O governo despótico e a “velha educação”

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O que dá unidade ao grupo social é sua capacidade de enlaçar seus membros, unindo-os uns aos outros. O laço social pode assumir diferentes direções, desde as mais democráticas até as mais despóticas e autoritárias. No campo político, Dewey toma, ainda no capítulo VII de Democracia e Educação, o governo despótico como exemplo paradigmático do laço autoritário e coercitivo entre seus membros. Em tal governo predomina o temor e o medo, em vez do amor e respeito.

É importante reconstruir de perto o modo como o pedagogo americano analisa o governo despótico porque tal forma de governo simboliza, no campo político, o autoritarismo que também é próprio, no campo pedagógico, à relação entre educador e educando. A semelhança entre política e educação aqui é clara, emergindo dela inclusive as fontes para pensar a relação entre democracia e educação. Ou seja, pensar democraticamente a educação significa criticar o governo despótico e a “velha educação” que lhe acompanha.

O governo despótico não se refere somente a um período histórico, do mesmo modo como a velha educação. Se cristalizam em formas de vida e também podem estar mesclados com o cotidiano educativo de grupos sociais como a família e a escola. Trata-se de uma forma de governo autoritária que pode se manifestar sub-repticiamente na atitude do adulto que educa a criança, do pai que se relaciona com o filho e do professor com seu aluno. Deste modo, a postura despótica, como ficará claro abaixo, caracteriza-se por coibir a liberdade individual e a disposição ativa e participante do educando.

Qualquer ação de governo implica a capacidade de mobilizar os governados. Precisa movê-los em suas ações, ativando suas capacidades. No caso do governo despótico, um de seus principais mecanismos movente é o temor. Contudo, o próprio temor não precisa ser somente um fator indesejável na experiência. Nenhum ser humano aguantaria viver o tempo todo sob a pressão do medo. Sucumbiria diante dele ou se revoltaria contra ele. O governo despótico inteligente calcula sua ação, desencadeando um processo de recompensa que suaviza a força do temor. É isto que o torna de certa maneira suportável à experiência humana.

Assim afirma Dewey: “A precaução, a circunspeção, a prudência, o desejo de prever os sucessos futuros tanto quanto o de evitar o que é prejudicial, todos estes traços desejáveis são um produto de pôr em jogo o impulso de temor, como o são a covardia e a submissão irrestrita”. O móbile do temor pode variar de um extremo ao outro, mostrado que o próprio temor não se sustenta por si mesmo, pois não possuindo a finalidade em si. É um meio para se alcançar outro fim. De qualquer forma, ao se apoiar em um aspecto, precisa deixar outro de lado, pois, no caso da citação acima, a prudência dificilmente combina com a covardia e a submissão.

O problema do despotismo é, como alerta Dewey, que ele foca somente em certos móbiles da ação, deixando de fora justamente aqueles que são mais importantes para o governo democrático e a “nova educação”. Impede, com isso, o número extenso de interesses comuns e o livre jogo do avanço e retrocesso entre os membros do grupo social. Deste modo, ausência de intercâmbio e posição do sentido em uma única direção caracterizam o governo despótico. Por isso, não constitui uma sociedade livre, que oferece oportunidades equitativas a todos os seus membros.

Qual a repercussão destes princípios despóticos para o campo educacional? Eles formam justamente o antídoto da educação democrática. Em primeiro lugar, não possibilitam a diversidade de iniciativas e experiências compartilhadas, as quais são indispensáveis para o desenvolvimento da pluralidade das disposições humanas, nas suas mais diferentes direções. O educador vê no educando somente as disposições que interessam a si e ao próprio governo despótico.

Em segundo lugar, e este é o aspecto metodológico nuclear da educação despótica, o professor impõe ao seu aluno, pelo temor e ameaça, o laço pedagógico. Deste modo, reduz o aluno à condição passiva, precisando desativar boa parte de suas disposições para poder torna-lo ouvinte passivo do conteúdo a ser transmitido. Reduzi-lo à posição passiva é indispensável para torna-lo subserviente ao governo despótico.

Em terceiro lugar, e esta é a principal consequência política do velho modelo educacional que resulta do governo despótico, “as influências que educam uns para senhores também educam outros para escravos”. Há, manifestamente, um sentido hierárquico que distingue nitidamente os seres humanos, colocando uns como superiores e melhores do que outros, os quais são concebidos (“formados”) como inferiores. A meta da velha educação é naturalizar a superioridade de uns em relação aos outros. Ora, a meta principal da educação democrática é mostrar o quanto tal naturalização é inaceitável.

Por fim, como aponta Dewey, a falta de intercâmbio livre e equitativo que surge de uma variedade de interesses compartilhados termina por desiquilibrar os interesses intelectuais. “A diversidade de estímulos significa novidade e a novidade significa incitação ao pensar”. A velha educação que ocorre no âmbito da sociedade fechada e autoritária impede o livre pensamento, não permitindo o desenvolvimento das disposições humanas em todas as suas direções. Sem ser incitado ao pensar, o ser humano reduz-se a um vegetal; possui vida na ordem das coisas, mas não pode sair do lugar.

Pluralidade de iniciativas, posição ativa do educando e igualdade de condições são ausências visíveis da velha educação. Como o educando precisa ser educado para a obediência irrestrita, quanto mais for colocado na posição passiva, mais atende tal finalidade. Diversamente ocorre na sociedade democrática, a qual motiva a participação efetiva de seus membros. Por isso, ativar a disposição participante do educando é uma meta crucial da nova educação. Sujeitos participantes, com capacidade de pensar por conta própria, é o ponto de partida da sociedade democrática.

Em síntese, está em jogo, pedagógica e politicamente, na crítica que Dewey faz ao governo despótico, a possibilidade da autonomia humana e a capacidade do ser humano de governar a si. Na condição de subserviência irrestrita, ele torna-se escravo, distanciando-se da liberdade individual que é condição de sua maioridade. O despotismo que está na base da velha educação forma um pensamento hierárquico autoritário que é incompatível com o mínimo de reciprocidade e respeito recíproco que uma sociedade livre exige.

Dewey, inserindo-se na esteira da tradição iluminista progressista, vê na educação democrática uma oportunidade concreta de invenção da autonomia humana. Seres autônomos, capazes de pensarem por si mesmos, formam a condição inicial indispensável para sua participação qualificada no espaço público. Daí porque a educação é um mecanismo poderoso e influente na formação da sociedade livre e democrática. Sem ela prevalece o domínio opressor de poucos sobre muitos; poucos sendo educados para o mando irrestrito e muitos para a obediência cega.

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