O significado das representações

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Na coluna passada reconstruí alguns traços principais da crítica de Dewey a Herbart. Confesso que não fiquei plenamente convencido da justeza integral de tal crítica. Lendo com atenção a Pedagogia Geral, percebe-se que muita coisa do que Herbart diz são ideias que o próprio Dewey defende em Democracia e Educação. Parece que Dewey força o argumento de sua crítica para tornar clara sua própria concepção de educação. Neste movimento, nem sempre faz uma hermenêutica adequada do texto de Herbart.

Por isso, gostaria de me ater com mais cuidado sobre este tema. Vou falar de outros aspectos da crítica de Dewey que não pude tratar na coluna anterior. Tais aspectos mostram que a distância entre Dewey e Herbart sobre o essencial em educação não é tão grande como o próprio Dewey faz parecer. Quando se põe em cruzamento estes dois grandes autores, percebe-se que muitas de suas ideias se assemelham, embora a distância temporal que os separa é praticamente um século.

Dewey toma o conceito de representação (Vorstellung) como núcleo da teoria educacional de Herbart, interpretando-o bem aos moldes da psicologia fisiológica dominante no início do século XX. Wilhelm Wundt é a grande figura que domina a cena intelectual (psicológica) desta época. Dewey conhece suas ideias ainda nos Estados Unidos, em seu tempo de estudante. Depois, segue estudando Wundt quando faz seu doutorado na Alemanha.

É neste contexto de forte influência de Wundt que Dewey interpreta a teoria das representações de Herbart. Destaca, portanto, seu significado psicológico, mesclando-o com a fisiologia de procedência biológica darwinista, a qual também havia influenciado profundamente o próprio Wundt. Princípios da psicologia fisiológica, obra que Wundt publica em 1874, tem a sombra permanente do pensamento de Darwin, principalmente da Expressão das emoções no ser humano e nos animais. Esta obra também influenciará outros autores do pragmatismo americano, especialmente o pensamento de Georg Herbert Mead.

De qualquer forma, para fazer valer sua posição, Dewey pressupõe que Herbart tivesse compreendido o desenvolvimento do espírito, isto é, das disposições intelectuais humanas, como reação às pressões vindas de fora. Com esta interpretação, coloca-o mais do lado do externalismo, enfraquecendo seu vínculo idealista. Reduz as representações ao mecanismo de reação às pressões postas pelo ambiente.

Representação significa, de maneira simples, o comportamento de reação ao que vem de fora. Para reagir ao Ambiente, o ser humano desenvolve a capacidade de representa-lo e o faz predominantemente de maneira simbólica. As representações sintetizam então o dinamismo intelectual do ser humano (sujeito educacional); elas formam e põem em movimento as mais diferentes faculdades (disposições), como memória, atenção, pensamento e até mesmo os sentimentos. Sem a atuação das representações nenhuma destas disposições possuiria o poder de se desenvolver por si mesma.

O que Dewey, interpretando Herbart, quer dizer mais precisamente? Pressupõe que Herbart teria defendido que o ser humano sente porque possui a capacidade de representar; pode lembrar o passado, os fatos marcantes que lhe aconteceram em tempo remoto, porque possuí a disposição de representar coisas e seus próprios pensamentos. Em suas próprias palavras, interpretando Herbart, afirma: “a memória é a evocação de uma antiga representação sobre o comando da consciência, por estar enraizada com outra representação”.

Ou seja, é a capacidade de ligar representações, encadeando as mais recentes com as mais antigas, que conduz o ser humano do presente para o passado.  Ele possui passado porque por meio da memória é capaz de ligar representações. A consciência é a fonte intelectual de ligação das representações. Ela ativa a memória e põe as representações umas em contato com as outras. Portanto, o vínculo entre consciência, memória e representação está na base do desenvolvimento das disposições, assegurando também a própria capacidade de ensinar e aprender do ser humano.

O processo de formação de representações não ocorre de maneira isolada. O sujeito não possui a capacidade de produzir por si mesmo representações. Não é pela atitude introspectiva que ele representa o ambiente e a si mesmo. O sujeito depende do ambiente e de sua própria sensibilidade. Sem a presença do ambiente e sem a atividade da sensibilidade, o intelecto não operaria, pois não encontra força em si mesmo.

A ideia de representação carrega este misto entre atividade intelectual do sujeito e a influência do ambiente. A capacidade de conhecer, de ensinar e de aprender estão vinculadas com esta tensão entre o interno e o externo, entre a espiritualidade do sujeito e a força do ambiente que influencia a própria formação do sujeito. Herbart se esforça para fugir do dualismo filosófico próprio dos séculos anteriores. Dewey, depois dele, terá ainda maior força filosófica para pensar de maneira interativa a relação entre o sujeito e o mundo.

Indo além de Herbart, neste aspecto, Dewey desenvolve mais nitidamente a teoria interativa, a qual passa a ter significado epistemológico, ético e pedagógico. Epistemológico no sentido de que o pensamento humano é resultado da relação do sujeito com o ambiente. Sentido ético e pedagógico porque é o respeito pelo ambiente e pelo outro que constitui a base de formação do sujeito educacional. Há experiência qualitativa quando há interação mediada pela figura do outro.

Deste modo, a tensão entre o interior e o exterior não é um problema só filosófico. Possui repercussões pedagógicas claras, influenciando as teorias educacionais subsequentes. Saber o que depende do próprio sujeito e o que ele recebe do ambiente é um problema educacional importante. O que depende do sujeito está diretamente ligado às suas disposições; o desenvolvimento delas não depende só dele, mas também do ambiente e do modo como este ambiente lhe é colocado pedagogicamente à disposição, pela interferência do educador. 

O sentido pedagógico da tensão entre o interior e o exterior está associado também ao clássico problema do conduzir e deixar acontecer. Neste sentido, o educador precisa ter o discernimento suficiente para saber quando precisa conduzir intervindo e quando precisa se retirar, deixando acontecer. É o velho dilema entre liberdade e autoridade, que se não for tratado adequadamente no processo educativo, pode descambar rapidamente para o espontaneísmo ou autoritarismo.

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