O reizinho e seus vassalos adestrados

Postado por: Dilerman Zanchet

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Em uma determinada época, de determinado século, em determinado continente, de determinado mundo, havia uma cidadezinha esculpida no alto de uma montanha, que, com o passar dos anos, passaram a chamar de cume, tipo a Fortaleza de Massada (não explico, vá pesquisar), tendo em vista a elevada altura em relação ao nível do mar.

E, nesta cidadezinha, creio que até era um povoado, diante das maledicências do local, havia uma família.

A família real.

O reizão, após décadas cobrando impostos da população, não perdoava ninguém no povoado. Foram anos e anos imperando em um império onde era único. O povo pagava os impostos, os vassalos e puxa sacos recolhiam e se calavam, e os poucos que levantavam a voz contrária eram excluídos das badaladas festas à custa dos impostos.

Era um nobre sem nobreza. Um rei sem sangue azul.

Eis que o reizão teve um filho. Bem educado, bem falante e bem estudado (afinal, o reizão tinha muitas posses). O menino foi logo se destacando no pequeno povoado.

Inteligente – herdou um pouco disso – passou a galgar postos importantes no povoado. Quer no próprio palácio, quer nas vilas do reinado. Destacou-se ao ponto de ser um nobre que não era nobre e foi relevado ao cargo de fiscal das contas e das ações públicas do reizão. E da plebe. Hoje o nome deste cargo é outro.

Não preciso dizer que o reizinho trocava de coroa assim como fazia suas refeições. Ou seja, periodicamente. Até chegar aos dias atuais (mas a história não terminou) ele trocou de coroa umas quatro ou cinco vezes. Como ser gremista hoje, colorado amanhã.

O reizinho foi tomando conta de tudo. Por méritos (sabe a moeda da coroa?), conseguiu ser o arauto, por muito tempo, dos bons feitos do paizão. Subia a montanha e gritava a todos pulmões seus próprios feitos, e, logicamente, os de quem lhe interessava. Qualquer semelhança é mera coincidência.

E o cordão dos puxa sacos e vassalos só aumentava. A coisa ia de vento em popa. O caminho do reizinho estava aberto. Era só trilhar.

Foi conduzido por seus vassalos a um cargo ainda mais importante na política da pequena localidade. Destacou-se por não ter feito nada além de suas obrigações. Conquistava incautos com sua conversa mansa e bonita. Afinal, tinha estudado nas melhores escolhas do reinado.

E os anos passaram. E o reizinho decidiu voltar. Não para cuidar dos negócios do reizão, que a esta altura já não eram poucos. Afinal, império com moedas de ouro cresce, se for arrecadado uma a uma o tempo todo.

O reizinho deu de presente de chegada ao pai, uma vista maravilhosa da janela do quarto. Antes era horrível. Valorizou a própria herança.

E o reizinho tomou posse do povoado. Ficou por anos e anos à frente do palácio. Só vai sair de lá se quiser. Pagou bem, um pouco ficou devendo, mas obteve uma aceitação da plebe como nunca. Afinal, é o reizinho.

E tinha muitos vassalos, de todos os portes: grandes, pequenos e nem tanto assim. Mas tinha. E a cada temporada conquistava mais e mais.

Pagava bem pela vassalagem.

Tinha tantos puxa sacos que, quando mergulhava, muitos morriam afogados.

Pois é.

E o reizinho era implacável.

Perseguia seus inimigos (como em qualquer reino, tem sempre alguém da oposição), mas beneficiava com muita gratidão seus amigos.

Então descobriu-se o churrasco. E a cerveja. O uísque tomou lugar do vinho. E as festas no reinado eram frequentes.

E a vassalagem, em determinadas épocas, faziam noitadas para celebrar os degraus que ele alcançava na política da comunidade.

“Eita reizinho bom”, diziam uns. “Ele manda e desmanda na cidade e é um arauto de primeira”, diziam outros.

Bem.

Em determinado dia, um grupo se insurgiu contra os gastos e desmandos.

Não é que o “home” mandou cortar a língua de todos os rebeldes?

Sim.

E foi um comentário só em todo o reinado. Todos queriam saber por que o reizinho, tão imperador, estava se preocupando com as denúncias que surgiam em torno de si.

E, principalmente, pela retaliação dele em relação aos faladores.

E a notícia se espalhou pelo continente.

Foi vergonhoso.

Fosse nos dias atuais teríamos vários exemplos para tal atitude. Calar a Globo, por exemplo, seria uma.

Claro, voltando ao pequeno reinado: O “chefe” mandou sua vassalagem falar com os que ainda tinham ficado com a língua. Não obteve êxito.

Então mandou outros pedirem audiência com Deus. Também não deu certo.

A situação de desdobrou ao ponto de que nem ele conseguiu convencer Deus a lhe dar crédito, diante de tanta soberba e arrogância.

O reizinho ficou assustado, naquela época, com o que poderia acontecer para ele.

Não preciso contar o final da história.

Acho que não terminou.

O poder não respeita bajulador, títere e bobo da corte (os fanfarrões engraçados).

Nesse reino, sem nobres sujeitos, as coincidências que lhes favorecem são peculiares.

Infelizmente quem paga a conta é a plebe, a sociedade!

O que me fez relatar esta história é que, enquanto isso se desdobrou há muito tempo, no determinado reinado de determinado continente, no Brasil a Lava Jato continua. E os reizinhos de outrora, ou já caíram, ou caem agora ou vão cair mais tarde.

O certo é que vão cair.

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