Educação como desenvolvimento biológico-cultural

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Educação é desenvolvimento humano. Por mais que as pesquisas educacionais tenham avançado enormemente, não se sabe ao certo em que termos ocorre tal desenvolvimento e, menos ainda, prever sua direção. Permanece um mistério o que a criança será quando for adulta, que rumo tomará em sua vida e, por exemplo, com quem se parecerá fisionomicamente e que formação cultural terá.

As teorias educacionais sempre se empenharam para definir estas questões da melhor forma possível. As teorias mais abertas combinaram o esforço de determinação com o espaço de liberdade, chagando à conclusão de que a educação deve garantir liberdade para que a criança se desenvolva de acordo com suas disposições.

De outra parte, as teorias educacionais mais fechadas procuram prever e determinar com maior força o desenvolvimento humano. Para isso, pressupõem conhecer em detalhes a condição humana, tanto do ponto de vista biológico como intelectual. De modo geral, tornam-se autoritárias porque impõem de fora certas definições que muitas vezes não condizem com a própria condição humana.

No início do século XX o debate acerca dos destinos da educação e sobre a direção do desenvolvimento humano e infantil era muito forte. Dewey também se ocupa com este tema no capítulo VI de Democracia e Educação, referindo uma teoria biológica da educação que compara o desenvolvimento infantil com o desenvolvimento da espécie humana e animal, no sentido mais amplo.

Como se compreende o desenvolvimento humano de acordo com esta teoria? O argumento geral da teoria biológica consiste no seguinte: o indivíduo repete em seu crescimento, desde o simples embrião até a maturidade, a evolução passada da vida animal mais ampla e, especificamente, da história humana. Os traços de formação de sua estrutura biológica e até mesmo de sua personalidade carregam a herança evolutiva passada.

Este pressuposto biológico possui um desdobramento cultural claro. Nas palavras de Dewey, a recapitulação biológica só tem sentido, no caso da condição humana, desdobrando-se em recapitulação cultural. A teoria cultural diz então que as crianças em sua fase inicial encontram-se em estado selvagem. Os instintos infantis são caóticos e cegos porque os antepassados da criança viveram alguma vez esta vida desordenada e irracional.

Ora, a comparação do infante com o animal selvagem é próprio da recapitulação cultural com base biológica. Como predomina a condição desordenada, na qual a criança age movida pelos seus desejos e caprichos, compete ao adulto (pai ou professor) orientar sua ação para que a própria criança aprenda por si mesma a dominar seus desejos. Educação tem a ver aqui, em parte, com a questão do domínio de si.

Neste contexto, como recapitulação cultural, a educação é basicamente retrospectiva. Como o ser humano se desenvolve de maneira muito semelhante à própria evolução da história humana, então a educação precisa reconstruir, no processo formativo do ser humano, a história mitológica, pastoril e industrial, até chegar aos nossos dias. Neste sentido, pensar a educação da criança pequena seria pensa-la de acordo com a estrutura mitológica, tratando da ideia de repetição e de predomínio de forças cósmicas.

Deste modo, a ideia educacional básica é que o espírito se forma adequadamente na medida em que se deixa moldar sobre a herança intelectual passada. Colocar em contato as gerações mais novas com as gerações mais velhas é uma tarefa primordial da educação. A criança aprende do contato direto com o adulto e aos poucos precisa ser inserida na história cultural da família, do grupo social mais próximo e da sociedade mais ampla.

Dewey faz, como não poderia ser diferente, muitas críticas a esta teoria educacional biológico-cultural. Sua crítica principal procura mostrar a falácia biológica subjacente a tal teoria. Se há uma lei restrita de repetição, como parece pressupor tal teoria, então, na verdade, não haveria desenvolvimento evolutivo. E, o que é mais grave do ponto de vista educacional, cada geração teria simplesmente que repetir o que as gerações mais velhas já haviam feito.

A limitação pedagógica desta teoria é visível: com sua ideia fixa de que o desenvolvimento humano é repetição da história humana passada, ela impede o novo que cada geração traz consigo ao nascer. Uma vez desencadeado o processo de desenvolvimento, não há mais como prever inteiramente como ele vai ocorrer e aonde vai chegar. Se o novo assusta porque é indomável, fascina ao mesmo tempo porque traz consigo o aroma da liberdade.

Este diálogo de Dewey com a teoria educacional biológico-cultural torna-se instrutivo sob diferentes aspectos. Primeiro, deixa ainda mais claro o quanto é importante pensar o nexo entre educação e liberdade; segundo, mostra o quanto o ser humano é impotente para prever o futuro e; por fim, o quanto é importante assegurar, no processo educativo, que o novo trazido por cada geração se manifeste com toda sua força.

Em síntese, se educação tem a ver com desenvolvimento humano, ela precisa contar com o alto grau de imprevisibilidade que tal desenvolvimento assume. Se for assegurado a liberdade ao processo educativo, o novo terá oportunidade de se manifestar. Contudo, como a liberdade exercida de maneira formativa pressupõe a existência de regras, a própria manifestação do novo precisa deparar-se irremediavelmente com regras existentes. Por isso, a educação sempre é um processo conflituoso entre o que existe e o que surge, inesperada e imprevisivelmente.

O mistério da novidade que uma criança carrega consigo e o ar de liberdade que sua espontaneidade transmite torna mais leve o fardo da educação. A novidade como liberdade é o golpe mortal à evolução biológico-cultural repetitiva. A alegria inerente ao modo infantil de ser, manifestada no sorriso inocente da criança, impulsiona a criatividade no processo educativo, contrapondo-a à monotonia tediosa e irritante da repetição.

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