A construção social da segurança

Postado por: Israel Kujawa

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A construção social da segurança

“Onde quer que haja grande propriedade, há grande desigualdade. Para um homem muito rico, é preciso que haja pelo menos quinhentos pobres.” (Adam Smith)

 

Fiz referências diretas e indiretas, por várias vezes, ao pensador Zygmunt Bauman. Sua morte ocorrida no dia 10 de janeiro de 2017, aos 91 anos, motiva a lembrança e o destaque para alguns dos seus conceitos apresentados em suas dezenas de livros.  Tempos Líquidos está entre as obras e os temas mais conhecidos, em que o autor conceitua a atual sociedade como líquida, “sintetizada” na instabilidade, no enfraquecimento dos padrões, na incerteza e na insegurança. A frase de Adam Smith, transcrita no início deste texto, está no último livro de Bauman (Zahar,2015): A riqueza de poucos beneficia todos nós? (Does the richness of the few benefit us all?)

Este mesmo livro apresenta informações sobre o aumento exponencial da desigualdade econômica mundial, informado que 3 bilhões de pessoas vivam hoje abaixo da linha de pobreza, com renda inferior a US$ 2 por dia. O referido livro informa, ainda, que o Programa de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, documentou, em 1998, que 20% da população mundial detinham 86% de todos os bens produzidos no mundo, ao passo que os 20% mais pobres consumiam apenas 1,3%. Os registros atuais indicam que esses números pioraram, pois os 20% mais ricos da população mundial consomem 90% dos bens produzidos, enquanto os 20% mais pobres consomem 1%.

As instabilidades políticas e econômicas, como a vivida atualmente no Brasil, com a troca polêmica do comando de executivo e a instabilidade nas relações com o poder judiciário e como poder legislativo, são geradores do aumento das incertezas nos aspectos materiais. Vem acompanhadas ou estão a serviço da precarização das condições existenciais para as camadas da população com menos recursos. As práticas do não pagamento de salários dignos para os trabalhadores e o argumento formal, burocrático de falta de recursos para atender as áreas essenciais da sociedade, se apresentam como justificativas para implementação de políticas que possibilitam a aumento da concentração de renda em grupos reduzidos. Estas políticas estão exemplificadas na exploração econômica (movida pelo lucro) da comunicação, da energia, da água e da alimentação.

Para que a segurança seja construída, se faz necessário viabilizar o básico (moradia, alimentação, educação e saúde) para o conjunto da sociedade. Nisto está incluído medidas que priorizem a distribuição justa, em especial das riquezas naturais, como a terra, a água e a energia, pois elas estão na base das condições materiais para o desenvolvimento da vida. A construção da segurança deve considerar as complexas bases filosóficas, sociológicas e psicológicas. Nestas bases estão incluídos valores atribuídos ao conjunto dos seres vivos, os sentimentos individuais e singulares, bem como a sustentabilidade material, individual e coletiva. 

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