Carnaval e samba

Postado por: José Ernani Almeida

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Segundo a Enciclopédia de Música Brasileira, o verbete carnaval significa “festa popular, de caráter coletivo, geralmente considerada como reminiscência das festas pagãs Greco-romanas realizadas a 17 de dezembro  (saturnais) e 15 de fevereiro (lupercais), quando se comemoravam as colheitas, comendo e bebendo desbragadamente, e se permitia  inclusive aos escravos  usar máscaras”.

Começou no Brasil, trazido pelos portugueses, na comemoração do entrudo ( de introitus, “começo, entrada”), que festejava a entrada da primavera e abria as  solenidades litúrgicas  da  Quaresma, período de abstinência  de carne – palavra que designa o nome  carnaval. O entrudo era uma festa de rua barulhenta, suja e, por vezes, violenta. A tradição portuguesa reproduzia um costume da região do Minho, segundo o qual homens tocavam zabombas à frente  das  festas e procissões  da  Igreja.

Daí vem o mito do Zé Pereira no carnaval carioca. O nome provavelmente é uma variação de  Zé Nogueira, inspirado no português José Nogueira de Azevedo Paredes, que se destacou  tocando bombo nas ruas, no carnaval de  1850. Passaram a se chamar  “zé-pereiras” os foliões que,em bloco ou sozinhos, tocam os bombos e zabombas  na festa de rua.

Desde 1930, a cantiga “E viva o zé-pereira/pois a ninguém faz mal/ e viva a bebedeira/nos dias de carnaval” passou a ser obrigatória na abertura dos bailes de carnaval. A partir da segunda metade do século 19, o entrudo nas ruas passou a conviver com o carnaval  à moda européia – bailes de máscaras em teatros e clubes. 

Além disso, o escritor José de Alencar começou, em 1854, a patrocinar desfiles de carros  alegóricos. No entrudo, camadas mais pobres ou de classe média, ao lado dos negros, dançavam ao som de instrumentos de percussão e cantavam  curtas quadrinhas  de autores anônimos. Nos salões, os bailes eram animados por bandas que tocavam os ritmos europeus da época, como polca, xote, valsa e mazurca.

Aos poucos, os foliões foram se organizando em clubes e sociedades – que congregavam os mais ricos e promoviam bailes e luxuosos desfiles de carros alegóricos –, cordões   que saíam  às ruas  e nos quais conviviam  diferentes classes sociais e ranchos e blocos – que também  ganhavam as ruas, compostos de classes  mais populares. A primeira música feita exclusivamente para o carnaval é Ô Abre-alas, composta em 1899 por Chiquinha Gonzaga  para o Cordão Rosa de Ouro.

Sinhô, compositor da época, também pode ser considerado um pioneiro na mistura de classes sociais no carnaval. Um primeiro passo rumo à concepção atual dos desfiles de escolas de samba – marca internacional do carnaval brasileiro –, que incorpora o luxo dos  carros  alegóricos dos ricos à dança, ao ritmo e  ao canto do carnaval dos pobres.

Entre os anos 1910 e 1920, o samba foi aos poucos se definindo, junto com a marcha, como o ritmo preferencial do carnaval. Letras muitas vezes recheadas de sátiras políticas e sociais. Para o carnaval de 1930, Eduardo Souto compôs a marchinha É sopa, é sopa –, gravada por Francisco Alves – que falava dos candidatos à  Presidência, em clima de partida de futebol: “Pra vencer  o combinado Brasileiro/diz Getulinho/é sopa, é sopa/paraibano, com gaúcho e com mineiro/diz o Julinho/é sopa, é sopa”.  A letra fazia menção aos candidatos, Getúlio Vargas  da  Aliança Liberal  e  Júlio Prestes  de  São Paulo.  

Até o aparecimento do gênero musical produzido especialmente para o carnaval  com o nome de samba –  o famoso Pelo Telefone, registrado pelos frequentadores  da casa da  Tia Ciata, Donga e Mauro de  Almeida – o carnaval  carioca refletiu, de maneira mais transparente, as contradições  expressas na confusão que resultava da forma  indecisa pela qual as novas camadas  da cidade do Rio  procuravam enquadrar-se na chamada  “festa do povo”.

Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, as diferentes classes sociais do Rio divertiam-se em três diferentes carnavais – o dos pobres na Praça Onze, o dos remediados  na Avenida Central ( hoje Rio Branco) e os ricos nos corsos de automóveis e nos grandes clubes. A festa ainda não tinha descoberto o ritmo capaz de lhe conferir um denominador comum musical.

Foi exatamente quando, no correr do ano de 1916, um grupo de compositores semi-analfabetos que frequentavam  a casa da  baiana Tia Ciata elaborou um arranjo musical de temas urbanos e rurais que, ao ser lançado  para o carnaval de 1917, acabou se constituindo no grande achado musical do carnaval brasileiro.

Assim, da mistura de ritmos que animavam as festas do proletariado carioca, nasceu o samba, ganhando a classe média e, finalmente, chegou às paradas de sucesso, para transformar-se em sinônimo de  Brasil.

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