Educação geral: um ideal de formação humana

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O capítulo V de Democracia e Educação é um dos capítulos mais importantes da obra. Nele Dewey faz a crítica, como referi nas colunas anteriores, às noções de educação como preparação, busca pela perfeição e adestramento. Cada uma destas noções possui suas especificidades e o ponto em comum entre elas é que se opõem à noção de educação como crescimento. Cada uma destas noções de educação está na contramão da educação geral, entendida como formação integral do ser humano.

Qualquer uma destas noções possui seu desdobramento educacional na atualidade. A versão mais forte da educação como preparação é a que assume a forma de preparação para o trabalho. Preparar as novas gerações para o mercado de trabalho é o que mais se exige hoje das escolas e universidades. Tal exigência limita a preparação à especialização fragmentada, tornando o educando perito em fazer alguma coisa, mas sem a noção abrangente do todo. Ou seja, preparação especializada normalmente desvincula o educando da ideia de educação como formação cultural.

A noção de educação como busca pela perfeição encontra-se diluída, na atualidade, em diferentes práticas educacionais pós-metafísicas. Depois de ter destituído a autoridade divina e de ter posto o ser humano em seu lugar, desenvolveu-se projetos educacionais baseados na onipotência humana. O sonho metafísico de igualar o homem a Deus permanece vivo em ideias aparentemente banais, como a busca incansável pela eterna juventude ou o esforço de prolongar infinitamente a vida humana.

Por fim, a educação como adestramento talvez seja a versão mais atual e corrente porque tornou-se teoria educacional predominante, alicerçando culturalmente as práticas educacionais escolares e extraescolares. A educação baseada no mecanismo estímulo e reação continua orientando intuitivamente a relação educativa entre educador e educando. Estímulo e recompensa orientam o comportamento do sujeito educacional: passa a atender o estímulo para alcançar a recompensa prometida.

Contrapondo-se a estas três noções de educação, Dewey desenvolve sua própria concepção de educação, atribuindo à educação geral a forma específica da educação como crescimento. Considerando isso, cabe perguntar: em que consiste sua ideia de educação geral e em que medida ela supera os outros três modelos de educação que ele critica? Considerando a importância de sua crítica a tais modelos, cabe resumi-los novamente, antes de investigar o sentido da educação geral.

A educação como preparação significa conceber a criança pelo que ela deve ser no futuro, ignorando o que ela é no presente. A ideia de preparação para o futuro normalmente se torna autoritária porque o adulto projeta na criança aquilo que ele quer que ela seja. De outra parte, respeitar a criança naquilo que ela é significa conhecer suas possibilidades presentes, contribuindo pedagogicamente para seu desenvolvimento. Esta é a melhor forma de prepara-la para o futuro.

A segunda concepção criticada por Dewey é aquela que busca a perfeição. Sendo uma variante da educação como preparação, a busca pela perfeição caracteriza-se por colocar um fim absoluto e imóvel à educação, desconsiderando as possibilidades presentes do educando. Por agir assim, ela gera todo tipo de insatisfação e desinteresse do educando. Como o fim é abstrato e está tão distante, o educando não vê nele nenhum sentido. Viver intensamente o presente visando o fim a ser reconstruído permanentemente com base numa ideia de passado é o grande desafio da educação geral.

Por fim, a educação como adestramento caracteriza-se por focar somente em algumas disposições do educando, deixando outras de lado. Ao orientar-se tão somente pelo mecanismo estímulo e reação, ignora a plasticidade da condição humana. Desconsidera, simplesmente, a multiplicidade das disposições humanas e o emprego diverso que elas possibilitam. Além disso, ao tomar certas disposições como fim, ignora todo o amplo e paciencioso processo de formação que precisa ser realizado para que ocorra o desenvolvimento de todas as disposições humanas.

Temos, então, três modelos de educação descritos brevemente por Dewey, que encontram sua atualidade. Cada um possui os seus limites e não servem como referência exclusiva à formação das novas gerações. Por isso, precisam ser superados pela educação geral. Quais são então as características da educação geral e por que, segundo o pedagogo americano, ela, a educação geral, é a noção mais adequada de educação?

A ideia de educação geral não é uma invenção de Democracia e Educação. Tem uma longa tradição na história da pedagogia. Todos os grandes projetos educacionais ocidentais delinearam traços da educação geral, visando criticar o momento educacional presente e projetar um mundo educacional melhor para os seres humanos. Insatisfeitos com a realidade social e educacional em que viviam, os grandes pedagogos idealizaram um mundo melhor.

A Paideia grega foi o primeiro grande projeto. Ela nasce como crítica à educação que limita o desenvolvimento humano apenas a algumas disposições. Defende, em contrapartida, o aperfeiçoamento humano integral. Trata-se de desenvolver no educando todas as suas disposições, tanto físicas como intelectuais. É o ideal de formação do educando com o corpo de um atleta e a cabeça de um sábio. O sábio atleta representa o ideal de ser humano tão aperfeiçoado quanto sua condição lhe permite. É a busca pelo fortalecimento do corpo e o desenvolvimento da inteligência de maneira integrada e progressiva, impedindo que o ser humano se torne um mero executor de tarefas.

O sábio atleta tem sua educação com base na formação virtuoso do caráter. Virtude é a força moral que põe a alma na direção do bem. Ser virtuoso significa lutar contra o mal e buscar fazer o bem, para si mesmo e para os outros. A sabedoria é a virtude das virtudes, mas só ganha este peso quando vier acompanhada de outras virtudes, como coragem, moderação e justiça. Estas são as virtudes cardinais, também acentuadas pelos pedagogos gregos.

O fim da Paideia é a preparação do ser humano para a vida ética na Polis. Tal preparação, tendo em vista a Polis, não poderia ocorrer fora dela. A Republica de Platão é um exemplo paradigmático de Paideia. Neste Diálogo, que é um dos mais importantes de todos os diálogos platônicos, Platão concede espaço grande à ginástica e às atividades artísticas. Ele tem em mente que um corpo saudável é condição para uma mente inteligente e fértil: corpo são, mente sã!

A Paideia platônica está na origem de toda a Humanitas cristã, da qual Santo Agostinho é um dos principais representantes. Subjacente à Cidades de Deus, que é a grande obra de Agostinho, há a ideia educacional de busca pela felicidade no Reino de Deus. A Queda como condição humana pecadora é superada pela vida eterna a ser alcançada no Reino da Graça. Mas, isso só ocorre com o esforço individual baseado na conversão a si, a qual exige o intenso trabalho de si sobre si mesmo.

Paideia grega e Humanitas cristã são dois grandes modelos educacionais do Ocidente, que influenciaram decisivamente o desenvolvimento pedagógico posterior. A ideia de educação geral de Dewey também lança raízes nestes dois modelos. 

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