com o modo de vida presente da própria criança.

Mas, o que acontece com os educadores que planejam sua educação baseando-se na ideia de preparação para o futuro? Sua postura pedagógica acaba resumindo-se na lógica baseada em “promessas de recompensa e ameaças de castigo”. Ou seja, para tornar concreto o futuro abstrato, o educador oferece recompensas ao educando. Para torna-las mais eficientes, se for necessário, ameaça-o com castigos. “Se você não projetar isso para sua vida, corre o risco de não ser ninguém ou então vai morrer de fome”!

A educação como preparação para o futuro, – e este é seu ponto nuclear – só pode ser eficiente com base no autoritarismo. Para poder tratar de um conteúdo que está muito além das condições intelectuais do educando, tal educação desrespeita o próprio mundo experiencial do educando. Seu erro pedagógico elementar repousa no desrespeito do tempo de aprendizagem do educando. Devido à dureza e impotência do método, os educandos são levados a fazerem algo pelo qual não se interessam.

Em que sentido a crítica de Dewey à ideia de educação como preparação para o futuro auxilia-o no esclarecimento de sua própria noção de educação como crescimento? Em primeiro lugar, a noção de crescimento exige que se compreenda progressivamente as possibilidades presentes. A educação como preparação para o futuro desconsidera isso porque toma a criança exclusivamente pelo que ela ainda não é.

De outra parte, a noção de crescimento exige do educador a investigação das condições afetivas e cognitivas reais, nas quais o educando se encontra. Trata-se de toma-lo naquilo que ele é e não naquilo que ele deve ser. Contudo, como alerta Dewey, não se trata de desconsiderar que a educação também precisa ser preparação para o futuro, mas ela precisa sê-lo respeitando o educando naquilo que ele é. Ou seja, o ponto de partida deve ser sempre “as possibilidades presentes”, as quais devem ser buscadas no modo de reação do próprio educando.

As possibilidades presentes constituem o mundo infantil; dizem o que as crianças são, ao mesmo tempo em que apontam para o que elas podem ser. Observá-las atentamente em sua prática educativa é tarefa primordial de cada educador. Levá-las em consideração, tornam os educandos mais aptos, mais preparados, para satisfazer as exigências posteriores.

A própria ideia de crescimento só faz sentido com base no conhecimento das possibilidades presentes do educando. Como são as disposições (aptidões) que em última instância contém as possibilidades presentes, são sobre elas que devem recair a atuação do educador. Como conhecer tais disposições e como faze-las crescer é uma das principais tarefas do educador.

De que modo se manifestam as possibilidades presentes? Elas se manifestam principalmente nas atividades mais espontâneas da criança. Quanto mais pequena for a criança, mais instintivas e espontâneas são as manifestações de suas possibilidades. O jogo e a brincadeira são as formas iniciais mais espontâneas de manifestação das disposições da criança. Pelo lúdico a criança mostra-se no que ela é, revelando suas disposições.

De qualquer sorte, as disposições não crescem por si mesmas, isoladamente. Não são obra nem só do educador e nem só do educando. Quando o educador é autoritário e quando o educando não possui interesse no ensino e quando ambos ainda contam com um ambiente desfavorável, então não há educação como crescimento.

O crescimento das disposições depende da ação recíproca entre educador e educando em um ambiente favorável. A educação como crescimento depende, portanto, da interação tripartite entre educando, educador e meio ambiente; por isso, ela é uma das tarefas humanas mais difíceis e complexas.

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