Educação e o papel formativo do grupo social

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O grupo social desempenha papel importante na socialização dos seres imaturos. É pela direção intelectual do educador que a criança abandona progressivamente seu estado inicial de imaturidade. Na verdade, o ser humano, dado sua condição vulnerável, nunca deixa de ser imaturo, mas sua imaturidade paradoxalmente ganha maturidade na medida em que o educando avança no tempo e aperfeiçoa a elaboração intelectual de sua própria experiência. Como a direção intelectual exercida pelo educador e a passagem de estados de imaturidade para estados de maturidade são processos eminentemente sociais, é preciso se ater na ideia de sociedade de John Dewey.

A sociedade é algo complexo, difícil de ser compreendida, uma vez que não significa simplesmente a soma de vários grupos. O mesmo ser humano participa de vários grupos, com estrutura, finalidade e forma diferentes. Em um grupo social maior há grupos menores, com especificidades próprias e diversidade de interesses. Manter certa unidade na diversidade é o desafio do processo formativo. Respeitar as singularidades e construir a noção de comunidade é uma meta da educação democrática.

 A sociedade é, segundo Dewey, um conceito profundamente plural e ao mesmo tempo ambíguo. Não existe em seu seio somente uma forma de vida e nem somente valores construtivos. A ação humana e os próprios grupos sociais, do mesmo modo em que se deixam orientar pelos laços de solidariedade e respeito recíproco, também movem-se na direção do egoísmo e do individualismo de interesses. O sentimento do amor é acompanhado por paixões odientas e irascíveis. A amizade pode escorregar rapidamente para a inimizade e a piedade tornar-se um sentimento de total indiferença para com o próximo.

O processo formativo educacional humano precisa tomar a sério a ambiguidade que constitui a condição humana e que atravessa também toda a sociedade. Sem considerar esta condição realista da vida humana e social, a educação corre o risco de cair em um puro idealismo. Precisa, portanto, considerar a propensão humana à maldade e a inclinação social e política à corrupção. Com base nisso, partindo da concretude humana e social, a educação pode colocar, como tarefa para si mesma, a busca por ideais de cooperação e solidariedade.

Dewey insere-se na tradição política moderna. A condição humana é movida pela ambiguidade do amor próprio: os sentimentos de amor e solidariedade mesclam-se com ódio, inveja e cobiça (Rousseau). Não é a harmonia e ausência de conflitos que movem a vida social, mas sim a sociabilidade insociável do ser humano (Kant). Assim como vê no outro a própria humanidade que quer formar para si mesmo, o ser humano também o instrumentaliza para fins egoístas, visando atender única e exclusivamente seus interesses individuais.

Portanto, para estes dois autores modernos e, também, para Dewey, a educação forma o espírito democrático capaz de enfrentar a ambiguidade da condição humana e a corrupção da vida social. A educação para a maioridade precisa trabalhar, primeiramente, com os obstáculos individuais, que residem em cada ser humano e que impedem a iniciativa própria para pensar por si mesmo. Kant indica, em seu pequeno escrito “O que é o esclarecimento?”, como a preguiça e a covardia são entreves pessoais à busca pela maioridade, as quais precisam ser vencidas pelo processo formativo coletivo, no qual os educadores possuem papel importante.

John Dewey, pensando a mais de um século depois de Rousseau e Kant, enfrenta os problemas da sociedade moderna industrializada, com suas formas plurais de vida. Por isso, precisa enfrentar o desafio da organização social democrática, com outras lentes, diferentes daquelas destes dois autores. Por isso, a relação entre democracia e educação coloca-se em outros termos, tendo que contemplar tanto as formas urbanas de vida como os novos modos de organização política, orientada pela democracia representativa.

O importante, para tratar da ambiguidade da sociedade, é que a educação dada por determinado grupo social tende a socializar os seus membros. Ou seja, embora há um espaço para o exercício da liberdade individual de cada um, para sua capacidade criativa e inventiva, o fato é que o grupo social e o contexto social mais amplo terminam por influenciar a formação cultural dos educandos. Neste sentido, definir e construir participativamente as aspirações e os hábitos do grupo é decisivo para o tipo de ser humano que se pretende formar.

O educando, como criança, precisa realizar experiências concretas que se confrontem com sua imaturidade e egoísmo infantil. Sem tal confronto, a criança continua pensando que é o centro do mundo. Se sua onipotência infantil não for pedagogicamente contrastada, tornar-se-á um adulto prepotente e petulante, que se concebe como dono do mundo, sem disposições psíquicas e intelectuais mínimas para o exercício social solidário e cooperativo.

Dewey, por considerar a força extraordinária do grupo na formação da personalidade e dos valores construtivos do humano, investiu parte significativa de seu tempo na realização de experiências práticas de educação. Criou e acompanhou de perto a escola laboratório na Universidade de Chicago. A ideia era oportunizar às crianças e aos jovens experiências de socialização democrática, indicando aos envolvidos vivências concretas de solidariedade e respeito recíproco.

O laboratório escolar partia do princípio de que a criança aprende agindo. O contato frequente com as coisas, realizando experiências em grupo, na presença de outras crianças, permitia ao educando sentir-se estimulado para avançar em sua formação, buscando descobrir soluções para seus problemas. A interação em grupo, com crianças da mesma idade, acompanhadas pelo trabalho pedagógico do adulto, é o principal mecanismo de formação afetiva, cognitiva e moral do educando.

A força da vida social na formação do educando mostra-se por meio da influência do grupo. Se não há sociedade fora da pluralidade dos grupos sociais, também não há educação do ser humano sozinho. Por isso, a aposta na formação de grupos pedagogicamente orientados é importante para a realização do projeto político pedagógico da escola, para o exercício democrático do currículo, do trabalho em sala de aula e, por fim, do processo de ensino e aprendizado como um todo, no universo escolar. Podemos ver o quanto este ideal democrático de educação apregoado por Dewey, com acento no papel formativo do grupo, ainda é necessário e atual para continuarmos pensando sobre a educação escolar.  

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