Os 53 anos do golpe militar

Postado por: José Ernani Almeida

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“Infelizmente uma coisa que a experiência histórica também ensinou aos historiadores é que ninguém jamais parece  aprender com ela. No entanto, temos que continuar tentando”.  ERIC HOBSBAWN.

Neste 31 de março foram lembrados os  53 anos do golpe militar de  1964. É espantoso como qualquer  evento, artigo, palestra, exposição que venham tirar  da letargia  a memória coletiva  sobre aquele período, até  hoje, causa alvoroço entre as “viúvas” da ditadura militar. Jango continua sendo acusado de comunista e, sua derrubada, como a solução para a “democratização” do país.

Realmente, como iria continuar  um presidente que pretendia  dar voto aos analfabetos, dar terra  aos camponeses, dar ouvido aos  subalternos  da Marinha que  desejavam ter o direito de casar-se, impedir a remessa escorchante para o exterior dos lucros exorbitantes das empresas estrangeiras, pagar, como em qualquer país, a desapropriação  de terras com títulos da dívida pública, tabelar os preços  de aluguéis de imóveis  urbanos sem utilização, dar vagas  nas universidades aos jovens  e outros “absurdos”.

Sem dúvida, era coisa de comunista! O país que João Goulart recebeu para governar, revela Juremir Machado, no livro “1964: Golpe Midiático-civil-militar”, “era um país atolado na desigualdade social. Somente 3 milhões 350 mil possuíam terra. Apenas  2,2%, míseros 73.737 proprietários, dominavam 58% da superfície territorial. O quadro era desolador: Numa população de cerca de  78 milhões de habitantes, 40%  de analfabetos entre  15  e  69 anos, esquálidos  6 milhões ( 8,5%) matriculados na rede  de ensino primário, míseros 900mil ( 1,2%) no ensino médio e vergonhosos  93 mil ( 0,13%) no ensino superior, apenas dois mil alunos de pós-graduação”.

As “viúvas” lembram também do apoio da população aos golpistas,  através  de  eventos como a  “ Marcha da Família com Deus  pela Liberdade”, ocorrida em São Paulo. É bom refrescar a memória, lembrando que na época ações secretas estavam em curso  para organizar passeatas a fim de criar um sentimento anticomunista no Congresso, nas Forças Armadas, na imprensa e nos  grupos católicos.

 Na  época havia  o  IBAD e  o IPES – espécies de  MBL e Vem Pra Rua de hoje –, incitando o golpe e convocando a classe média, sempre fácil de manipular.  Estas ações faziam parte de um plano traçado nos EUA, visando desestabilizar o governo de Jango. Assim nasceram as falsamente espontâneas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade”, que deram sustentação  ao golpe, legitimação ao arbítrio  e munição  para a imprensa  garantir que o golpe vinha do povo.

O governo americano começou  a pensar  em apoiar um golpe no Brasil, a partir do momento em que Leonel Brizola, encampou duas  companhias  norte-americanas que atuavam aqui no Rio Grande do Sul; a “Bond and Share” e a companhia telefônica, filial da  “Internacional Telephone and Telegraph Corporation” (ITT), em função das altas tarifas  e péssimo serviço prestado aos gaúchos. Como pagamento enviou cheques no valor de  Um Cruzeiro. Coisa de Comunista!

Esta ameaça aos interesses econômicos dos Estados Unidos precisava ser abortada. A ordem, a partir daí, era colaborar francamente com os conspiradores brasileiros. Gravações hoje de domínio público, mostram todo o empenho  golpista  do embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon; “Temos uma organização chamada IPES, que é progressista e precisa  de alguma ajuda financeira.

“Acho que temos de ajudá-los”. Kennedy pergunta: ”Quanto vamos colocar nisso?”. Ouve a resposta: “Isso é coisa de poucos milhões de dólares”. Inquieta-se: “Isso é muito dinheiro. Afinal, você sabe, para uma campanha presidencial aqui você gasta em torno de  12”.Recebe  o alerta de Gordon: “Mas  não podemos correr  certos riscos”.

A direita tinha o dinheiro americano. Os documentos estão à disposição de todos para uma análise. Não precisa ser nenhum gênio para concluir que o golpe estava em gestação desde 1961, quando Jango substituiu o maluco Jânio Quadros, que renunciou alegando “forças ocultas”. O golpe, na verdade, era apenas uma questão de tempo. Ao ser retirado do poder, Jango possuía mais apoio do que rejeição em sete capitais brasileiras.

Contava com a aprovação de 76% dos entrevistados pelo IBOPE. Era um governo nacionalista e popular. Isto, sem dúvida, assustava. O golpe, segundos os saudosistas, veio para colocar a casa em ordem: a ordem dos cemitérios clandestinos, das torturas, dos exílios, das cassações, das prisões ilegais e da censura.

Questiona-se a guerrilha. Ora, a guerrilha foi uma reação ao arbítrio.  J. Locke ensinou que “todo o povo tem o legítimo direito de resistência à opressão, à tirania”. Robespierre enfatizou: “ quem não incentiva  o povo a  se revoltar onde reina a tirania é um covarde”. A guerrilha lutou contra  um regime terrorista, autoritário e violento. E pagou  um alto preço.

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