O roubo da tranquilidade

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Era uma cidadezinha do interior do estado, em que todos deixavam as portas e janelas das casas abertas tanto durante o dia quanto durante a noite.Tranquilidade total.

Pequena e pacata como era, a cidadezinha contava com diminuta força policial que, quando muito, deparava-se com alguma briga no futebol ou algum bêbado na rua. No mais, era paz e tranquilidade.

Pode parecer bobagem, mas um dos problemas da cidadezinha era exatamente essa tranquilidade. Esmagadora tranquilidade, terrível tranquilidade, diziam os jovens.

Tanto que viviam procurando alguma diversão que pudesse quebrar a rotina. Foi assim que viram no fusca do Carlito uma grande oportunidade de emoções.

O Carlito era um amigo um pouco mais velho que o resto da turma, tanto que já tinha carro. Era um bom amigo, mas um tanto quanto esquentado. Não levava desaforo para casa. E isso foi o tempero da lambança. Passavam rumo ao futebol quando viram na frente do salão paroquial, estacionado com os vidros abertos, o fusca do Carlito. Era uma chance boa demais para deixar passar.

Certificados de que o Carlito estava bem envolvido em um jogo de cartas, deram jeito de empurrar o fusca pela rua, deixando-o estacionado atrás da praça, escondido pelas árvores. E foram-se ao jogo, repletos de adrenalina pela peça pregada. Qual não seria a cara do Carlito ao sair e deparar-se com a ausência do fusca! O desespero! A gritaria! As promessas de morte e de briga! Que emoção!

Ao sair do carteado e dar falta do fusca, o Carlito ficou transtornado. “ROUBARAM MEU FUCA! ROUBARAM MEU FUCA!” gritava de todo pulmão enquanto corria desesperado pela rua com as mãos na cabeça em direção ao prédio da polícia. Entrou de sopetão e aos gritos, dando o maior susto no soldado do plantão. Aos trancos e barrancos contou do sumiço do fusca, seu único e inestimável bem material.

De pronto embarcaram na viatura policial, outro fusca por acaso, para dar buscas na região. Que problemão, pensava o soldado, logo no meu plantão aparece um ladrão de carro por aqui!  Mas antes passaram na central telefônica para comunicar para as patrulhas das cidades vizinhas e pedir reforço. Toda a região foi mobilizada para um cerco nas estradas a fim de capturar a quadrilha de meliantes ladrões de carros. Até que, um pouco mais tarde, alguém passou pela praça e avistou o fusca do Carlito, bem tranquilo.

Levou algum tempo para ajeitar a confusão, avisar as outras patrulhas que o carro havia sido encontrado e dispersar o cerco policial. Muito mais tempo levaria para a cidadezinha recuperar a tranquilidade.

Mas agora restavam explicações a serem dadas. O Carlito jurava de pés juntos que havia estacionado no salão. O comandante desconfiava que o Carlito havia se enganado e causado um grande tumultuo e por isso devia passar uma temporada no xadrez.

 Até que alguém falou para outrém que fulano havia ouvido beltrano dizer ter visto uma gurizada empurrando um fusca antes do sumiço e isso tudo chegou aos ouvidos do comandante, que expediu gentil convite para que os envolvidos comparecessem à sua presença no dia seguinte.

No outro dia, todos perfilados perante o comandante, inclusive o Carlito, puderam assistir a uma inflamada palestra de três horas sobre o alcance do Código Penal e as nefasfas consequências da sua aplicação, sobre a vida em sociedade e sobre a necessidade da manutenção da ordem e, principalmente, da tranquilidade.

No fim, não foi tão emocionante quanto imaginaram. Agora, a tranquilidade lhes parecia bem mais interessante.

 

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