Elis, o filme

Postado por: José Ernani Almeida

Compartilhe

Assisti em Porto Alegre o filme “Elis”, de  Hugo Prata, que  resgata  a trajetória de  Elis Regina. Já na primeira imagem a emoção  toma conta dos espectadores quando a  atriz  Andréia  Horta, simula cantar – uma vez que todas  as canções do filme são  na voz de Elís Regina – , a  música de  Belchior,  Como Nossos  Pais.

À partir daí o filme  arrebata, pela  grandeza da história.  Episódios marcantes da  carreira  de  Elis  são mostrados, como sua  consagração  no   Festival da  TV Excelsior, em 1965,  ao cantar  Arrastão de  Edú Lobo. Antes  da  consagração    foi  difícil o início de carreira  da jovem  Elis Regina Carvalho Costa vinda  de uma linhagem de mulheres acostumadas a dar as cartas  para que seus mundos não se  esfarelassem nas mãos do homens.

Ela começou a se  destacar no programa  Clube  do Gury, de  Ary Rego, na rádio Farroupilha de Porto Alegre. Depois passou  a fazer parte das  atrações do programa  de  Mauricio Sirotsky Sobrinho, na  rádio Gaúcha.

 Este recorte  da carreira de  Elis foi desdenhado  no filme, cujo diretor  preferiu mostrar com ênfase  a chegada de  Elís no Rio de Janeiro, em 1964, no mesmo momento em que o  golpe militar lançava  o Brasil  à escuridão da ditadura. Com seu  pai  à tiracolo e  36 cruzeiros  Elis tentou a sorte no Rio, procurando  Carlos Lyra, na época um dos mais conceituados compositores da bossa-nova, ao lado de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

 Elis buscava um lugar  na comédia musical chamada Pobre Menina Rica, de  Carlos Lyra, mas foi taxada por Tom Jobim de “vesguinha, feiosa, caipira  e cantora de churrascaria”.  Seu pai a aconselhou a retornar para Porto Alegre, uma vez que tinha shows agendados para  “Erechim, Lagoa  Vermelha e Passo Fundo”.

Elis bateu  pé, se despediu do pai e permaneceu no Rio de Janeiro. Conheceu Ronaldo Bôscoli  e Luiz  Carlos  Miéle e passou a fazer apresentações no Beco das  Garrafas, onde em pouco tempo, se destacou. A  película mostra também a  ida de  Elis para  São Paulo. Muita água rolaria na música brasileira na segunda metade da década de  1960. Pois, quando a  Bossa Nova perdia público  e Roberto Carlos ainda não era rei, o trono foi de  Elis, Jair Rodrigues o Zimbo Trio, com o programa  O Fino da Bossa, na Tv Record.

Algo  em  Elis  Regina  a fazia  fascinante  aos olhos dos homens que congestionavam  seu universo de  compositores, diretores de  TV, empresários, instrumentistas  e produtores de discos.  Ao  contrário   do padrão  das  namoradinhas da época, Elis era  ao mesmo  tempo decidida e misteriosa e  a mania de se jogar de  penhascos  valia também para seus relacionamentos.  No filme seus amores  e desamores  estão presentes  de forma  marcante.

Em  1968, a  garota do  bairro do IAPI de  Porto Alegre, chegou  à glória  internacional  ao se apresentar no Midem, um festival de música para o qual o mundo todo olhava  durante dez dias de exibições. Elis  cantou  na mesma  noite em que  as  Supremes, de  Diana  Ross se apresentaram.

A  película  de  Hugo Prata também destaca o período   em que  os  militares haviam  se ungido de superpoderes  nas águas turvas  do  AI-5.Toda a  atividade que dependesse do pensamento livre  para existir  de forma  plena  ficou  sob a mira da suspeita.

Elis  Regina, assim como Chico Buarque, Gil,Caetano, Vandré e  Edu Lobo  tinha sua  ficha  devidamente  preenchida no DOPS, o Departamento de Ordem Política e  Social  que vigiava os passos das possíveis mentes contaminantes.  Foi nesse  cenário que Elis  cometeu  seu maior e mais caro delito  aos olhos dos militares.

Durante  turnê pela Europa ela concedeu  uma entrevista na qual   ao responder  à pergunta  de um jornalista sobre  “ como estava  a situação política no Brasil “, em uma frase, Elis  se meu mal: “ O Brasil  de hoje é governado por um bando de gorilas”.

À partir  daí  ela  passou a  ser vigiada  e ameaça, e foi obrigada a cantar em uma  solenidade militar, o que lhe rendeu críticas  contundentes  da  esquerda.  Elis  só  se  reabilitaria  perante  os   opositores  da ditadura  ao gravar  “ O Bêbado e a Equilibrista”, verdadeiro hino da  anistia.

Tudo isto  está no filme , que mostra  as luzes  das glórias pessoais e profissionais de uma das grandes intérpretes  brasileiras  e, igualmente, os  momentos  das dores e inseguranças  de quem  afirmou em uma canção de Tunai e Sérgio Natureza que o amor  e o ódio se  irmanam na fogueira das paixões.

Nós passo-fundenses, para ver  este filme,  temos apenas três opões: ir à Porto Alegre  ou esperar que ele chegue  às locadoras locais  ou ao Netflix. Se depender  das salas de cinema, não o veremos nunca.

Leia Também William II Elo passado-presente-futuro Sujeito descansado Maneiras de usar o floral nesse verão 2018