Educação geral: flexibilidade e sociabilidade da condição humana

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Ao ideal da Paideia seguiu-se a Instructio latina, cuja versão forte é o estoicismo romano dos dois primeiros séculos de nossa era. Nas Cartas a Lucílio, que é uma das principais obras da Pedagogia ocidental, Sêneca, pensador romano, desenvolve o ideal de formação humana alicerçado no domínio de si, contra os vícios de caráter. Por meio de longas cartas dirigidas ao seu educando Lucílio, Sêneca trata filosoficamente de questões educacionais centrais, como a dificuldade de fazer escolhas certas visando a felicidade humana. A referida obra é um grande texto de filosofia da educação que ainda continua nos inspirar, nos dias de hoje.

É mediante a prática diária de exercícios espirituais variados, como meditação, caminhada, leitura e escrita, que o sujeito educacional, fazendo o trabalho intenso sobre si, transforma-se eticamente. Exercício intenso e diversificado de si sobre si mesmo visando sua própria transformação é a marca característica da educação como instrução, no sentido romano do termo.

Caminhada e pensamento andam juntas e sempre serviram de fonte de inspiração dos filósofos educadores. A caminhada conduz a tipo de desprendimento indispensável pra ver a si mesmo e os outros de uma maneira mais serena, menos interesseira e mais livre. Ao caminhar, sobretudo tudo junto à natureza, o educador aprende a pensar a condição humana a partir da ordem e harmonia cósmica.

Sêneca apregoa constantemente o credo de vida de acordo com a natureza. A noção de natureza possui por sua vez o sentido bem diferente do que normalmente se entende hoje. É muito mais do que um objeto a espera de ser manipulado instrumentalmente pelo procedimento experimental. Sêneca lhe confere um sentido pedagógico-normativo, servindo como referência para orientar a ação humana na incansável busca pela vida bem sucedida. A natureza é, deste modo, o cosmo amplo que está sempre à frente da ação humana, idealizando a inteligência, bondade e beleza a serem buscadas.

Na modernidade, a Bildung alemã é o grande ideal pedagógico. Talvez de maneira mais clara e enfática do que os dois grandes projetos pedagógicos anteriores, a Bildung defende a formação integral do ser humano. Em sua vertente romântica, representada por Schiller e Goethe, a Bildung preserva muitos traços da noção estoica de natureza, convertendo-se porém, na experiência formativa que se desenvolve ao longo da vida, sem um fim a priori, que seria alcançado de maneira segura e definitiva.

Em sua vertente filosófica, iniciada com Kant, passando por Hegel e chegando até Humboldt e Herbart, Bildung é educação como autoeducação, na qual os sujeitos tomam a si mesmos, em suas próprias experiências, como fonte do processo formativo. Desenvolver todas as disposições do sujeito educacional em todas as direções torna-se o grande ideal da Bildung, em suas mais diferentes versões, humanistas e neohumanistas.

Ao propor a educação geral Dewey insere-se nesta longa tradição pedagógica, mas atribui aspectos específicos à sua teoria educacional. Tal especificidade deve-se, em grande parte, ao fato de que ele pensa o projeto educacional considerando o contexto histórico em que vive. Tem diante de si a sociedade americana marcada pelo intenso processo de urbanização industrial, acentuando formas plurais de vida.

Neste contexto, o desafio educacional é duplo: preparar as novas gerações para o trabalho profissional especializado e para a vida plural em sociedade. Este duplo ideal já carrega em seu interior uma tensão quase insolúvel: a vida pública plural no espaço público é constantemente negada pela exigência cada vez maior do mercado de trabalho de uma formação especializada e restrita. Romper com esta dicotomia só é possível por meio da educação geral.

Daí que não é suficiente o desenvolvimento apenas de algumas disposições, baseado no mecanismo estímulo e reação. Não se trata só de profissionalizar para o mercado de trabalho, mas de formar o sujeito educacional para viver bem na pluralidade da vida democrática. A educação geral é o principal antídoto à educação como adestramento. Neste sentido, a educação precisa sim considerar a pluralidade das capacidades humanas e seu desenvolvimento de maneira ampla e integral.

As novas formas de vida, que se desenvolvem no mundo urbano industrial, necessitam de mentes cada vez mais ágeis e flexíveis, para poder solucionar os novos problemas. A formação de tais mentes é tarefa da educação, a qual só pode realiza-la considerando a plasticidade da condição humana. É o nexo entre plasticidade da condição humana e constituição plural do espaço democrático que garante a compreensão do outro em sua singularidade.

Para poder dar conta das exigências dos novos tempos, Dewey atribui dois pilares ao seu projeto de educação geral. O geral – este é o primeiro pilar – refere-se a amplitude e flexibilidade da ação humana educacional. Como afirma Dewey: “A educação geral possui êxito sempre que uma atividade é de amplo alcance [...] e se encontra constante e inesperadamente obrigada a mudar de direção em seu desenvolvimento progressivo”. Ou seja, a educação é geral porque consegue compreender a ação humana em sua amplitude, valorizando a plasticidade que a habilita a mudar permanentemente de direção.

O segundo pilar é o que na prática assegura o primeiro, na medida em que se refere às relações sociais que estão na base tanto da amplitude como da flexibilidade. Ou seja, porque vive em sociedade é que o ser humano é capaz de pensar e agir de maneira ampla e flexível. Deste modo, a educação ocorre e se aprofunda pela vida solidária em grupo. A própria ideia de interação já exige esta dimensão social da educação, assinalando a interdependência humana como condição de possibilidade do processo formativo humano.

 Por isso, segundo Dewey, requerendo-se a educação geral do espírito do educando, faz-se necessário relacionar as matérias e conteúdos técnicos como atividades humanas que possuem dimensões sociais e culturais claras. Deste modo, formação técnica e formação humana precisam estar permanentemente relacionadas no processo formativo do sujeito educacional. Não são coisas estanques que se realizam isoladamente. A formação especializada torna-se ampla na medida em que estiver ancorada na plasticidade da condição humana, conhecendo-a e exercitando-a na prática social e educacional diária.

Em síntese, a flexibilidade do sujeito educacional, aliada à dimensão social formam os dois pilares da noção de educação geral que deve estar, segundo Dewey, na base da noção de democracia como forma de vida e de organização social. Sem considerar a plasticidade e sociabilidade da condição humana, não há democracia como forma de convivência humana. É por isso que a democracia, ao se erguer tendo por base estes dois pilares, significa a recusa decidida contra qualquer forma de dogmatismo, político ou religioso. 

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