Crítica à noção de educação como adestramento I

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

São os procedimentos repetitivos que permitem as disposições humanas se tornarem hábitos. Educação como adestramento é, portanto, a habitualização das disposições. Fazer sempre as mesmas coisas, de maneira constante, permite criar o hábito e firmar o comportamento. Ao se acostumar com procedimentos rotinizados, o ser humano cria determinado modo de agir, que constrói a si mesmo, interferindo diretamente no ambiente.

Contudo, a repetição de operações pode servir para o desenvolvimento de determinadas atividades, principalmente as atividades físicas, mas não para todas as atividades, como é o caso das atividades intelectuais. Pode servir para o desenvolvimento muscular, mas não para o aprimoramento do espírito. Ou seja, o procedimento repetitivo não é suficiente para o desenvolvimento de disposições intelectuais mais complexas.

Entender a crítica de Dewey à educação como adestramento é fundamental para compreender sua própria definição de educação como crescimento. Crescer significa, para ele, obviamente, não só o desenvolvimento físico-biológico, mas, sobretudo, o desenvolvimento intelectual. O longo e sinuoso passo que vai da imaturidade da criança para a maturidade indefinida e imperfeita do adulto é impulsionado pelo crescimento intelectual. Exige, claro, o desenvolvimento físico, mas obviamente não se esgota nele.

A educação é o principal motor deste desenvolvimento. Por isso que a educação da criança precisa ser pensada em seus detalhes e não pode simplesmente ser deixada para se desenvolver de maneira totalmente espontânea. É importante que a intervenção do adulto também seja planejada e constantemente avaliada em seus detalhes. Pois, pode escorregar rapidamente do espontaneísmo para o autoritarismo. O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio da educação temperada, que não seja nem demais e nem de menos.

Ora, é justamente neste contexto que a crítica de Dewey à noção de educação como adestramento faz sentido. O adestramento significa o excesso do lado da intervenção, pois caracteriza o proceder desmoderado do educador no processo pedagógico. Por isso, educação adestradora confunde-se rapidamente com educação autoritária. Adestrar impede o pensar por si mesmo e conduz o educando à obediência passiva: adestramento conduz, pois, à subserviência!

No capítulo V da Democracia e Educação Dewey pontua várias críticas à educação como adestramento. A educação como adestramento – e esta é a primeira crítica – pressupõe a existência prévia das disposições, as quais estariam a espera de serem exercitadas. Ela pressupõe certo inatismo das capacidades humanas. Acontece que, segundo Dewey, não existem disposições prontas para serem exercitadas.

O que existe é “um grande número de tendências inatas originais, de modos instintivos de ação, baseados nas conexões originais dos neurônios no sistema nervosos central”. Tais modos instintivos de ação são mobilizados, entre outras coisas, para saciar as necessidades básicas do ser humano, em sua fase inicial. Por exemplo, o bebe, sentindo fome, procura instintivamente o seio da mãe. Ao sentir sono, chora querendo dormir.  

Dewey substitui o inatismo das disposições intelectuais pelo inatismo dos modos instintivos de ação. Isso significa, na prática, que a criança não nasce pensando, mas sim reagindo ao meio com base numa cadeia relativamente simples de reflexos instintivos. O primeiro choro é a reação instintiva mais simples da criança, oriundo da dor que o ar provoca em seus pulmões. É o choro dolorido da vida, que dá início a uma nova experiência, fora do útero materno. Que mal peses a dor, se a criança não chorasse, não poderia ativar o mecanismo da respiração própria.

Dewey ainda exemplifica, dizendo que há tendências impulsivas dos olhos para seguir e fixar uma luz determinada e do aparato vocal para proferir sons. O olho torna-se impotente diante da luz: simplesmente é movido por ela, entrega-se a ela e segue sua direção. Somente com domínio de si, alcançado progressivamente pela reação contra as imposições postas pelo ambiente, o ser humano pode controlar seu olhar diante da luz e, na maioria das vezes, tal controle não é absoluto.

Distinguir até onde pode chegar o domínio de si e onde começa a dependência humana, quer seja às coisas naturais ou às produções culturais, é uma questão pedagógica importante. Saber distinguir o que depende da ação humana e o que independe dela era, para os estoicos, na Antiguidade romana, uma questão ética de primeira monta. Sem tal distinção o sujeito educacional sucumbiria às pressões do ambiente, quer seja às intempéries naturais ou à corrupção humana e social.

De outra parte, ao acionar o aparato vocal, o ser humano produz sons, mais rústicos e menos articulados na primeira infância, mais sofisticados na medida em que a criança “cresce”. De qualquer sorte, tais tendências são de uma variedade infinita e entrelaçadas de modo imprevisível umas com as outras. Não são, e este é o aspecto fundamental, poderes intelectuais latentes que requerem somente o exercício para seu aperfeiçoamento. 

As tendências impulsivas nada mais são do que atividades orgânicas que respondem às mudanças no ambiente, visando produzir novas mudanças. Como não se pode prever com exatidão o que o ambiente exige, o modo de reação destas atividades também são imprevisíveis. Tudo depende do acontecimento que o ambiente proporciona e da reação que o organismo realiza frente a tal acontecimento. É como se fosse um jogo cujo resultado só se conhece no final da partida. Mas, o jogo precisa ser jogado para que a partida tenha seu final.

Não há, portanto, uma racionalidade prévia que seria a base inicial do desenvolvimento das disposições. O que há, no início, são esquemas simples de ação, de caráter fortemente instintivo, que se complexificam cada vez mais, dependendo da qualidade do processo educativo e da ação do educador, desde que o mesmo seja capaz de considerar as possibilidades presentes do educando.

Como se pode observar, são muitas as variantes que interferem no processo educativo, desde as reações imprevisíveis do ser humano até as exigências diversas e inusitadas do meio, abarcando a própria ação do educador. A educação é muito mais do que a existência de disposições latentes a espera para serem desenvolvidas. O grau intenso de imprevisibilidade oriundo da atuação simultânea de vários fatores torna a educação um das tarefas humanas mais difíceis.

Leia Também Falecimento de titular de firma individual causa a extinção da execução fiscal Treinamento psicológico e o efeito no grupo A ciência como ferramenta para a sabedoria Quebra-molas são permitidos, “em casos especiais”