Educação como reconstrução da experiência

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Vários conceitos são nucleares à noção de educação defendida por Dewey em Democracia e Educação, tais como crescimento, preparação e interação. Mas nem todos eles ocupam a centralidade concedida à reconstrução. Trata-se da noção de educação como reconstrução da experiência. O que significa mais precisamente esta noção?

A definição técnica oferecida por Dewey é a seguinte: “É a reconstrução ou reorganização da experiência que dá sentido à própria experiência e que aumenta a própria capacidade para dirigir o curso da experiência subsequente”. A reconstrução tem a ver diretamente com a capacidade humana de pensar. Reconstruir a experiência refere-se à disposição do ser humano de refletir sobre sua própria ação. Portanto, não há reconstrução sem a disposição reflexiva sobre a ação.

Isso parece uma trivialidade, pois quem negaria que a reflexão marca a condição humana. Sim, mas esta associação entre disposição reflexiva e reconstrução é feita de maneira singular por Dewey, ganhando especificidade própria em sua teoria educacional. A noção de reconstrução opõe-se ao mero fazer, ou ao menos amplia a noção de fazer. 

O primeiro aspecto desta singularidade refere-se ao sentido pragmatista da teoria da ação que ele assume. Não é nem o pensamento e nem a linguagem, mas sim a ação que caracteriza primeiramente a condição humana. O ser humano torna-se um ser linguístico e um ser pensante porque é antes de tudo um ser agente. É pela ação que ele fala e pensa, interage com os outros, modificando o ambiente e a si mesmo. A ação conecta linguagem e pensamento, fazendo deles um modo de intervir sobre mundo.

O segundo aspecto é eminentemente pedagógico. A capacidade agente do ser humano dá origem a sua capacidade de aprendizagem. Ou seja, o educando aprende antes de tudo porque possui a capacidade de agir. Ora, é esta condição antropológica agente do ser humano que conduz as teorias contemporâneas da educação, como a teoria pragmatista de Dewey, a centrar suas ideias pedagógicas no papel ativo do educando. Daí resulta o princípio pedagógico fundamental de que os educandos aprendem melhor quando for respeitada sua capacidade de fazerem as próprias experiências.

Ao inserir a noção de reconstrução da experiência no contexto da teoria pragmatista da ação, Dewey pensa tal reconstrução a partir da cadeia de ações, segundo a qual, uma sucede a outra. Quanto mais qualificada for a seguinte, mais condições ela possui de reter o que é valioso da experiência anterior e descartar o que é negativo. O importante é que o reter e o descartar, como dois procedimentos básicos da reconstrução, são resultado do processo permanente de aprendizagem.

Ou seja, tem a ver com as conexões e continuidades das atividades que o educando estabelece. Normalmente, começa com atividades simples e desordenadas entre si. Na medida em que vai repetindo atividades e criando outras, complexifica seu modo de ação, encontrando novas soluções para velhos problemas. Ora, é o processo formativo auxiliado pelo educador que faz o educando perceber conexões que se encontravam antes imperceptíveis. Quanto mais avança em sua experiência, dirigido pelo orientador, o educando, complexificando reflexivamente sua ação, encontra formas mais sofisticadas de solucionar seus problemas.

Para ilustrar este aspecto abstrato de sua noção de educação como reconstrução da experiência, Dewey dá o exemplo da criança que toca uma luz brilhante e se queima. “Assim conhece que certo ato de tocar em conexão com certo ato de visão significa calor e dor”. Neste pequeno exemplo destacam-se dois aspectos de importância pedagógica: a) a realização de novas ações torna possível a percepção de novas conexões entre os acontecimentos; b) a capacidade de aprender com a experiência é critério decisivo para a qualificação da própria experiência.

O resultado da influência destes dois aspectos no processo formativo do educando é que possibilitam a ele a coordenação e direção progressivas de sua própria ação. Deste modo, a reconstrução da experiência assegura que o educando não seja simplesmente arrastado pelo caudal de seu fazer cotidiano, mas seja capaz de coordenar suas ações. Não só deixa surgir as consequências de sua ação, mas também adquire o poder de dirigi-las. Portanto, reconstrução da experiência tem a ver com o preparo do educando para que possa ser capaz de coordenar minimamente as consequências que surgem de sua ação.

A experiência educativa que resulta da reconstrução da experiência também possibilita ao educando uma capacidade mínima de antecipação em relação ao que vai ocorrer. Isso significa dizer que ao planejar uma ação, quando se orienta pela noção de reconstrução, o educando possui mais condições de prever possíveis consequências da referida ação. Prever para se antecipar passa a ser então um aspecto importante da experiência qualitativa.

Como afirma Dewey: “Uma experiência autenticamente educativa, portanto, uma experiência em que se transmite instrução e se aumenta a capacidade, se diferencia, de uma parte, da atividade rotineira e, de outra, da atividade caprichosa”. Evitar que o educando se entregue caprichosamente à rotina e seja totalmente absorvido por ela, é papel formativo da educação como reconstrução da experiência.

Dewey insiste nesta noção de educação porque compreende que se o educando for capaz de se assenhorear progressivamente de ações mais simples tornar-se capaz de dirigir as ações mais complexas e mais amplas. Ou seja, o autogoverno e o ingresso soberano no espaço público dependem da capacidade aparentemente simples de coordenar e dirigir as ações cotidianas. A criança disciplinada, que aprende a construir as regras de organização de sua rotina diária, terá mais condições de dirigir sua posterior inserção no espaço público ampliado.

Em síntese, a noção de educação como reconstrução da experiência pressupõe a capacidade humana de se autogovernar. Obviamente, só é capaz de dirigir sua própria ação quem for capaz de dominar a si mesmo. Na base deste autodomínio está a capacidade humana de pensar sobre o que o ser humano realizou. Quando desenvolve a capacidade de pensar sobre o que faz, passa do simples âmbito do fazer para a ação. 

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