Educação como treino ou adestramento

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Também no capítulo V de Democracia e Educação, Dewey expõe outra teoria educacional, a qual ele denominada de Education as Training of Faculties. O problema todo reside, para se compreender corretamente este sentido de educação, na tradução da expressão training. Ela pode significar treino no sentido de adestrar o comportamento humano e, então, a tradução mais adequada seria mesmo adestramento.

“Educação como adestramento das faculdades” é a opção feita por Anísio Teixeira para a versão portuguesa da obra. “La educación como adestramento de faculdades” é a opção de Lorenzo Luzuriaga para a edição espanhola de Democracia e Educação. Ambas traduzem, portanto, training por adestramento.

Já a tradução do inglês para o alemão, feita por Erich Hylla, com a supervisão de Jürgen Oelkers, grande especialista atual do pensamento pedagógico de John Dewey, opta pela expressão “Erziehung als Schulung der Fähigkeiten”. Schulung significa adestramento, mas também pode ser traduzido com a expressão mais ampla de ensino. Então, educação como ensino não é necessariamente educação como adestramento, simplesmente porque nem todo o ensino é sinônimo de adestramento. Por sinal, esta é a grande questão: quando o ensino adestra e quando ele forma?

Esta ambiguidade que carrega a expressão training não se resume então só em um problema de erudição filológica, uma vez que tem a ver com problemas educacionais concretos. Pois, se nem todo o ensino é adestramento, ele pode significar também formação. Falar de um ser humano formado não é obviamente o mesmo que falar de um ser humano treinado ou adestrado.

A tradição pedagógica iluminista já viu este problema bem antes de Dewey. No século XVIII, o pensador alemão Immanuel Kant voltou-se pontualmente contra a educação baseada no adestramento. Para ele, em suas preleções Sobre Pedagogia, adestram-se animais e também podem se adestrar seres humanos. No entanto, é indispensável que as crianças aprendam a pensar por conta própria. Este seria para Kant um exemplo de quanto o ensino pode ser formativo, ou seja, quando conduz o educando a pensar por conta própria.

Ao pôr em discussão a educação como adestramento, Dewey está tocando no coração da problemática educacional. O fato é que, segundo ele, existe uma teoria educacional que se ancora no treinamento das faculdades humanas. Esta teoria precisa ser criticada para que a noção de educação como crescimento ganhe sua devida relevância.

Qual é o problema da educação como adestramento? Ela elege somente determinadas disposições (capacidades) do educando e as considera somente como fim, mas não como resultado do desenvolvimento. O foco em algumas disposições divide e fatia o ser humano, deixando de toma-lo em sua amplitude. Simplesmente desconsidera a multiplicidade das disposições humanas. Além disso, ao toma-las como fim, ignora todo o amplo e paciencioso processo de formação que precisa ser realizado para que ocorra o desenvolvimento das disposições humanas.

Tal teoria pressupõe o que justamente precisa ser formado. “Já que [as disposições] existem numa forma bruta, basta o trabalho de adestra-las em repetições constantes e gradativas, para que inevitavelmente se aperfeiçoem”. Trata-se, portanto, do trabalho de adestramento baseado no método de repetições constantes. Certamente é por isso que somente determinadas disposições do educando são eleitas, porque nem todas se prestam a repetições constantes.

O pedagogo inglês John Locke é, segundo Dewey, o representante clássico da teoria da educação como adestramento. Movendo-se no dualismo filosófico de seu tempo, Locke compreende o ser humano como constituído por sensações e ideias: as primeira são passivas e as segundas são ativas. Por meio das sensações o conteúdo do mundo exterior chega até o ser humano. Compete ao espírito, por meio das ideias, combinar e discriminar o que chega até ele por meios das sensações.

Ora, este dualismo epistemológico sustenta a educação como adestramento. É o exercício repetitivo de certas disposições (capacidades) que permitem as mesmas se tornarem hábitos arraigados. Sem se tornarem hábitos, as disposições não são capazes de dirigirem o espírito. É tarefa da educação, neste contexto, provocar, por meio de procedimentos repetitivos, a formação de certas disposições como atenção, memória, observação, abstração e generalização.

Dewey não faz jus inteiramente às ideias educacionais expressas por John Locke, em sua obra Os pensamentos acerca da educação. Encontram-se aí ideias mais profundas e interessantes que estão na base da formação virtuosa do jovem cavalheiro. Locke pensa em uma moral baseada nas virtudes que não se restringe somente à formação do nobre ou mesmo do burguês. Pode-se encontrar traços do homem gentil que servem ao ser humano em geral, independentemente de raça, religião ou gênero.

Deste modo, a formação moral exigida para o homem gentil (cavalheiro) vai muito além da educação como adestramento, pois pressupõe cortesia e fineza no caráter, qualidades estas que exigem a capacidade de pensar e, sobretudo, o agir moral baseado na correção. O gentil homem seria, para Locke, o símbolo de um educando esclarecido e, de modo algum, adestrado. 

Mas, aquilo que Dewey diz sobre Locke, tomando-o pelo viés epistemológico de sua teoria educacional, faz algum sentido. Com a redução da educação ao adestramento, Locke antecipa, de maneira magistral, o behaviorismo educacional contemporâneo, baseado no treinamento mecânico e repetitivo de algumas disposições humanas. Não é de se espantar que esta terminologia também mantenha certo parentesco com o linguajar atual das habilidades e competências.

O fato é que o treinamento repetitivo e mecânico das disposições humanas mata a criatividade do processo educativo, impedindo que o educando possa pensar por ele mesmo e, com isso, seja sujeito de sua própria educação. Por isso, a educação precisa ser algo a mais do que o simples treino de operações formais, lógicas e linguísticas, mas o exercício de todas as disposições em diferentes direções.

Leia Também 33º Domingo do Tempo Comum. O Enart, de novo! A importância de ter uma recepcionista/secretária preparada em seu consultório. Feito é melhor que perfeito