Vivemos sob a ditadura dos decibéis

Postado por: José Ernani Almeida

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Há um recorrente problema que enfrentamos no dia a dia: o barulho, que se agrava  aos sábados, domingos e feriados em alguns pontos da cidade. Barulho é, por definição, um som indesejável.

Ele varia em sua composição em tempos de frequência, intensidade e duração. Sons que são agradáveis para algumas pessoas podem ser desagradáveis para outras. Por exemplo, os sons de música podem ser divertidos para alguns, mas outros os consideram lesivos. Portanto, para um som ser classificado como “barulho” este deve ser julgado pelo ouvinte.

Acontece que estamos vivendo atualmente sob uma implacável ditadura de decibéis, vindos das mais diferentes fontes: ônibus e caminhões urram dentro do que a lei lhes  permite. Muitos urram fora da lei.  Uivam motos sem silenciosos. Pneus cantam nas curvas.  Em termos de agressão sonora nada se compara com os  carros,  cujos  porta-malas  se  abrem,  revelando uma  autêntica  bateria  de alto-falantes, verdadeira  usina de  decibéis.

Tente circular nos  fins  de  semana  pela  Av. Brasil, entre  a Escola Notre Dame  e  a igreja  da Paróquia São Vicente de  Paulo. Ou, então, entre  o Banrisul  da Gen. Neto  e a agência da Caixa Federal. Também  nas  vias próximas  aos postos de combustíveis. É  um verdadeiro  teste  para  os ouvidos  e  para o bom gosto.  E mais.  Você  dará toda  a  razão  a  Theodor Adorno  que, em meados  do século passado, sustentou  que o  predomínio  da indústria  cultural da música – aquela  orientada para a venda  e não  para a qualidade – produzia o que ele chamou  de  “regressão da audição”.

A  ideia central é que a  relação  com a música oferecida  pela  indústria  impelia  o  público  a um  “estado infantil”, criando ouvintes  dóceis  e  incapazes de  apreciar  a  música, porque  só reagiam  ao que já lhes  apresentara  anteriormente o  mercado.

Este ouvido  deformado  não poderia  se concentrar  em nada  complexo. É exatamente  o que  acontece hoje.  Independentemente do que se ouve, sequer  a  letra  parece  ter alguma  importância.  Foi-se o tempo em que  compositores  tinham algo a dizer.   As  baterias  sonoras  aquarteladas  pela cidade, capazes  de fazer  tremer  dois quarteirões,  só  apresentam  aquilo  que   os proprietários  dos carros  devem achar que  é “música”.

Muitos dirão que gosto, afinal, é  aquele  de  cada  um e que a  simples  ideia  de “mau gosto”  é arbitrária, elitista, etc.  A  verdade  é que via de regra, posições relativistas  como estas, sempre  são defendidas  entre pessoas  de mau gosto. Fico   imaginando como a  Paróquia  São Vicente de Paulo  consegue  realizar  com tranquilidade  as missas no domingo à  noite. Se não houver  uma total concentração  nos  cânticos   religiosos, os fiéis  correm o risco de entoar, por engano,  os  sucessos  sertanejos, gaudérios, funks ou raps  do momento, tal é o cerco sonoro  a que são submetidos.

O  fato  é que  hoje  boa parte da cidade vive, invariavelmente, imersa em   barulho  constante  ( ou quase constante) , muitas vezes  sem se dar conta disso. Esta situação é vista por muitos  como inevitável, o que não é verdade.  Agora, a  Lei  4.849/2011, que  previa  a proibição de estacionamento  em um  raio de  100 metros  dos postos de combustíveis, das  22h às 6h, foi considerada inconstitucional pela   Justiça  do  Rio Grande do Sul.  Isto é, o que já estava  ruim, tende  a piorar.

Precisamos de uma ferramenta que  ajude a  conscientizar   a população  quanto  ao controle  de emissão de ruídos. Tudo  deve começar  pela educação das  crianças, mostrando a elas  os problemas  da sociedade  moderna, incluído a poluição sonora.

Para fomentar a conscientização sobre o problema do ruído, surgiu  em 1996,nos  EUA, a  campanha do Dia  Internacional da  Conscientização sobre o Ruído – 29 de abril – onde, através de  várias  atividades, é promovido o debate e orientação  para  o controle dessa poluição.

Na  verdade,  estamos confundindo  alegria com barulho.  O prazer  de uns  poucos não pode  ser  à custa do incômodo de outros. Ninguém  é  obrigado a suportar  o péssimo gosto  alheio,  principalmente  quando ele nós  é imposto aos berros.  Aliás, uma característica  do mau  gosto,  é que ele precisa  ser  espalhado  aos quatro ventos.  Uma  regra  obrigatória  é  básica:  contra  a barbárie – mesmo que convertida em tecnologia de ponta –, a lei.

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