Belchior

Postado por: José Ernani Almeida

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Ao longo desta semana conversei muito com amigos, pessoalmente ou  pelo  face, sobre  Belchior. Lamentamos emocionados a morte do grande compositor.  Muitos lembraram   de sua passagem por Passo Fundo no início dos anos 1980. Na época, tive o privilégio de entrevistá-lo na rádio Planalto. Depois da entrevista o levei em meu  “fusca” conhecer  o  Campus  da  UPF e  a uma  tabacaria  comprar  fumo  para  seu inseparável  cachimbo.

A pergunta que  não quer  calar  é por que  Belchior  abandonou tudo, quando poderia continuar  compondo, gravando e  lotando  teatros  com suas  apresentações ? Por que   optou pelo total anonimato e viver de   favores, escondido?  Talvez   a explicação  esteja na letra da antológica  Alucinação: “ A  minha   alucinação é suportar o dia-a-dia. E meu delírio  é a experiência com coisas reais”.

Em  um tempo  de  exposição absurda   em que através  das redes  sociais, assistimos  ao culto da ostentação, do parecer  ser o que não  se é , em que  tudo  é  mostrado até  as  raias  do ridículo, Belchior  optou  pelo  silêncio, pela  humilhante  situação de viver  de favores, pela  vida  de  um andarilho, de um   autêntico retirante  nordestino, aliás, sua  origem. Os   jornais  deste final de  semana  revelam que ele  e sua parceira foram  acolhidos durante um bom tempo, por pequenos  agricultores e pelo MST em Santa  Cruz do Sul. Também foram hospedados  em um mosteiro  de  freiras.

Qual seria  o medo de  Belchior ?  Talvez  encontremos a resposta  na canção “ Pequeno Mapa do Tempo” : “Eu tenho medo, e já aconteceu. Eu tenho medo, e ainda está por vir! Morre o meu medo ? Isto não é segredo:  eu mando buscar  outro lá no Piauí”. Ou então em “Apenas  um rapaz latino-americano”: “ Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isto é somente uma canção. A vida , realmente, é diferentes. Quer dizer: ao vivo é muito pior!”.

Belchior  não se  deixou  dominar  pelo mercado. Ufa! Belchior, teve a coragem de ir  contra  a corrente. Teria  sido  este o  seu último   desafio, a sua última  marcante  lição? “ Amar e mudar  as coisas, me interessa mais”. Foi   o  grande  recado deste  indomado cearense ao sistema que  elimina  quem  não segue  à  risca  a sua  receita. “Se você  vier me perguntar por onde andei no tempo em que você  sonhava, de olhos  abertos, lhe direi: - Amigo, eu me desesperava”.

“Saia do meu  caminho! Eu prefiro  andar sozinho. Deixem que eu decida a minha!  Não preciso que me digam de que lado nasce o  sol. Porque  bate  lá meu coração”, cantou Belchior na canção  Comentário  a Respeito de  John.  E exatamente  assim  ele  viveu os seus últimos  10 anos. Buscou  o  abrigo junto aos seus fãs, que  lhe  deram o que  precisava: uma  cama  para dormir, um prato de comida, uma diária de hotel.

Como um autêntico ícone da  contracultura não se  deixou seduzir pelas  tentações  da indústria musical e  morreu sem fazer  concessões.  Em setembro próximo o jornalista Jotabê Medeiros  vai lançar uma  biografia de Belchior. Talvez, através   dela  possamos  saber um pouco mais  dos mistérios  sobre  o cantor-compositor. A  verdade  é que Belchior já se transformou em um  mito, que entra para a história  da música  como uma esfinge  a ser desvendada pelas próximas  gerações.

A nós   “rapazes latino-americanos, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindos do interior”,    restará  ouvir  suas  contundentes  canções:

“Quando eu não tinha  o olhar lacrimoso que hoje eu trago e tenho/ quando adoçava  meu pranto e meu sono no bagaço de cana do engenho/ quando eu ganhava esse  mundo de  meu Deus/Fazendo, eu mesmo, o meu caminho por entre fileiras do milho verde que ondeia, com saudade do verde marinho;/ eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais/ Como um galo, quando havia.. quando  havia  galos, noites e quintais/. Mas veio o tempo negro e, à   força , fez comigo o mal que a força sempre faz/. Não sou feliz, mas não sou mundo: hoje eu canto muito mais”.

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