Educação como combinação de representações

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

Dewey interpreta Herbart como teórico das representações. A representação não possui implicação somente filosófica, senão ética e pedagógica. Neste sentido, a teoria educacional baseada no poder das representações possui então muitas implicações pedagógicas. Hoje eu gostaria de pensar melhor sobre isso. Dewey destaca mais concretamente três implicações pedagógicas:

a) “A formação do espírito é inteiramente um assunto de representação dos materiais educativos apropriados”. Escolher adequadamente os materiais e encontrar as melhores formas de manuseá-los é uma exigência pedagógica importante para que o processo educativo seja bem sucedido. O material não é simplesmente matéria e nem pode ser reduzido ao objeto. É antes de tudo produção cultural que só adquire algum valor educativo na medida em que é significado pelo sujeito educacional. 

Neste sentido, Herbart contribui para que a educação não seja somente transmissão de conteúdo, mas ocorra concretamente, com base no manuseio de materiais. Embora Dewey não se refira a isso, há nesta ideia pedagógica herbartiana a influência clara da educação pelas coisas que remonta a Rousseau e desemboca em Pestalozzi. O Emílio inaugura modernamente o experimentalismo pedagógico, mas associa-o ao projeto iluminista de pensar por conta própria. É um experimentalismo a favor do esclarecimento.

O núcleo pedagógico da educação pelas coisas que influência a compreensão do uso adequado do material como princípio pedagógico tanto para Herbart como Dewey consiste em que o educando aprende melhor, em sua fase inicial, quando manuseia o material, o qual é identificado com o objeto ou com a coisa. É pela atividade manual que se chega à atividade espiritual. O educando precisa agir para poder pensar e falar, ou seja, enquanto age desenvolve atividades intelectuais e linguísticas. Pensar é sempre sobre algo; falar é sempre sobre algo.

b) Neste contexto, o papel do educador consiste, entre outros aspecto, em selecionar adequadamente o material de ensino, uma vez que é tal material que em certo sentido determina a natureza das representações subsequentes. Fica claro, com isso, que a representação não se refere somente às ideias e aos conceitos, mas também ao exercício corporal prático.

Pensar a educação com base no manuseio de materiais tem a ver também com a longa tradição pedagógica relacionada com a antiga educação doméstica, com as técnicas (comerciais, industriais e agrícolas), vinculadas aos trabalhos manuais. Saber manusear adequadamente as mãos é um exercício pedagógico preparatório para o posterior desenvolvimento de disposições intelectuais mais complexas.

Deste modo, a educação manual é uma etapa importante da educação geral do ser humano. Sem trabalhos manuais o espírito não se desenvolve intelectualmente de maneira adequada. Do uso adequado das mãos, com matérias devidamente escolhidos, se chega ao espírito!

c) Com base na capacidade humana de representar se estabelece também etapas formais para todos os métodos de ensino. Preparação do espírito do educando, apresentação para ele do novo conteúdo, interação entre o velho e o novo conteúdo e aplicação deste conteúdo para realização de tarefas práticas constituem passos importantes deste método.

A preparação como um passo do método pedagógico pressupõe a concepção de educando como alguém que não aprende tudo de uma hora para outra. A formação do espírito exige um trabalho longo e paciencioso. Justamente aí é que faz sentido a própria ideia de pedagogia e de trabalho pedagógico: deve-se dar tempo à criança (educando), respeitar a condição na qual se encontra, não antecipando coisas que ela não pode compreender.

Contudo, também é parte integrante da preparação, tirar o aluno da zona de conforto. Isso exige que em determinado momento do processo educativo, em determinadas situações e contexto pedagógico faz-se necessário colocar o aluno em conflito consigo mesmo, pondo-o diante de obstáculos ainda desconhecidos, diante de novos problemas. Deste modo, ele sente-se motivado cognitivamente a fazer novas descobertas. Por isso, preparação não tem a ver somente com o mundo experiencial do educando, mas sim, com a exigência de lhe trazer o novo, de oportuniza-lo novas descobertas.

No contexto da pedagogia antiga, grego-romana, a preparação tinha a ver com o exercício prático, com diferentes práticas de si, visando tornar o educando apto para enfrentar as intempéries da vida. Não significava simplesmente preparar para o trabalho, para determinada atividade profissional, mas sim prepara-lo para ser um humano, enfrentando com dignidade os solavancos da vida. Desde cedo a criança era introduzida pedagogicamente em um conjunto de exercícios práticos que a habilitavam, aos poucos, a se situar no mundo, descobrindo-se a si mesma.  

A exigência ao educador é grande porque ele próprio precisa encontrar o tempo certo de sua intervenção, tendo muitas vezes que recuar, para poder avançar, depois, com mais segurança. Educação como preparação tornou-se não só um passo do método de Herbart, senão também uma questão importante da tradição pedagógica mais ampla.

A escolha do conteúdo e das diferentes formas de apresenta-lo também é decisiva ao processo educativo. Está intimamente relacionada com a ideia da educação como preparação. Quando mais o educador conhecer o tempo de aprendizagem do educando, mais condições pedagógicas ele possui para definir o conteúdo e as estratégias pedagógicas. De outra parte, o conteúdo não pode estar desvinculado do interesse tanto do educador como do educando.

Por fim, o maior teste de aprendizagem ocorre por meio da aplicação concreta do conteúdo aprendido. Não é pela memorização dos conceitos, mas sim pelos exercícios práticos que o educando sente-se inicialmente motivado para desenvolver suas disposições intelectuais. Se perceber a utilidade do que faz, provavelmente se interessará mais pelo conteúdo e pelo processo pedagógico como um todo.

O movimento vai do prático para o teórico, das sensações para a capacidade de representa-las conceitualmente. Portanto, não se começa pelo conceito, mas sim pela experiência e a própria experiência complexa do conceito é algo posterior, que exige muita labuta e paciência prévia.

O Herbart interpretado desta maneira é um misto entre pedagogo conservador e pedagogo progressivo, que ao mesmo tempo em que mostra por onde Dewey não deve ir, oferece-lhe pistas pedagógicas valiosas para sua própria teoria educacional. Nenhum grande pedagógico, por mais clássico que seja, possui toda a razão. Deste modo, o diálogo com os clássicos ensina a falibilidade inerente às próprias teorias educacionais. Se grandes teorias são falíveis, imagine-se então o que é o próprio senso comum pedagógico.

Leia Também Falecimento de titular de firma individual causa a extinção da execução fiscal Treinamento psicológico e o efeito no grupo A ciência como ferramenta para a sabedoria Quebra-molas são permitidos, “em casos especiais”