Os fins justificam os meios

Postado por: José Ernani Almeida

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Um, pelo menos até agora suspeito acidente aéreo, matou o ministro do STF, Teori Zavascky, relator da Operação Lava Jato, a mais importante investigação sobre os bastidores do mundo político e dos negócios no Brasil. O ministro se preparava para validar as 77 delações da Odebrecht, com impacto direto sobre centenas de parlamentares do Congresso.

 Mais de 200 políticos estão envolvidos em crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e improbidade administrativa. Teori iria cumprir nos próximos dias o mais importante ato da Lava Jato: determinar o levantamento do sigilo de todas as delações e permitir que a sociedade conhecesse o que está embaixo do tapete das relações entre o público e o privado. Nitroglicerina pura!

Quantos poderosos estavam interessados em retardar este processo? Dá para imaginar, sem muito esforço. Quando ouvi estarrecido a notícia da morte do Ministro, lembrei-me de um trecho precioso de Machado de  Assis, em Esaú e Jacó, capítulo 65, onde se lê: “Conte com as circunstâncias que também são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie de deus  avulso ao qual é preciso  dar algumas  ações de graças; pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos”.

  Não é a primeira vez que o “imprevisto” surge para mudar o rumo dos acontecimentos na história de nosso país. A morte de Vargas – suicidado pela pressão de um golpe de direita –, a queda do avião de Castelo Branco, até hoje não explicada, o estranho acidente com o carro de  JK, a    gripe  que vitimou Carlos Lacerda, o ataque cardíaco (?)  que matou João Goulart.

Por uma inexplicável coincidência, muitos deles estavam incomodando as elites e prestes a incomodar muito mais. Todos estes fatos teriam sido simplesmente obra do “imprevisto”?

  Não é possível ignorar, no atual contexto, os áudios vazados das conversas de Romero Jucá com um aliado político. Verdadeira construção de um plano para salvar os políticos mergulhados em corrupção. Nas conversas foi dito que era fundamental: Tirar Dilma; colocar Michel; entregar o Cunha;  blindar o Renan ( dito e feito)  e  parar  o Teori (???).

 Em maio de 2016, o filho do ministro Teori, Francisco,  postou mensagem, depois apagada, sobre tentativas de parar a Operação Lava Jato, e falava  sobre ameaças: “É óbvio que há movimentos dos mais variados tipos  para frear a Lava Jato. Penso que é até infantil imaginar que não há, isto é, que criminosos do pior tipo (conforme o MPF afirma) simplesmente resolveram se submeter à lei! Acredito que a lei e as instituições vão vencer. Porém, alerto: se algo acontecer com alguém da minha família, vocês já sabem onde procurar...! Fica o recado”, dizia o filho do ministro.

O fascista Movimento Brasil Livre (MBL), no ano passado, promoveu ato em Brasília para protestar contra o ministro, com direito inclusive a um caixão com o seu nome.

Recebi o texto de um advogado, Luis Carlos Nemetz, no qual, este, com muita razão, questiona o fato de “o relator do maior processo penal da história do país, em um dos maiores casos de corrupção da história  mundial, que envolve centenas de líderes políticos, empresas, sistemas financeiros e  vários países, não estar  sob forte proteção  da  ABIN, Polícia  Federal etc.” Omissão do Estado? Com tal responsabilidade, mesmo contra sua vontade, o ministro deveria estar sob permanente proteção.

Fui buscar nas teses da razão de Estado de Maquiavel alguns trechos significativos e muito apropriados para o atual momento de nossa acidentada República: “Deve-se compreender que um príncipe (...) não pode praticar todas aquelas coisas pelas quais os homens são considerados bons, uma vez que frequentemente, é obrigado, para manter-se o Estado, a agir contra a fé, contra a caridade, contra a humanidade, contra a religião. (...) nas ações de todos os homens, em especial dos príncipes, onde não existe tribunal a que recorrer, o que importa  é o sucesso  das mesmas. Procure, pois,  um príncipe, vencer e manter o Estado; os meios  serão sempre  julgados honrosos e por todos louvados”.  

Os indícios mostram que em nossa República temerária, os  fins  justificam os meios!

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