Educação como meditação da vida presente

Postado por: Cláudio Dalbosco

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É importante reter o núcleo da crítica que Dewey faz a teoria educacional biológico-cultural. Por acreditar que o desenvolvimento humano individual segue as trilhas gerais da evolução histórica do seres humanos, tal teoria concebe a educação como repetição daquilo que ocorreu de maneira bem sucedida no passado. Dewey objeta que se realmente fosse assim, não haveria educação como desenvolvimento.

Contrapondo-se a esta teoria educacional, atribui a educação o papel de evitar que as gerações mais novas repitam os mesmos erros que as gerações mais velhas e, sobretudo, não assumam o fardo pesado das gerações anteriores. Compete à educação, deste modo, oferecer um mundo melhor às novas gerações, abreviando os obstáculos e dificuldades vividos pelas gerações mais velhas.

Ou seja, compete à educação como cultura utilizar os produtos da história passada para ajudar as pessoas a viverem confortavelmente no presente e projetarem melhor o futuro. A educação auxilia as novas gerações a reinventarem o que é legado do passado e a criarem novos produtos. O desenvolvimento tecnológico cada vez mais aperfeiçoado, quando colocado à disposição da formação humana, possibilita melhorar a relação das novas gerações com as invenções culturais passadas, potencializando positivamente a herança do passado.

Isso exige, antes de tudo, uma interpretação adequada da própria noção de herança. A teoria biológico-cultural pressupõe equivocadamente que a vida passada predetermina os traços principais de formação do indivíduo (sujeito educacional). Tal teoria fixa de tal maneira o desenvolvimento do sujeito educacional que pouca mudança pode ocorrer com ele. Em síntese, sendo a herança muito mais forte do que o ambiente, este, o ambiente, pouco pode fazer a favor da educação.

Para Dewey, no entanto, a herança não é nada mais do que os dotes originais de um indivíduo, que além de não estarem prontos, são profundamente modificados pelo ambiente. Como o fator educacional é parte decisiva do ambiente e como não há educando sem educador, então o papel do educador torna-se importante no sentido de ativar a capacidade do educando para fazer suas próprias experiências.

Deste modo, a noção de herança no sentido biológico cultural pressupõe disposições fixas que são transmitidas pela própria evolução da história humana. Para Dewey, ao contrário, o que há são disposições originais que podem ou não serem desenvolvidas, dependendo muito do ambiente educacional. Pesa, então, para ele, o aspecto pedagógico-cultural e não biológico da herança. O ambiente é elemento definidor: quanto mais formativo for, mais proporciona o desenvolvimento das disposições originais.

Daí a importância de se planejar bem o ambiente educacional. As próprias teorias educacionais clássicas deram muito valor à invenção dos cenários pedagógicos pelo educador, como forma de facilitar (estimular) o aprendizado do aluno. Rousseau é o exemplo paradigmático, quando simula pedagogicamente muitas situações para “pressionar” o aprendizado de seu aluno fictício. O Emílio está repleto de encenações pedagógicas com o objetivo de colocar o aluno na situação, possibilitando-o a experiência pedagógica.

O desacordo de Dewey em relação à noção de herança fixa que determina o desenvolvimento futuro é de natureza eminentemente antropológica. Ou seja, refere-se à concepção de condição humana. A herança fixa pressupõe a ideia de natureza humana fixa, com capacidades determinadas previamente. Dewey opõe a ela a noção de plasticidade, que o permite pensar a multiplicidade das disposições humanas e sua formação em diferentes direções. Ora, para ele, as disposições (capacidades) originárias são muito mais variadas e potenciais do que a noção de herança fixa permite pensar.

O importante e decisivo de tudo isso é criar um ambiente pedagógico satisfatório que possibilite o desenvolvimento múltiplo das disposições. É no âmbito da educação progressiva e não da educação conservadora que se cria este ambiente. A educação progressiva é capaz de fazê-lo porque toma a capacidade ativa do educando como ponto de partida do processo educativo. Respeitando a disposição do educando de fazer suas próprias experiências, o educador estimula-o melhor para fazer uso variado de suas disposições.

O que potencializa pedagogicamente a relação entre herança e ambiente? Ou, em outros termos, o que possibilita ao ambiente trabalhar pedagogicamente a herança cultural passada? É a capacidade intelectual humana sintetizada pelas suas próprias disposições, entre elas, a disposição simbólica. Por ser um animal simbólico que é capaz de fala e de outras manifestações simbólicas, o ser humano recria e reinventa a herança cultural recebida.

A linguagem é, neste contexto, um poderoso mecanismo de dinamização das disposições humanas. Do ponto de vista pedagógico, a linguagem na forma de diálogo desempenhou historicamente, desde a época de Sócrates, na Antiguidade grega, um papel educacional decisivo entre as gerações. Além de ativar as disposições originárias, o diálogo possibilita o encontro cooperativo e solidário entre os seres humanos.

Uma educação que se apega excessivamente à herança e ao próprio passado, não vive o presente. O passado só possui sentido quando auxilia na compreensão da atualidade. A educação precisa se ocupar, segundo Dewey, com o ato presente de viver e com a operação de crescimento. Com isso, a noção de passado ganha sentido e referência para o processo educativo do ser humano.

Em síntese, a educação baseada na noção de herança fixa torna-se na prática contrária à noção de crescimento. Mantém o educando prisioneiro do passado, impedindo-o de viver o presente. Contrário a isso, a nova educação precisa ater-se ao desenvolvimento das disposições originárias e pode fazê-lo desde que considere a capacidade ativa do educando de fazer suas próprias experiências. 

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