Aspectos formativos do grupo social

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A educação é um processo social, que nasce e se desenvolve diretamente relacionada com as formas de vida proporcionadas pelos grupos sociais. É no seio de tais grupos que ocorre a trama de relações que moldam formativamente o modo de ser e viver dos seres humanos. No VII capítulo de Democracia e Educação, Dewey se ocupa com o vínculo entre educação e grupos sociais. Da análise deste vínculo depende também a justificativa da dimensão democrática da educação.
Há, segundo ele, dois aspectos importantes que constitui o grupo social, independentemente de sua natureza, de ser um grupo de ladrões ou um grupo familiar, organizado com base em princípios éticos, de solidariedade e respeito recíproco. O primeiro aspecto refere-se ao interesse mantido em comum, que enlaçam os grupos sociais entre si. De uma maneira ou outra, sempre existe o interesse maior que aproxima os integrantes do grupo. Embora tenham objetivos individuais diferentes, tornam-se conscientes de que tais objetivos só podem ser alcançados pela união do grupo e pela ação em parceria. 
O bom êxito do roubo, no caso do grupo de ladrões, por exemplo, depende que seus integrantes estabeleçam boas estratégias e possam segui-las de maneira unida. O desacordo em relação às estratégias e seu não cumprimento põem em risco a execução da tarefa. Mesmo no caso do grupo de ladrões, que é um bom exemplo de grupo destrutivo, denotando o tipo negativo de socialização, o cumprimento de regras é indispensável para a execução de tarefas.
De outra parte, impedir que o roubo aconteça exige a descoberta prévia de seu plano e o desmantelamento das estratégias. A ação investigativa da polícia civil é aqui indispensável. Como grupo social, ela possui regras, estabelece estratégias e adota determinado procedimento. Contudo, se um de seus componentes for corrupto e participa, ao mesmo tempo, do grupo de ladrões, pode oferecer formações privilegiadas ao próprio grupo, fazendo com que os ladrões se antecipem às estratégias da polícia civil.
O exemplo destes dois grupos é suficiente para mostrar o quanto um depende do outro, tanto no sentido do avanço como no combate à criminalidade. Mostra o quanto a sociedade é resultado da trama entre os mais diferentes grupos sociais, mesmo aqueles que estão em lados bem opostos. Na situação mais dramática em que os seus objetivos se opõe drasticamente, como é o caso do grupo da polícia civil e do grupo de ladrões, o objetivo de um depende do outro: o sucesso dos objetivos da policial civil depende do fracasso dos objetivos do grupo de ladrões e vice-versa. 
O segundo aspecto que caracteriza qualquer grupo social é, segundo Dewey, sua interação e intercâmbio com outros grupos sociais. Este aspecto é importante porque mostra que um grupo não pode existir isoladamente e, mais ainda, que a sociedade nada mais é do que a tessitura de grupos sociais com perfil e objetivos distintos, interagindo entre si. Apesar da diversidade, eles dependem um do outro para sobreviver. Contudo, o laço de unidade que pressupõe cooperação e solidariedade é mais forte ou mais fraco dependendo do grupo social, de seus interesses e do procedimento adotado para alcança-los.
No caso do grupo de ladrões, tanto os objetivos como os procedimentos conduzem não só a desagregação progressiva de seus membros como também o isolam de outros grupos sociais. A desagregação acontece, entre outros fatores, porque dificilmente impera ideias de justiça na partilha do objeto resultante do roubo. O mais forte tende a ficar com a maior parte, deixando até mesmo os outros sem nada. Em quadrilhas bem organizadas, com planejamento criminoso a médio e longo prazo, dificilmente acontece isso. 
De outra parte, o isolamento do grupo de ladrões em relação a outros grupos sociais é notório, sobretudo, quando impera a ética e o desejo de justiça na sociedade. Ninguém tolera de bom grado conviver com ladrões e corruptos. A indignação diante do roubo leva (ou deveria levar) ao isolamento do grupo de ladrões. A própria sociedade, quando bem organizada e orientada fortemente por ideias de justiça e cooperação solidária possui maior força para resolver a criminalidade e recuperar os criminosos ou isolá-los quando for o caso.
Algo diferente ocorre com o grupo da família que busca pautar sua formação em ideias éticos de justiça e respeito recíproco. Em primeiro lugar, para este grupo, o roubo é considerado como crime e desprezado eticamente. Não roubar passa a ser o princípio moral que orienta a ação de todos os seus membros, em sua vida cotidiana. Todos os seus membros são chamados a construírem uma forma de vida na qual o roubo deve estar ausente e certamente criam mecanismos próprios de punição para evitar que o mesmo aconteça e se espalhe no tecido social.
Dewey ressalta ainda, neste contexto, que a maior e melhor experiência de um membro do grupo familiar serve como exemplo para os outros membros. As referências normativas dos mais velhos são, neste sentido, basilares para a formação dos mais novos. A criança observa de perto o que seu irmão mais velho ou o que seus pais fazem e tenta imitá-los imediatamente, independentemente do tipo de ação. Então, se possui a oportunidade de imitar boas ações, moldará de maneira saudável seu carácter, aprendendo a respeitar os outros e a si mesma. Caso contrário, será influenciada a agir desde cedo contra a boa convivência social.
Também, neste mesmo contexto, se a família não é um grupo isolado e se deixa orientar por padrões éticos definidos, escolherá certos grupos sociais com os quais pretende se relacionar. Em vez de se relacionar com o grupo de ladrões e deixar que seus filhos perambulem dia e noite pela rua, escolhe a escola. Não só envia seus filhos para este grupo social, como acompanha de perto seu desenvolvimento.
Família e escola são, para Dewey, dois grupos sociais indispensáveis para a formação moral do educando. Elas são indispensáveis à formação do espírito solidário e cooperativo, sem os quais não há democracia como forma de vida e como organização social. Ou seja, a disposição participante e interdependência depende tanto de grupos sociais como a família e a escola quanto estas também dependem daquelas. É o enlace entre elas que formam o espírito democrático.  
Ora, do ponto de vista formativo do ser humano é muito instrutiva a comparação entre o que significa para o educando ter, por um lado, a experiência de vida no grupo de ladrões e, por outro, no grupo familiar reforçado pelo grupo escolar. Enquanto no primeiro a maldade e corrupção humana encontro terreno fértil para seu desenvolvimento, no segundo grupo social, principalmente na família, há boas possibilidades, devido ao ambiente de afeto e bom acolhimento, que o educando possa alcançar a autoestima indispensável para sua dignidade humana. 

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