Educação como superação da imaturidade humana

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Democracia e Educação possui a ideia de fundo de que não há vida democrática possível sem o investimento sério e permanente na educação. De outra parte, a educação sem a participação e o envolvimento de todos, torna-se excessivamente diretiva, correndo o risco de ser autoritária. Por isso, como já vimos em colunas anteriores, o elo efetivo entre democracia e educação é constituído pela disposição participante do ser humano e sua interdependência. São estas duas variantes da condição humana que impelem o ser humano para a sociabilidade, pois sem vida social ativa não há educação democrática.

A disposição participante e a interdependência dinamizam, do ponto de vista da condição humana, a criação e o desenvolvimento institucional, formando o todo social no qual a cultura e as mais diferentes formas de vida se manifestam. Se não há vida humana possível fora do espaço institucional, é dever da sociedade democrática assegurar a pluralidade das instituições e dos grupos sociais. Instituições e grupos cimentam e materializam os desejos e aspirações humanas. Quanto mais plurais forem, tendencialmente melhor conseguem atender a diversidade de interesses que constituem a condição humana. Por isso, regimes totalitários depõem contra a liberdade da condição humana e sua pluralidade de interesses.

Na linha de raciocínio de Dewey, o investimento na educação depende, sim, de políticas públicas e do olhar voltado para a educação, de governantes e, principalmente, do Estado. Contudo, a educação tem a ver com a sociedade, com o envolvimento das instituições, não só da escola, mas também de outras, como a família. Decisivo é o engajamento individual, no qual cada um dá sua contribuição. Por isso, educação democrática tem a ver com a forma de vida, disposta a participar visando o bem comum. Isto tudo é um ideal que, embora seja difícil de ser alcançado, indica que sem educação não há como os seres humanos conquistarem as condições mínimas para viverem de maneira solidária e interdependente entre si.

A disposição participante e a interdependência são variantes da condição humana que indicam a potencialidade do ser humano voltada para a socialização com propensão à cooperação e à solidariedade. Contudo, são variantes ou propensões humanas que não se desenvolvem isoladamente e por si só. Precisam ser acionadas socialmente e a educação é a força propulsora capaz de enlaçar um ser humano ao outro e pô-los a caminho da cooperação solidária. É decisivo, neste contexto, a criação de experiências formativas que possibilitem o exercício do espírito solidário e cooperativo. 

Como a socialização é decisiva à educação democrática, Dewey não se furta em trata-la com apreço. Volta-se a ela ao longo da obra, especialmente no capítulo VII de Democracia e Educação, intitulado de “A concepção democrática na educação”. O que é o social e como ocorre a associação humana é um problema que ele persegue em suas reflexões. Não é um problema original dele, pois a pedagogia ocidental sempre fez disso um tema de suas teorias educacionais. Na esteira de seu pensamento, a educação possui função social, nasce no seio da sociedade e alinha-se diretamente aos grupos sociais.

Neste contexto, a educação possui uma função social que garante a direção e o desenvolvimento dos seres imaturos, principalmente as crianças, mediante a sua participação no grupo social ao qual eles, os seres imaturos, pertencem. A condição imatura da criança não deve ser vista como algo só negativo. Ao contrário, ela representa a possibilidade de crescimento, pois se o educando já estivesse pronto, não necessitaria de educação. Depende, portanto, de direção e crescimento e a questão é justamente quem e o que define tal direção.

Dewey vincula o acento da direção ao papel formativo do educador. A ele cabe uma parcela significativa na formação da imaturidade da criança. Não deve fazê-lo, obviamente, aos moldes da pedagogia tradicional, da “velha educação”. O educador não é mais o condutor férreo do processo educativo, que dita ao educando o que ele deve fazer, impondo sua vontade. Democracia e Educação contém uma bateria de argumentos contra a “velha educação”, ao mesmo tempo em que pretende fundar uma “nova educação”.

O princípio pedagógico de valorização da experiência do educando integra o conteúdo da nova educação. Sem considerar sua experiência, a educação torna-se autoritária. No entanto, tomar a experiência como ponto de partida não significa menosprezar o papel do educador. Cabe a ele dirigir a experiência inicial do educando, auxiliando-o a elaborá-la intelectualmente, de maneira progressiva e permanente. Mas, o próprio educador não é um ser perfeito, que tivesse para si todos os problemas resolvidos. Sua condição humana é vulnerável e, por isso, também é constituída por imaturidades.

A educação precisa contar com a imaturidade inerente à condição humana tanto do educador como do educando. Neste contexto, valorizar a experiência inicial do ser imaturo não significa dispensar o papel ativo e diretivo do educador. Sem o auxílio indispensável do educador, o educando não abandona seu nível inicial de imaturidade. Mas, por outro lado, sem a interação com o educando, o educador perde a oportunidade de trabalhar suas próprias imaturidades. Sendo assim, a educação nada mais é do que o processo interativo entre educador e educando visando superar o grau de imaturidade que é inerente à condição humana de ambos, educador e educando.

A defesa que Dewey faz da “nova educação” não se opõe drasticamente contra a tradição pedagógica. Como grande intelectual, sabe dialogar criticamente com a tradição que o antecedeu. Por isso, sua “nova educação” preserva o papel de direção intelectual atribuído ao professor entre outros, por Herbart, representante expressivo da tradição pedagógica na qual Dewey se deixa inspirar. Sem a direção intelectual exercida pedagogicamente pelo educador, o educando não cresceria, pois não conseguiria sozinho abandonar seu estado de imaturidade inicial.

Mas, se a direção intelectual do educador é importante para que o educando supere seu estado de imaturidade inicial, conta muito, para tal superação, a iniciativa do próprio educando. Por isso, o educador precisa conduzir de tal modo o processo formativo do educando que possa respeitar sua condição ativa de poder fazer suas próprias experiências. De qualquer sorte, educação é um processo interativo que proporciona o enfrentamento da imaturidade inerente à condição humana tanto do educador como do educando.

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