Darcy Ribeiro, o grande intérprete do Brasil

Postado por: José Ernani Almeida

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Há vinte anos, em 17 de fevereiro de 1997, morria um dos mais brilhantes intelectuais do século XX, Darcy Ribeiro. Ele, como nenhum outro, procurou elucidar as origens da formação do povo brasileiro e descreveu de forma  brilhante  as  configurações  que  nosso  povo  foi  tomando  ao  longo dos  séculos.

Para Darcy, na sua obra “O Povo Brasileiro”, “criamos aquilo que chamo de Nova Roma. Roma com boa justificação... Roma por quê? A grande presença no futuro da romanidade, dos neolatinos é a nossa presença. Isso é o Brasil, uma Roma melhor porque mestiça, lavada em sangue negro, em sangue índio, sofrida e tropical.”

Através de uma explanação histórico-antropológica, Darcy Ribeiro contribuiu de forma decisiva para tornar compreensível nossa origem. Para ele “nós brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem  jamais foi crime  ou pecado.  Nela  fomos feitos e ainda continuamos nos  fazendo.  Essa   massa de  nativos viveu  por  séculos  sem consciência  de  si... Assim  foi  até  se  definir  como uma nova  identidade  étnico-nacional de brasileiros...” 

Neste  momento  em que  a  sociedade  brasileira  vive sobressaltada com a barbárie banalizada, com a quebra das instituições, é  preciso  lembrar  que   a  nossa  história  é a história  de uma sociedade escravista, uma  sociedade  em que  temos  uma  elite  muito pequena  fazendo  as  regras e  as  impondo  para  a grande maioria. Essa elite  tende, como formadora  dessas  regras, a  se autorizar  a burlá-las. O golpe de 2016 escancarou, novamente, esta prática histórica. Assim, a violência  tem  muito a  ver  com  a  violação das  regras.

Para Darcy, “o Brasil, último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso”.  

Alertou que “o povo nação surge no Brasil da concentração de uma força de trabalho  escrava, recrutada  para servir a propósito mercantis alheios a ela, através de  processos  tão  violentos de ordenação e repressão que constituíram, de fato, um continuado  genocídio  e um  etnocídio  implacável.

Daí surge o distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas, e entre estas e as oprimidas. Como consequência, as elites dirigentes, primeiro lusitanas, depois luso-brasileiras e, afinal, brasileiras, viveram sempre e vivem ainda sob o pavor pânico do alçamento das classes oprimidas.  Daí a utilização da brutalidade repressiva, gerando uma tradição de violência... “O espantoso é que nos orgulhamos da nossa não proclamada, como falsa, ‘democracia racial’ e, assim, raramente percebemos os profundos abismos que aqui separam os estratos sociais”.

Darcy mostrou que no Brasil sempre faltou espaço para movimentos sociais capazes  de  promover a reversão das desigualdades, como, também, claros projetos alternativos  de ordenação  social, lucidamente  formulados  para promover a inclusão.

Antropólogo, educador, obsessivo em suas ideias, Darcy Ribeiro ordenou, analisou,  interpretou e criticou  nossa  sociedade  com  extraordinária  lucidez e autonomia. Em outro trecho de O Povo Brasileiro ele registrou: “Todos nós  brasileiros, somos  carne  da carne  daqueles  pretos  e índios  supliciados. Como descendentes  de  escravos  e de  senhores  de escravos  seremos  sempre  marcados pelo exercício  da brutalidade  sobre  aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas  nossa  crescente  indignação contra esta  herança maldita nos dará  forças para amanhã, conter   os  possessos  e  criar  aqui, neste  país, uma  sociedade  solidária”.

Infelizmente, continuamos numa postura  de excluir  e segregar, pagando para  ver no que  vai  dar. Em uma época em que desigualdade passou a chamar-se mérito; miséria passou a ser vista como austeridade; hipocrisia confundida com direitos humanos; golpe como instrumento democrático; a memória passou a ser substituída pelo silêncio; o futuro pelo passado e o problema pela solução – parafraseando Boaventura de Souza Santos, estamos  precisando  urgentemente  de  um  Darcy  Ribeiro  que , como  Drummond  definiu  certa  vez,  “engenharia  econômica nenhuma  ou poder autocrático  nenhum  podem  com ele”.

Precisamos de um Darcy que certa vez asseverou: “... Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas  são muitas demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças , a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade  necessária. Na verdade somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ficar ao lado dos que nos venceram nessas  batalhas”.

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