Um ano de horrores

Compartilhe

Foi em 17 de  abril de  2016 que a  Câmara dos Deputados aprovou  a admissibilidade  do “impeachment” da Presidenta  legitimamente  eleita, Dilma Roussef. Foi o início do golpe sem tanques, tramado nos carpetes do Parlamento, apoiado pela maior parte da mídia e chancelado pelo Judiciário.

Aquela sessão da Câmara, verdadeira Ópera Bufa, causou espanto  no mundo civilizado. Nunca antes na história deste país a insanidade, a hipocrisia e a desmoralização de mandatos eletivos foram tão sobejamente escancarados à toda a sociedade  brasileira e ao mundo. O ritual do voto foi algo hilariante.

Por falta de justificativa para o sim, deputados apelaram  para o sentimentalismo, homenageando a esposa, a sogra, os filhos, os netos, vizinhos, o cachorrinho de estimação.  O insano Bolsonaro votou em homenagem a um dos maiores fascínoras da  nossa história, o cel. Ustra, assassino e torturador do regime militar.

Posteriormente, o Senado confirmou a farsa. De lá para cá passamos a viver  um contexto de permanente crise das instituições republicanas. Legislativo e Judiciário que estiveram unidos na montagem do projeto golpista, passaram a andar às turras.

Órgãos de controle como TCU, MP e Polícia Federal, aliados a “juízes justiceiros”, incensados pela mídia conservadora como os novos “heróis do povo” (na verdade classe média conservadora), como os novos representantes da “vontade geral” ( ou seja, os interesses econômicos do 1% mais rico), supostamente “acima da política”, passaram a incorporar o  “poder moderador” da pseudo-democracia tutelada brasileira, como definiu o filósofo Jessé  Souza.

O juiz sóbrio e objetivo passou a ser substituído pela figura narcísica do “justiceiro” que aceita incorporar  e teatralizar  a “vontade geral” pré-fabricada. O açodamento judiciário levou um blogueiro à presença de autoridades de forma coercitiva, sem ter sido sequer intimado, no melhor estilo do Estado de Exceção. Manifestações de estudantes foram cerceadas.

 

Na Tv e em muitos jornais do país, inclusive aqui em Passo Fundo, colunistas foram afastados, simplesmente por terem ousado criticar o processo golpista.  Empresas que não prezam os pressupostos básicos do jornalismo que são os de fiscalizar o poder, buscar a verdade dos fatos e fomentar o espírito crítico, pensando pragmaticamente no faturamento, afastaram colunistas que estavam “incomodando” os anunciantes e assinantes reacionários. 

A dilapidação da Seguridade Social passou a ameaçar os trabalhadores. A lógica da precarização do trabalho e da otimização do lucro, fez com que fosse aprovada a terceirização irrestrita no mercado de trabalho brasileiro. A sanha de punir o trabalho e o trabalhador marcou este ano de horrores. O Estado do Bem-Estar Social desenhado pela Carta de 1988 foi naufragando com aplausos. Alvo das pedradas retóricas de quem vê o custo da mão de obra como o obstáculo ao crescimento econômico, o trabalhador transformou-se na Geni, da famosa canção de Chico Buarque.

Na educação o “governo de  salvação nacional” aprovou a reforma do ensino médio, que elimina a formação humana cidadã  e prioriza o  mercado  de trabalho  e um sistema que só  enxerga o estudante  como futura mão de obra.

Na economia as riquezas nacionais foram colocadas em processo de liquidação: pré-sal; terras; jazidas auríferas, tudo em nome do mercado. Para completar, mais de 80% dos ministros do governo que veio “para moralizar o país”, são réus em processo ou investigados. A Lista de Fachin arrola 9. Outros 8  já foram defenestrados. O próprio ocupante do Palácio do Planalto aparece entre os denunciados. Uau!

Passado um  ano  do início do circo de horrores, fica a nítida impressão de leniência em relação a Temer e sua turma. Os indignados de 2016 não são mais os mesmos.  As panelas estão escondidas e as camisetas amarelas guardadas num canto qualquer do ropeiro. A sanha moralizadora era apenas em relação a alguns? Cada vez mais concordo com Millôr Fernandes: “Todos nós desta Pindorama, temos como futuro um imenso  passado pela  frente”.

Leia Também STJ mantém decisão que afasta IR em uso de software por empresa Esperando demônios Batismo Infinitos acessórios para o Fusca