A dor do amor à distância

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Dizem que quem não sofreu por amor não sabe amar. Dizem também que a dor do amor distante é quase insuportável. Que o diga nosso personagem de hoje, o apaixonado por fuscas André Chun.

De pai Sul Coreano, André é um paulistano que hoje reside em Munique, na Alemanha. Engenheiro Naval de formação, já se aventurou por diversos países e pelas ilhas do Caribe, antes de fixar-se como IT Finance Business Consultant de uma multinacional. Pai de três filhos, escolheu viver na Alemanha a mais de dois anos, principalmente pela segurança e benefícios que pode usufruir em família e que nunca alcançaria aqui no Brasil, conforme relata. 

Mas, além da família, André tem outra paixão, essa muito mais complicada e doída. É aficcionado por fuscas, tendo no fusca Itamar Série Ouro seu maior interesse. Sua paixão não veio de berço, pois seu pai é fã dos carros americanos dos anos 50 e 60 e sempre comprou carro da Ford e GM nas decas de 70 e 89. Mas o besouro sempre lhe chamou muito a atenção e assim, quando ainda morava em São Paulo, decidiu que teria o seu próprio fusca Itamar. Após alguma procura, encontrou e comprou um Itamar Standart, branco, ano 1993. Como já tinha outros dois carros e não havia garagem para todos com a chegada do fusca, a solução foi mudar-se para outro apartamento, com uma vaga a mais para poder acomodar todos os carros, ficando o Fusca com a melhor vaga.

Algum tempo depois foi convi  dado pela empresa para mudar-se para a Alemanha e acabou vendendo todos os carros, inclusive o fusca. Já instalados no velho continente, os filhos num certo dia, recordavam dos passeios com o fusca aos finais de semana e só então caiu a ficha: o fusca não podia ter vendido. Até tentou recomprar o fusca, mas o novo dono disse que não venderia nunca. A tristeza só aumentava e então decidiu que se não podia ter seu fusca de volta, iria atrás de outro, mas dessa vez, um Série Ouro. Pesquisou muito e passou a monitorar os fuscas à venda até que apareceu um Série Ouro, aqui no Brasil com apenas 40 mil quilômetros rodados e aparentemente, muito bonito for fotos. Sem poder viajar para ver o carro, pediu ajuda para um amigo e preparou uma extensa lista com  os detalhes que deveria observar sobre a originalidade e qualidade. A resposta do amigo foi positiva e então fechou negócio. Quando o fusca chegou na casa do seu sogro, pediu fotos mais detalhadas e acabou descobrindo que alguns dos detalhes que o amigo havia confirmado estavam errados. Os faróis de milha não eram originais, nem as sinaleiras e o verniz da pintura tinha queimados no teto. Mas estava lá, o sonhado Fusca Itamar Série Ouro que, apesar dos defeitos, era extremamente original. Até adquiriu as peças originais para restaurar o carro, mas quando veio ao Brasil e conheceu o carro, achou que os defeitos na pintura eram muito extensos e acabou vendendo por não ter como gerenciar os reparos. Depois da venda do Serie Ouro, já possuindo mais conhecimento - muito dele adquirido com o amigo Fernando Henrique Moreira de Turvania, que coleciona Fuscas Série Ouro - André percebeu que um besouro original  como que havia vendido era raro.

Partiu em busca de um novo sonho: um fusca Itamar Série Ouro, na cor preta, pois lhe haviam dito que pouquíssimas unidades teriam sido fabricadas, apenas para a diretoria da VW.

Iniciou buscando informações sobre os fuscas Itamar, especialmente os Série Ouro, sendo que acabou formando uma base de dados surpreendente, com todos os chassis produzidos ordenados pelos 4 dígitos finais, cor e combustível e ainda catalogando mais de 250 fuscas Série Ouro com dados como placas, chassi, combustível, cor, paradeiro e em muitos casos, até o contato pessoal do proprietário. Inclusive, se conhecer algum Fusca Série Ouro, mande email para andre.chun@ymail.com. Assim, descobriu também que não existia Série Ouro de cor preta, o que o fez mudar o foco para um fusca itamar Série Ouro de cor branca, lembrando o primeiro. Com a lista de produção em mãos, verificou que os 5 últimos fuscas montados eram brancos. Desses, 3 eram conversíveis, um havia sido roubado e outro estava registrado no Detran do Paraná, em Londrina, como VW Sedan 1600, o de chassi final 6619. Estranhamente, o carro possuía as letras da placa do estado de SP. Pesquisando mais a fundo, confirmou que aquele carro havia sido da diretoria da VW. Eufórico,  buscou ajuda com outro amigo de Londrina, que ficou literalmente de olho em todos os fuscas brancos que via, anotando a placa e passando para o André pesquisar sobre o proprietário. Descobriu o tal fusca e fez contato com o dono. Surpreendeu-se quando o dono lhe contou que o fusca era branco mas não era um Série Ouro e sim um Itamar comum. Era o último fusca standart produzido no Brasil. Ficou amigo do proprietário, fez inúmeras propostas para ficar com o fusca até que concordaram quanto ao preço e, finalmente, conseguiu o fusca Itamar Branco que tanto procurou.

Mas, e a tal dor do amor à distância? Esta dor está no simples e singelo fato de que até hoje o André só conhece o seu fusca por fotos. Nunca o viu “pessoalmente”. Nunca andou com ele. Não escutou o barulho do motor nem sabe se ele tem aquele cheiro característico de gasolina, graxa, fumaça e emoção.

O fusca guardado, em São Paulo, esperando pelo seu dono e o André, em Munique, contando os dias para finalmente colocar as mãos no seu fusca.

Gostou da história? Tem uma história com um fusca e quer compartilhar com a gente? Mande um email para juliodemedeiro@gmail.com.

Um grande abraço e até a semana que vem com mais Histórias de Fuscas.

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