Educação como busca pela perfeição

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Claudio A. Dalbosco – UPF/CNPq

Dewey concebe, no capítulo V de Democracia e Educação, a busca pela perfeição como uma variante da educação como preparação para o futuro. A perfeição é uma categoria de origem teológica que possui longa tradição no âmbito da história da pedagogia. Tem a ver com o ideal de completude, visando superar a fragilidade da condição humana.

No âmbito teológico, por influência agostiniana (Santo Agostinho), a perfeição surge como forma de superar a condição humana pecadora. A Queda, devido à condição pecadora, alcança redenção somente no Reino da Graça. É o amor de Deus que aplaca o sofrimento humano causado pelo pecado. Deste modo, a destinação humana encaminha-se para o fim absoluto que é o Reino da Graça. A salvação encontra-se somente Nele.

Inserida no âmbito pedagógico, a perfeição significa o fim absoluto a ser buscado pela educação. Como um fim posto no futuro, e este é o problema para Dewey, a perfeição termina por negar as possibilidades presentes da própria educação. Além disso, a perfeição concebida como fim absoluto nega a fragilidade da condição humana. Não reconhece, de maneira adequada, a vulnerabilidade humana, tornando-se uma forma de escapismo da realidade.

A educação como busca pela perfeição nega a noção de crescimento progressivo das disposições humanas, como algo que é conquistado todos os dias, acrescentando-se tijolo por tijolo, na formação do caráter e da personalidade do educando. “Posto que o crescimento é precisamente um movimento até um ser completo, o ideal final é imóvel”.

Ora, a imobilidade do fim termina por enfraquecer o que acontece no dia a dia. Para um fim posto de maneira absoluta, a educação que acontece no dia a dia não possui muito sentido. O fato é que a busca pela perfeição nega a educação como acontecimento; valoriza somente o grandioso e nega aquilo que aparentemente é pequeno.

A busca pela perfeição, além de ser incoerente com a condição do educando, é uma aposta somente no fim, a onde se quer chegar, deixando de lado os detalhes e a simplicidade que constitui o dia a dia da vida educacional. São nas bagatelas e não nas grandes coisas, como já alertava Rousseau no Emílio, que se decide cotidianamente a vida educacional. Ele queria dizer com isso que é o aparentemente simples da condição infantil que deveria ser o ponto de partida da educação natural e não a concepção educacional adulta projetada sobre o mundo infantil.

Quando vertida para a relação pedagógica entre professor e aluno, a ideia de perfeição torna-se vertical e autoritária. O professor orienta o aluno para o fim que ele próprio estabelece no processo pedagógico. Determina o fim e direciona o aluno até ele, sem concedê-lo a oportunidade de questionar e expressar ele mesmo o fim que deseja.

Como afirma Dewey, o professor “extrai do aluno o que deseja”, empregando até mesmo “interrogações sugestivas”. Uma vez que obtém o que deseja, o professor dá-se por satisfeito, imaginando que o aluno desenvolveu-se de maneira adequada. Isto é, quando o fim já está posto de maneira absoluta, o diálogo e a pergunta tornam-se pré-forma, um engodo, e o resultado satisfaz o professor, mas muito raramente o aluno.

Sendo dirigido desde o início pelo fim posto de modo autoritário pelo professor, o aluno anda às cegas. Aprende ser obediente e não é estimulado para a autonomia. Ou seja, o fim posto de modo absoluto conduz à obediência passiva do educando. Dewey é lapidar: “Como o aluno não possui geralmente iniciativa própria nesta direção, o resultado é um andar às cegas atrás do que se busca, gerando a formação de hábitos de dependência com respeito às sugestões dos demais”.

Esta passagem do texto de Dewey deixa claro que a educação orientada pelo fim absoluto conduz à sujeição e obediência passiva do educando. Como é o professor que conhece o conteúdo do fim e possui toda a autoridade para pô-lo na relação pedagógica, cabe a ele determinar o processo pedagógico, decidindo o que é certo e errado.

Como se pode observar, está implícito na crítica que Dewey faz à educação como busca pela perfeição, um conteúdo eminentemente político, pois o autoritarismo de tal busca nega a educação em sentido democrático. O fim não é posto de maneira dialógica pelos envolvidos no processo pedagógico e nem respeita as possibilidades presentes que constituem o mundo do educando.

No âmbito do pensamento pedagógico, Dewey considera Friedrich Fröbel (1782-1852) um dos principais representantes da educação como busca pela perfeição. Os símbolos, especialmente matemáticos são, para Fröbel, a força atuante que, apresentada ao educando, faz-lhe despertar o Todo, ou seja, a perfeição que está adormecida nele. Está implícito aí a ideia de educação como desenvolvimento de um princípio latente já disposto no educando.

O fundo platônico-agostiniano desta ideia é clara: a educação é um extrair de dentro o que já existe no educando. O que incomoda teoricamente Dewey, nesta ideia, é que ela nega a noção de experiência e do aprender agindo, ou seja, do aprendizado pela própria experiência. A educação como busca pela perfeição é uma concepção idealista de educação que nega a própria experiência do educando como constitutiva do processo educacional.

Em síntese, o problema da perfeição, ou de qualquer outra ideia abstrata, é que ela não se constitui no critério aplicável à orientação imediata das disposições do educando. Como tudo depende da identificação e crescimento das possibilidades (disposições) presentes no educando, a ideia de perfeição torna-se inoperante e inadequada.

Daí que se torna importante, neste contexto, a noção de educação como crescimento progressivo, como um processo que reconhece e respeita os pequenos progressos que o educando faz em sua experiência educacional diária. Pois, quem quer somente o fim, não vive o presente e não se atém às pequenas conquistas que constroem vagarosamente o mundo intelectual do educando.

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