Um ano de horrores

Postado por: José Ernani Almeida

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Foi em 17 de  abril de  2016 que a  Câmara dos Deputados aprovou  a admissibilidade  do “impeachment” da Presidenta  legitimamente  eleita, Dilma Roussef. Foi o início do golpe sem tanques, tramado nos carpetes do Parlamento, apoiado pela maior parte da mídia e chancelado pelo Judiciário.

Aquela sessão da Câmara, verdadeira Ópera Bufa, causou espanto  no mundo civilizado. Nunca antes na história deste país a insanidade, a hipocrisia e a desmoralização de mandatos eletivos foram tão sobejamente escancarados à toda a sociedade  brasileira e ao mundo. O ritual do voto foi algo hilariante.

Por falta de justificativa para o sim, deputados apelaram  para o sentimentalismo, homenageando a esposa, a sogra, os filhos, os netos, vizinhos, o cachorrinho de estimação.  O insano Bolsonaro votou em homenagem a um dos maiores fascínoras da  nossa história, o cel. Ustra, assassino e torturador do regime militar.

Posteriormente, o Senado confirmou a farsa. De lá para cá passamos a viver  um contexto de permanente crise das instituições republicanas. Legislativo e Judiciário que estiveram unidos na montagem do projeto golpista, passaram a andar às turras.

Órgãos de controle como TCU, MP e Polícia Federal, aliados a “juízes justiceiros”, incensados pela mídia conservadora como os novos “heróis do povo” (na verdade classe média conservadora), como os novos representantes da “vontade geral” ( ou seja, os interesses econômicos do 1% mais rico), supostamente “acima da política”, passaram a incorporar o  “poder moderador” da pseudo-democracia tutelada brasileira, como definiu o filósofo Jessé  Souza.

O juiz sóbrio e objetivo passou a ser substituído pela figura narcísica do “justiceiro” que aceita incorporar  e teatralizar  a “vontade geral” pré-fabricada. O açodamento judiciário levou um blogueiro à presença de autoridades de forma coercitiva, sem ter sido sequer intimado, no melhor estilo do Estado de Exceção. Manifestações de estudantes foram cerceadas.

 

Na Tv e em muitos jornais do país, inclusive aqui em Passo Fundo, colunistas foram afastados, simplesmente por terem ousado criticar o processo golpista.  Empresas que não prezam os pressupostos básicos do jornalismo que são os de fiscalizar o poder, buscar a verdade dos fatos e fomentar o espírito crítico, pensando pragmaticamente no faturamento, afastaram colunistas que estavam “incomodando” os anunciantes e assinantes reacionários. 

A dilapidação da Seguridade Social passou a ameaçar os trabalhadores. A lógica da precarização do trabalho e da otimização do lucro, fez com que fosse aprovada a terceirização irrestrita no mercado de trabalho brasileiro. A sanha de punir o trabalho e o trabalhador marcou este ano de horrores. O Estado do Bem-Estar Social desenhado pela Carta de 1988 foi naufragando com aplausos. Alvo das pedradas retóricas de quem vê o custo da mão de obra como o obstáculo ao crescimento econômico, o trabalhador transformou-se na Geni, da famosa canção de Chico Buarque.

Na educação o “governo de  salvação nacional” aprovou a reforma do ensino médio, que elimina a formação humana cidadã  e prioriza o  mercado  de trabalho  e um sistema que só  enxerga o estudante  como futura mão de obra.

Na economia as riquezas nacionais foram colocadas em processo de liquidação: pré-sal; terras; jazidas auríferas, tudo em nome do mercado. Para completar, mais de 80% dos ministros do governo que veio “para moralizar o país”, são réus em processo ou investigados. A Lista de Fachin arrola 9. Outros 8  já foram defenestrados. O próprio ocupante do Palácio do Planalto aparece entre os denunciados. Uau!

Passado um  ano  do início do circo de horrores, fica a nítida impressão de leniência em relação a Temer e sua turma. Os indignados de 2016 não são mais os mesmos.  As panelas estão escondidas e as camisetas amarelas guardadas num canto qualquer do ropeiro. A sanha moralizadora era apenas em relação a alguns? Cada vez mais concordo com Millôr Fernandes: “Todos nós desta Pindorama, temos como futuro um imenso  passado pela  frente”.

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